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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Juízo tem ela; mas é juízo de moça rica, muito diferente do juízo de moça pobre. O velho Soares é uma máquina de fazer dinheiro; vive no escritório. A mulher, esta suporta a sua opulência como um cativeiro. Os outros filhos ainda estão no colégio. Quem há de suar daquela riqueza e da posição que ela dá senão Guida?

- Podia usar de uma maneira mais séria e mais útil.

- Não seria então uma criança de dezesseis anos? 

- Mas é justamente por não ser uma criança que eu a censuro. A travessura aos dezesseis anos é inocente; não tem a malícia das comédias de mau gosto representadas por essa moça. 

Fábio voltara-se cuidando ouvir um rumor. Os dois amigos conversando ao lado um do outro tinham deixado a estrada e tomado um atalho que descia pela encosta da montanha. 

- No fim das contas, assim deve ser, acrescentou Ricardo. Ela é muito bonita e muito rica; deve ter algum defeito; são os espinhos da rosa, como diria um poeta, ou o azinhavre do ouro, como dirá naturalmente o marido que lhe desfrutar o dote.  

Conversavam os dois amigos de coração aberto, em voz clara, como quem não se receia de ouvir o eco de seu pensamento; não se lembrando que as folhas das árvores têm olhos, e as brisas ouvidos sutis. 

Expiravam as últimas palavras quando soaram distintamente no chão batido do caminho, que lhes ficava sobranceiro, passos de animal. Erguendo os lhos viram a linda amazona que passava lentamente de volta de seu passeio. Não abaixou a cabeça nem voltou o rosto; mas um olhar cintilou sob o véu espesso, como a luz de um relâmpago, e caiu sobre os dois moços, apagando-se logo. 

- Terá ouvido? perguntou Fábio rindo. 

- É provável! disse Ricardo com indiferença. 

- Nesse caso estamos comprometidos. 

- Por que razão? 

- Tinha uma idéia. O Soares está passando o verão aqui na Tijuca. Sabes, assim no campo, tomam-se relações com muita facilidade. Queria ver se nos apresentavam sua casa. 

- Que lembrança! Havíamos de fazer uma bonita figura no meio dessa gente que arrota ouro, nós dois pobretões!

- Talvez a riqueza pegue como a lepra!

- Pega; quando se tem mau sangue. 

- Mas, fora de graça: é preciso fazermos relações, adquirir amigos, do contrário nada alcançaremos.

- Não digo o contrário. 

Continuando a conversa, chegaram os dois moços a um pequeno vale escondido entre duas pontas da montanha. Um escasso ribeiro descia em cascata rumorejando por entre as pedras, e serpejava à sombra das bananeiras. No meio do vale havia uma pequena casa cercada por algumas fruteiras. 

 

IV 

 

Por entre duas linhas de cafezeiros aparecia a porta da casa; e em pé na soleira, uma velhinha de cabelos brancos em carrapito, com vestido de chita amarelo e um lenço vermelho de Alcobaça, cruzado ao peito. 

Era D. Joaquina Sampaio, tia de Fábio e senhora de pequena propriedade. Passava ela entre todos os parentes como rica, porque possuía esses dois palmos de terra e uns três centavos. Com a sua rocinha, como ela lhe chamava, ia vivendo, pobremente sim, mas tranqüila e feliz. 

Tudo ali era velho: a casa, as árvores, a dona e os escravos. A mocidade só brilhava no renovo das plantas e no semblante dos dois amigos, que passavam habitualmente o domingo em companhia da velha. 

- Vocês hoje não têm muita fome! disse D. Joaquina apenas avistou os dois moços. 

- Ao contrário, minha tia, tragos duas fomes em vez de uma, respondeu Fábio. 

- Pois não parece. Já o sol está entrando pela casa, replicou a senhora mostrando a réstia no pavimento da sala.

- É tarde com efeito! disse Ricardo. 

O moço levara maquinalmente a mão ao bolso do colete para tirar o relógio; mas reprimiu o movimento involuntário, enquanto um sorriso triste lhe fugia dos lábios. Tivera há dias necessidade de pagar algumas dívidas impertinentes. Era preciso vender o cavalo ou o relógio; preferiu desfazer-se deste último traste. Que lhe importava saber com exatidão as horas, se elas não lhe traziam nenhuma felicidade? 

O almoço era frugal como de costume. Café com leite muito bem feito, três pães, um para cada pessoa, e excelentes bananas-maçãs. Todos os domingos punha-se invariavelmente no meio da mesa uma grande manteigueira de louça azul, como era o resto do aparelho. Fábio nos primeiros tempos destampava sem cerimônia a manteigueira e empastava a fatia; mas acabou-se a primeira porção e só restava a crosta ligeira que fica aderente às paredes da louça. Ricardo fez-lhe compreender que não deviam se tornar pesados à excelente senhora, cuja hospitalidade era oferecida de tão bom coração. Desde esse dia a tampa da manteigueira caiu como a lousa de um túmulo, para não mais se abrir. Posta no meio da mesa ela não era mais do que um símbolo ou um emblema; atestava a decência do almoço, pois na opinião da dona da casa não havia mesa capaz sem manteiga. 

No domingo em que estamos, D. Joaquina fez uma surpresa a seus hóspedes. Havia quatro ovos quentes. 

- Oh! exclamou Fábio alegremente. A Nanica brilhou desta vez. 

- Estes sobraram de uma dúzia que estou guardando para tirar uma ninhada. 

(continua...)

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