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#Comédias#Literatura Brasileira

Verso e Reverso

Por José de Alencar (1857)

Ernesto — Ora, graças a ti, estou livre de uma grande inquietação!... Mas quero confessar-te uma injustiça que cometi para contigo, e de que me acuso.

Henrique — Como assim?

Ernesto — Quando vi os moços aqui da corte, com seu ar de pouco caso, julguei que não passavam de espíritos levianos! Hoje reconheço que sob essa aparência frívola, há merecimento real e muita nobreza de caráter. Tu és um exemplo. A princípio, desculpa, mas tomei-te por um sujeito que especulava sobre a amizade para a emissão de bilhetes de benefício e de poesias inéditas!

Henrique (rindo-se) — E mais é que às vezes assim é necessário! Não podemos recusar certos pedidos!.

CENA V

Os mesmos, Custódio

Custódio (na porta) — Muito bons dias tenham todos nesta casa.

Ernesto (a Henrique) — Oh! Aí vem o nosso compadre como seu eterno que há de novo. (A Custódio) Bom dia, Sr. Custódio, como vai?

Custódio (desce) — Bem, obrigado! Vai-se arrastando a vida enquanto Deus é servido. (Aperta-lhe a mão) Que há de novo?

Ernesto (rindo) — Tudo é velho; ali estão os jornais, mas não trazem coisas de importância.

Custódio — Conforme o costume. (Voltando a Henrique) Tem passado bem? Que há...

Henrique — Nada, Sr. Custódio, nada absolutamente.

(Custódio vai sentar-se à mesa e lê os jornais).

Ernesto (a Henrique) — Nas províncias não se encontra essa casta de bípedes implumes, que vivem absorvidos com a política, esperando antes de morrer ver realizada uma espécie de governo que sonharam e que se parece com a república de Platão!... Eis o verdadeiro tipo da raça desses fósseis da Independência e do Sete de Abril. Cinqüenta anos de idade, empregado aposentado, bengala, caixa de rapé e gravata branca. Não tem outra ocupação mais do que ler os jornais, perguntar o que há de novo e queixar-se da imoralidade da época.

Henrique (rindo) — Serviam outrora para parceiro de gamão nas boticas.

Custódio (lendo) — Oh! Cá temos um artiguinho da oposição!... Começa! Já era tempo! Com este ministério não sei onde iremos parar.

Ernesto (a Henrique) — Agora ei-lo ferrado com o tal artigo! Bom homem! Quando eu queria conversar com Júlia, nós o chamávamos sempre. Assim éramos três, e ao mesmo tempo estávamos sós; porque, agarrando-se a um jornal, não ouve, fica cego. Podia apertar a mão de minha prima que ele não percebia!

Henrique — Esta habilidade não sabia que eles tinham.

Ernesto — Pois recomendo-te!

Henrique — Fica ao meu cuidado. Adeus; dá cá um abraço; até a volta.

Ernesto (abraça) — Adeus, Henrique; lembra-te dos amigos, (Quer segui-lo)

Henrique — Não te incomodes. (Sai).



CENA VI

Ernesto, Custódio, Teixeira, Júlia

Custódio (erguendo-se com o jornal na mão) — Isto é desaforo!... Como é que um governo se anima a praticar semelhantes coisas na capital do império?

(Teixeira e Júlia têm entrado enquanto fala Custódio).

Teixeira — Que é isto, compadre! Por que está tão zangado? (A Ernesto) Ernesto, como passaste a noite?

Ernesto — Bem, meu tio.

Custódio (mostrando o jornal) — Pois não leu? Criou-se uma nova repartição! Um bom modo de arranjar os afilhados! No meu tempo havia menos empregados e trabalhava-se mais. O Real Erário tinha dezessete, e fazia-se o serviço perfeitamente!

(Júlia senta-se na conversadeira).

Teixeira — Que quer, compadre? É o progresso.

Custódio — O progresso da imoralidade.

(Teixeira toma um jornal sobre a mesa; Custódio continua a ler; Ernesto aproximase de Júlia)

Ernesto — Um minuto!... Foi um minuto com privilégio de hora!

Júlia (sorrindo) — Acha que me demorei muito?

Ernesto — Inda pergunta! E agora aí está meu tio, não teremos um momento de liberdade!

Júlia — Sente-se! Podemos conversar.

Ernesto (sentando-se) — Preferia que conversássemos sem testemunhas!

Júlia — Tenha paciência, não é culpa minha.

Ernesto — É de quem é, Júlia? Se não se demorasse! (Entra Augusto).



CENA VII

Os mesmos, Augusto

Augusto (entrando) — Com licença!

Teixeira — Oh! Sr. Augusto!

Augusto (a Júlia) — Minha senhora! (a Ernesto e Custódio) Meus Srs.! (A Teixeira) Como passou de ontem, Sr. Teixeira? Peço desculpa da hora imprópria... (Ernesto levanta-se e passa ao outro lado).

Teixeira — Não tem de que. Estou sempre às suas ordens.

Augusto — Como me disse que talvez não fosse hoje à cidade...

Teixeira — Sim; por causa de meu sobrinho que embarca às onze horas.

Augusto — Assentei de passar por aqui, para saber o que decide sobre aquelas cem ações. Talvez hoje tenham subido, mas em todo o caso, não é bom fiar. Se quer o meu conselho — Estrada de Ferro — Estrada de Ferro — e largue o mais.

Rua do Cano, nem de graça! Seguros estão em completa oscilação.

Teixeira — O Sr. pode demorar-se cinco minutos?

Augusto — Como? Mais que o Sr. queira; apesar de que são quase dez horas, e às onze devo fechar uma transação importante. Mas temos tempo...

Teixeira — Pois então faça favor; passemos ao meu gabinete; quero incumbir-lhe de uns dois negócios que podem ser lucrativos.

(continua...)

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