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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Quando tinha a bolsa recheada, e achava encanto no lugar, deixava-se ficar uns oito ou quinze dias, quantos bastavam para concluir alguma aventura amorosa, ou para tirar a sua desforra dos parceiros que no jogo da primeira lhe haviam limpado as onças. 

Ao cabo de uma ou duas semanas, partia-se uma bela manhã, mais ligeiro da bolsa, porém, contente de si, e prazenteiro sempre; levava a alma cheia da plena confiança que adquire o homem errante, habituado à boa e à má fortuna, afeito ao sol e à chuva. 

Neste circuito, muitas vezes consumia o nosso chileno dois ou três anos. Freqüentemente chegava até Sorocaba, onde a grande feira de animais costuma reunir em maio grande número de marchantes de diversas paragens. Estes concursos têm grande encanto para o viajante que pode assim reviver as recordações de cada terra por onde passou. Além disso, na mesa do jogo e nas apostas, corre o ouro a rodo: fazem-se páreos fabulosos que afrontam os mais destemidos. 

Estas coisas, o mascate gostava de ver para contá-las mais tarde nalgum ponto remoto, onde ele pudesse figurar como herói da história, no meio de alguma roda de bonitas muchachas. 

Vendidas todas as fazendas, e apuradas as barganhas feitas pelo caminho, voltava o chileno a prover-se de uma nova carregação para continuar a vida nômade a que se habituara desde a infância. Essa locomoção constante era um elemento de sua existência; seu espírito superficial saciava-se logo das impressões de qualquer lugar, e carecia de uma diversão. 

As pessoas, reunidas na varanda, pitavam o infalível cigarrito de palha, sorvendo a goles o mate chimarrão. A conversa, frouxa em começo, veio a cair sobre a gineta, que é juntamente com as histórias de briga e namoro o tema favorita da conversa dos gaúchos na campanha. 

— Pois, senhores, é o que digo, exclamou o chileno. Nenhum será capaz de montar a égua que trago aí. 

— Talvez seja ela tão chiquita, D. Romero, que um homem não a possa montar, e somente um gambirra, acudiu com ar sardônico um dos camaradas. 

Os outros aplaudiram. 

— Uma coisa é rir, amigos, e outra fazer, redargüiu o chileno. 

— Pois sem dúvida que se há de montar, D. Romero, disse um invernista de São Paulo. 

— Quer experimentar? 

— Mande o senhor puxar a sujeitinha cá para o terreiro! disse erguendo-se um paraguaio. 

D. Romero dirigiu-se ao dono da pousada: 

— Faz favor, amigo, para satisfazer aos senhores. 

Enquanto se foi buscar o animal que estava preso à soga no pastinho, contou D. Romero, como em caminho o apanhara de surpresa perto de um desfiladeiro, há três dias passados. Desde então fizeram ele e os dois camaradas que trazia, os maiores esforços para montá-lo; mas desistiram. 

— Ainda não encontrei quem se atrevesse! concluiu o chileno. 

Um sorriso incrédulo, no qual se embebia sofrível dose de arrogância e motejo, circulou pelos campeiros. 

— Porventura os senhores duvidam? perguntou D. Romero assombrando-se. 

— Não se duvida do conto, mas do animal, que seja como quer o amigo; e se não veremos. 

— O senhor vem lá da terra onde se monta em carneiros ou lhamas, como lhes chamam, disse outro companheiro. 

— Com licença, tenho visto os melhores ginetes e também entendo do riscado.

— Topa o senhor alguma coisa? 

— Tudo, amigo. Tão guapa estampa de animal, não quero que haja em toda esta campanha até Chuquisada. Em Buenos Aires, Montevidéu, ou Porto Alegre. O ponto é apresentá-la que logo me choverão as onças. Pois, senhores, se algum dos presentes for capaz de montá-la, a égua é sua. 

— Valeu! exclamou o paraguaio estendendo a mão ao chileno.

— Palavra de D. Romero. 

— Bravo! exclamaram em coro. Venha a rapariga. 

— Ei-la aí! disse o dono da pousada, apontando. 

Ao lado da casa, junto à mangueira, aparecera com efeito o animal, trazido por um rapazinho que servia de peão. Não tiveram, porém, os companheiros tempo de examinar a égua; porque instantaneamente achou-se ela no pátio diante do alpendre. Com dois corcovos unicamente devorara a distância de muitas braças, que a separava da casa. 

Se não fosse tão ligeiro, o rapazinho não escaparia da fúria com que a égua se arrojara para mordê-lo; felizmente conseguiu ele alcançar o moirão, onde passou a laçada do cabresto, pondo-se fora de alcance. 

Na presença da gente que a cercava, a égua estacou, raspando o chão com a pata arminada de branco. Pôde-se então admirar-lhe a perfeição da estampa. Desta vez, contra o costume, não havia exageração da parte do chileno; era com efeito um soberbo animal. 

Talhe esbelto e fino sobre alta estatura; cabeça pequena, colo cintado e garboso, pelo qual se encrespavam as longas crinas, esparsas como os anéis de basta madeixa; a anca roliça, ligeiramente bombeada e ondulando com os reflexos ardentes do luzido pêlo; os ilhais a se retraírem com um espasmo nervos; e finalmente uma roupagem baia, que nos cambiantes luminosos parecia veludo tecido a fio de ouro; tal era a imagem viva e palpitante que os gaúchos tinham diante dos olhos. 

(continua...)

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