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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

Mas apesar de todo esse rigor, era preciso de tempos em tempos caiar as paredes do dormitório, pois pareciam um pano de rãs, com as figuras e novidades de que as enchia o endiabrado rapaz. 

Afinal, cansados os padres de aturar aquele eterno pinta-monos, e convencidos de que era um borrador impenitente e relapso, despediram-no do pátio, onde pouco aproveitava, pois além de ler e escrever, o mais que sabia era de outiva, e não passava de uma tintura de cada cousa. 

Assim ficou o Ivo senhor de seu tempo, para trocar as pernas pelas ruas de São Sebastião, e riscar toda a parede que lhe caía debaixo do carvão; donde veio chamar-lhe a gente o “Garatuja”. 

Com isto davam-se a perros os donos das casas, que as tinham de caiar aiúde; mas o povo divertia-se a ver as diabruras do rapaz, como hoje em dia nos pasmatórios da Rua do Ouvidor, aprecia as caricaturas expostas nas vidraças. 

Os malignos achavam nos bonecos algumas parecenças com certos grandes da cidade, e descobriam umas alusões aos boatos e mexericos do tempo. 


VI 

 

DESACATO QUE COMETEU IVO CONTRA AS REVERENDÍSSIMAS 

VENTAS DA COMPANHIA 

 

É para notar que passando a Companhia de Jesus por tão solícita em aproveitar as várias aptidões da infância, cuja instrução tinha a seu carrego, expulsasse o Colégio de seu pátio ao rapaz que tão decidida vocação revelava para a pintura. 

Mas esse zelo e perspicácia era estimulado pelo espírito de corporação e interesse no engrandecimento da ordem. Assim nada o excedia quando se tratava de adquirir para o Instituto um engenho superior ou mesmo uma aptidão artística. 

Pela mesma razão, se lhes escapava a consciência do menino em quem lobrigavam a centelha do gênio, e pressentiam nele os assomos da independência, seu desvelo era sufocar essa alma na sua nascença, crestá-la como ao botão de flor sem água nem sol. Assim conseguiam muita vez um aleijão moral, que servia para beato, se não dava para mendigo. 

O Ivo cedo mostrara a ojeriza que tinha pela roupeta. Desde as primeiras rabiscadelas, não lambuzava uma figura de raposa sem o trajo de rigor. Os padres arrenegavam-se; o rodeiro andava constantemente de brocha em punho para apagar aquelas artes do demo; mas ainda havia esperanças de torcer o pepino. 

Até que perdeu o reitor a paciência; e o caso não era para menos. 

Havia em São Sebastião uma velha ricaça, chamada D. Ana Carneiro, que morava lá para as bandas da Quitanda do Marisco, quase no canto, onde se levantou mais tarde a Igreja de São Pedro. A Companhia andava desde muito angariando a gorda herança, quando correu na feira a nova de que a velha fizera testamento e deixava todo o possuído a seus colaterais. - 

Murchos ficaram os padres o logro; e pode-se bem imaginar a ira fradesca de que foram acometidos, quando ao outro dia lhes veio dar aviso um irmão, dos de capa curta, de que na taipa da descida do Castelo para o lado do Boqueirão da Carioca, havia um rascunho ou grotesco alusivo ao logro. 

Era o Ivo que na véspera, por trindades, ao sair do pátio, pusera o caso ao figurado. Primeiro pintara um bicho que se conhecia bem ser um carneiro, a correr com uma velha trepada nas costas, e a cauda a abanar. Atrás, mas logo atrás, enfiava uma pinha de narizes, de vários tamanhos e feitios, todos a farejarem com olfato de perdigueiro o objeto que lhes estava adiante. Cada qual desses vultos era um retrato; não havia mais que uma roupeta e um nariz, porém tal expressão lhes dera em dois riscos o diabrete do rapaz, que ali estava a Companhia em peso representada pela fiel efígie de suas reverendíssimas ventas. 

À vista de tamanho desacato dividiram-se os pareceres; chegou-se a falar no Santo Oficio, e na necessidade de relaxar em carne o relapso; também houve quem lembrasse o exorcismo e o cárcere; prevaleceu todavia o alvitre mais prudente de abafar o negócio e evitar o escândalo. 

Os jesuítas eram mestres da vida; e ninguém os excedia nessa arte proveitosa de concertar as pancadas, “dando umas em cheio e outras em vão”, o que tornou-se hoje em dia a suma da boa política. 

No fim de contas, Ivo não passava de um pobre rapaz, que deixado a si, nada valeria, baldo como era de meios, e sem indústria para os haver. A sua birra com os padres não vinha senão de o constrangerem ao estudo, e do receio também de que mais tarde lhe encaixassem a roupeta de noviço. Uma vez sobre si, e desafrontado da suspeita, não se lembraria mais de embirrar com a Companhia. 

(continua...)

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