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#Romances#Literatura Brasileira

A Viuvinha

Por José de Alencar (1857)

Carolina estava sentada a um canto da conversadeira, a alguns passos do leito, no vão das duas janelas; tinha a cabeça descansada sobre o recosto e os olhos fitos na porta da sala.

A menina trajava apenas um alvo roupão de cambraia atacado por alamares feitos de laços de fita cor de palha; o talhe do vestido, abrindo-se desde a cintura, deixava-se entrever o seio delicado, mal encoberto por um ligeiro véu de renda finíssima.

A indolente posição que tomara fazia sobressair toda a graça do seu corpo e desenhava as voluptuosas ondulações dessas formas encantadoras, cuja mimosa carnação percebia-se sob a transparência da cambraia.

Seus longos cabelos castanhos de reflexos dourados, presos negligentemente, deixavam cair alguns anéis que se espreguiçavam languidamente sobre o colo aveludado, como se sentissem o êxtase desse contato lascivo.

Descansava sobre uma almofada de veludo a ponta de um pezinho delicado, que rocegando a orla do seu roupão, deixava admirar a curva graciosa que se perdia na sombra.

Um sorriso, ou antes um enlevo, frisava os lábios entreabertos; os olhos fixos na porta vendavam-se às vezes com os seus longos cílios de seda, que, cerrando-se, davam uma expressão ainda mais lânguida ao seu rosto.

Foi em um desses momentos que Jorge entreabriu a porta e olhou: nunca vira a sua noiva tão bela, tão cheia de encanto e de sedução.

E entretanto ele, seu marido, seu amante, que ela esperava, ele, que tinha a felicidade ali, junto de si, sorriu amargamente como se lhe houvessem enterrado um punhal no coração.

Abriu a porta e entrou.

A moça teve um leve sobressalto; e, dando com os olhos no seu amante, ergueu-se um pouco sobre a conversadeira, tanto quanto bastou para tomar-lhe as mãos e engolfar-se nos seus olhares.

Que muda e santa linguagem não falavam essas duas almas, embebendo-se uma na outra! Que delícia e que felicidade não havia nessa mútua transmissão de vida entre dois corações que palpitavam um pelo outro!

Assim ficaram tempo esquecido; ambos viviam uma mesma vida, que se comunicava pelo fluido do olhar e pelo contato das mãos; pouco a pouco as suas cabeças se aproximaram, os seus hálitos se confundiram, os lábios iam tocar-se, Jorge afastou-se de repente, como se sentisse sobre a sua boca um ferro em brasa; desprendeu as mãos e sentou-se pálido e lívido como um morto.

A menina não reparou na palidez de seu marido; toda entregue ao amor, não tinha outro pensamento, outra idéia.

Deixou cair a cabeça sobre o ombro de Jorge; e, sentindo as palpitações do seu coração sobre o seio, achava-se feliz, como se ele lhe falasse, a olhasse e lhe sorrisse.

Foi só quando o moço, erguendo docemente a fronte da menina, a depôs sobre o recosto da almofada, que Carolina olhou seu amante com surpresa e viu que alguma coisa se passava de extraordinário.

— Jorge, disse ela com a voz trêmula e cheia de angústias, tu não me amas.

— Não te amo! exclamou o moço tristemente; se tu soubesses de que sacrifícios é capaz o amor que te tenho!...

— Oh! não, continuou a moça, abanando a cabeça ; tu não me amas! Vi-te todo o dia triste; pensei que era a felicidade que te fazia sério, mas enganei-me.

— Não te enganaste, não, Carolina, era a tua felicidade que me entristecia.

— Pois então saibas que a minha felicidade está em te ver sorrir. Vamos, não me ames hoje menos do que me amavas há dois meses!

— Há dois momentos, Carolina, em que o amor é mais do que uma paixão, é uma loucura; é o momento em que se possui ou aquele em que se perde o objeto que se ama.

A menina corou e abaixou os olhos sobre o tapete.

— Dize-me, tornou ela para disfarçar a sua confusão, o que sentiste hoje no momento em que as nossas duas mãos se uniram sob a bênção do padre?

Jorge estremeceu e ia soltar uma palavra que reteve; depois disse com algum esforço:

— A felicidade, Carolina.

— Pois eu senti mais do que a felicidade; quando nossas mãos se uniam tantas vezes e que nós conversávamos horas e horas, eu era bem feliz; mas hoje quando ajoelhamos, não sei o que se passou em mim; parecia-me que tudo tinha desaparecido, tu, eu, o padre, minha mãe e que só havia ali duas mãos que se tocavam, e nas quais nós vivíamos!

O moço voltou o rosto para esconder uma lágrima.

— Vem cá, continuou a moça, deixa-me apertar a tua mão; quero ver se sinto outra vez o que senti. Ah! naquele momento parecia que nossas almas estavam tão unidas uma à outra que nada nos podia separar.

A moça tomou as mãos de Jorge e, descansando a cabeça sobre o recosto da conversadeira, cerrou os olhos e assim ficou algum tempo.

— Como agora!... continuou ela, sorrindo. Se fecho os olhos, vejo-te aí onde estás. Se escuto, ouço a tua voz. Se ponho a mão no coração, sinto-te!

Jorge ergueu-se ; estava horrivelmente pálido.

(continua...)

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