Por José de Alencar (1874)
Ele, um varão chefe, que tinha na obediência de seu arco mais de mil guerreiros valentes, obrigado a reconhecer um dono?
Ele, que afrontava a cólera de Tupã, quando o deus irado rugia do céu, curvar-se ao aceno de um homem, fosse, embora, o mais pujante dos filhos da terra?
Pojucã estremecia quando se lembrava que podia ser condenado a tão grande humilhação.
Em seu terror promovia o passo, com o ímpeto de fugir para sempre da taba dos araguaias, onde o ameaçava aquela vergonha.
Mas uma força invencível atava-lhe a vontade. Ele não se pertencia desde o momento em que Ubirajara calcou-lhe a mão direita no ombro.
Esse era o sinal da conquista, que prendia o vencido ao vencedor; aquele que violasse a lei da guerra, perderia para sempre o nobre título de guerreiro.
O desprezo do inimigo o acompanharia aos seus nativos; e a taba de seus irmãos não se abriria para o fugitivo que houvesse desonrado o nome de sua nação.
Por isso, na cabana solitária, Pojucã está mais guardado do que se o cercasse a multidão dos guerreiros araguaias.
Vela ele próprio em si, porque vela em sua fama.
Pode Ubirajara esquecê-lo que na volta o encontrará ali onde o deixou.
Nada o arrancará da cabana; nem a necessidade de buscar o alimento para o corpo.
Bem-vinda será a fome, se durar tanto que prostre seu corpo robusto, e o entregue ao seio da terra, onde o guerreiro dorme o sono da glória.
Além, rompe da selva Ubirajara, que se encaminha para a cabana com o passo rápido.
Segue-o de perto Jandira, como a gentil corça acompanha o caçador, que roubou-lhe o companheiro.
Descobrindo o chefe dos araguaias, Pojucã encerrou a tristeza dentro de sua alma; e chamou ao rosto a altivez dos grandes guerreiros.
O chefe tocantim não queria que seu vencedor se regozijasse de ter-lhe abatido o ânimo inflexível.
Quando Ubirajara aproximou-se da cabana, Pojucã tomou-lhe o passo.
— Ubirajara, senhor da lança, grande chefe da nação araguaia, não confessaste tu, diante dos anciões das tabas e de todos os teus guerreiros, que Pojucã era o varão mais forte e o mais terrível no combate, que o sol tinha visto até o momento de ser vencido por ti?
— Ubirajara o disse. É a voz da nação araguaia.
— Desde que tu cruzaste comigo a seta do desafio até este momento, Pojucã, guerreiro varão, e chefe de uma taba na valente nação dos tocantins, mostrou-se pela sua constância e valor digno do sangue de seus avós?
— Pojucã o disse, e a fama o repete.
— Então, por que Ubirajara, o grande chefe dos araguaias, não concede a Pojucã a morte gloriosa, que os tocantins jamais recusaram a um guerreiro valente, e que somente se nega aos fracos? Já não serviu Pojucã à tua glória na festa do triunfo? Esperas dele que te obedeça como um escravo? Se aviltas o varão a quem venceste, humilhas o teu valor que ele exaltava.
O grande chefe araguaia ouviu sem interromper o prisioneiro e respondeu com gravidade
— Ubirajara não recusa ao bravo chefe tocantim, seu terrível inimigo, o suplício, que não negaria a qualquer guerreiro valente. Ele esperava que tua ferida se fechasse de todo, para que o grande Pojucã possa, no dia do último combate, sustentar a fama de seu nome, e a glória de um varão que só foi vencido por Ubirajara.
O grande chefe dos araguaias levou aos lábios a inúbia de Camacã; a voz do mando reboou pelo vasto âmbito da taba.
Apareceram vinte jovens guerreiros, a quem ele ordenou que chamasse a conselho os anciões.
Depois tornou ao chefe tocantim
— Os araguaias receberam de seus avós o costume das nações que Tupã criou. Eles destinam ao prisioneiro a mais bela e a mais ilustre de todas as virgens da taba, para que ela conserve o sangue generoso do herói inimigo e aumente a nobreza e o valor de sua nação.
"É esta também a lei, que os guerreiros tocantins observam em suas tabas.
"A mais bela e a mais nobre de todas as virgens araguaias, aquela que se ergue como a palmeira no meio da campina coberta de flores, é Jandira, a filha de Majé, que tem no seio os doces favos da abelha."
Travando então do pulso de Jandira, que ali ficara presa de sua vista, levou-a ao prisioneiro.
— Recebe-a como esposa do túmulo.
Jandira, que ouviu espavorida aquelas palavras, quis fugir; porém a mão do chefe araguaia a reteve.
— Ubirajara parte, mas ele voltará para assistir a teu suplício e vibrar-te o último golpe. Pojucã terá a glória de morrer pela mão do mais valente guerreiro.
Ficaram Jandira e Pojucã em face um do outro.
— Virgem dos araguaias, Tupã te reservou para esposa do mais terrível dos inimigos de tua nação. O filho de seu sangue será o mais valente dos guerreiros; tu sentirás orgulho por havê-lo gerado em teu seio.
— Pojucã, chefe tocantim, Jandira nunca será tua esposa.
— Não é Ubirajara o chefe de tua nação, e não te destinou ele para servir de noiva do túmulo ao guerreiro que vai morrer no suplício?
(continua...)
ALENCAR, José de. Ubirajara. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16679 . Acesso em: 28 jan. 2026.