Por José de Alencar (1875)
Tudo isto interrompido por mil carinhos e entremeado dessa ingênua garrulice com que as
mães falam aos filhinhos de colo, e que êles parecem entender: misteriosa linguagem do mais sublime afeto, formada de arrulhos, de carícias e de ternos balbucios.
D. Flor deixava-se acariciar; e cheia de risos, mostrava no semblante o contentamento que sentia banhando-se nessas efusões de amor.
— Então lembrou-se muito de mim, mamãe Justa? disse D. Flor.
— Nem se fala, gente!
A donzela pôde enfim receber as festas das companheiras da Justa. Com todas mostrou-se afetuosa, porém mais especialmente com uma moça que no seu tímido receio não ousava aproximar-se.
— Adeus, Alina, vem abraçar-me.
Entraram afinal as duas senhoras na sala principal.
— Ainda não me disseste, Flor! tomou D. Genoveva, sentando-se no sofá e chegando a filha para junto de si, como que ainda receosa de que lha arrebatassem. O fogo assustou-te muito, ou não havia nada quando passaste?
— Pensei morrer! exclamou D. Flor erriçando-se à lembrança do transe horrível que passara. Está bom; não fique outra vez aflita! Para que falar mais destas coisas?
— Não; conta, Flor!
— Foi um milagre. O baio espantadiço empacou; a princípio não sabia o que era; quando descobrí o fogo, quis voltar. Estava cercada; via as labaredas correrem para mim, e pareciam-me estarem folgando e rindo do mêdo que me causavam. Mas a fumaça de repente sufocou-me, e não soube mais de mim!… Vi que era chegada a minha última hora e encomendei-me a Deus.
— Jesús! pôde afinal proferir D. Genoveva em quem se repetia a ânsia já passada da filha. E como escapaste, Flor?
— Não sei, minha mãe; respondeu a menina ingenuamente. Disse-lhe já que foi um milagre; não pode ser outra coisa. Nossa Senhora quis valer-me!
— Pois foi mesmo Nossa Senhora da Penha de França! afirmou a Justa, que ouvia de pé. E porisso há de ter a sua novena de arrôjo êste ano, que foi a minha promessa, se trouxesse a minha filha e todos a salvamento.
— Obrigada, mamãe!
— Mas, Flor, como chegaste à casa sem que te acontecesse nada?
— Não posso lembrar-me! respondeu a menina pensativa e evocando do íntimo as vagas impressões que lhe flutuavam no espírito. Desde que a fumaça cobriu-me toda, como se fosse a minha mortalha, não vi mais nada; sé dei acôrdo de mim aqui, neste canapé!…
— Neste canapé ! exclamou D. Genoveva atônita.
— E deitada, como se tivesse dormindo.
— Foi a minha Senhora da Penha, que a trouxe nos braços. Porisso ninguém viu quando chegou.
— É verdade! exclamaram outras vozes de mulher.
— Eu tinha acordado; não sabia onde estava, nem tinha idéia de quê me acontecera. Erguíme e começava a reconhecer a casa, quando ouví gritos no terreiro; corrí à janela e dei com minha mãe.
A moça proferindo estas últimas palavras lançou os braços ao pescoço da mão, e ambas ficaram enlaçadas naquela ardente efusão com que novamente se restituiam uma à outra.
A maneira por que a donzela fôra salva do incêndio, ficou sendo um mistério. A maior parte da gente da fazenda atribuiu o caso à intervenção divina, e acreditava que Nossa Senhora da Penha fizera um milagre em favor da menina e pela intercessão da Justa. Outras, sem afirmar, supunham que a menina, trazida a casa pela disparada do cavalo, que se encontrou atado ao pilar da varanda, apeara-se fora de si e caíra desmaiada de susto no sofá, não se recordando dessas circunstâncias pelo abalo que sofrera.
Quanto a D. Flor, cogitando depois sôbre o acontecimento que ameaçara a sua existência, recordava-se de um grito que ouvira ao perder os sentidos e de um vulto que surgira de repente a seus olhos já anuviados pelas sombras da morte.
Mas essa impressão que ao despertar exalava-se em um nome murmurado à flor dos lábios, seria a fugaz reminiscência deixada por confusa realidade, ou ilusão apenas da fantasia turbada pela vertigem?
IV – A herdade
A morada da Oiticica assentava a meio lançante em uma das encostas da serra.
Erguia-se do centro de um terrado revestido de marachões de pedra sôlta. Por diante, além do terreiro, descia a rampa com suave ondulação até à planície; atrás da habitação, remontava-se ao dorso de uma eminência donde caía abrupta sôbre um vale profundo que a separava do corpo da montanha.
Na frente elevava-se no terreiro, a algumas braças da estrada, a frondosa oiticica, donde viera o nome à fazenda. Era um gigante da antiga mata-virgem, que outrora cobria aquele sítio.
Na ocasião da derrubada, sua majestosa beleza moveu o fazendeiro a respeitá-la, destinando-a a ser como que o lar indígena da nova habitação fundada aí nesses ermos.
As casas da opulenta morada eram todas construídas com solidez e dispostas por maneira que se prestariam sendo preciso, não somente à defesa contra um assalto, como à resistência em caso do sítio.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.