Por José de Alencar (1873)
SEGUNDA PARTE
O DIÁRIO
1752
7 MARÇO
Estou só no mundo.
Minha mãe morreu... Pobre mãe!... Antes assim! Devias sofrer muito a ver teu filho asco e horror da gente... Mas por que me deixaste neste vale de lágrimas?
Minha alma morreu contigo. Vivem as úlceras que devoram estes restos de corpo, sobejo da enfermidade terrível! Sem ti, que me consolavas, que sofrias comigo da minha angústia, que vai ser de mim neste exílio?...
Resta-me uma irmã.
Foi... Agora tem outra família. Ela me quer, bem sei, e com amor. Mas sou um estranho para os seus. Meto-lhe medo. Não por ela... Por seus filhos. E tem razão.
Tu só, mãe, não tinhas nojo de meu hálito de peste! Tu só não te arreceavas do fogo que me abrasa o sangue! Tu só não me abandonaste enquanto o Senhor não te chamou!
Devia chamar-nos a ambos.
A quem direi agora a minha dor, se tu não estás aqui para ouvi-la? Ao vento, para levá-la á gente que me escarnece?... Sim, ao vento! Fossem peçonha minhas palavras, que eu as cuspiria sobre eles sem dó, como dó não tiveram do mísero, de mim.
Perdoai-me, Senhor!... Menti! Eles não me fizeram nenhum mal. Que culpa têm do castigo que pesa sobre o infeliz?...
Quando estavas ao meu lado, mãe, eras alívio ao meu padecimento. Meu gemido ia ao teu coração; e por não te ver sofrer, eu sofria menos.
Vi-te pela última vez.
A terra abriu-se para roubar-te aos meus braços. Se não me tivessem arrancado!... Eu dormiria em teu seio o último sono como dormi o primeiro, feliz e tranqüilo.
Este anel de cabelos é tudo que me resta de ti. Mas tu vives em minha alma.
Eu te sinto em mim. Falo-te; me respondes.
9 DE MARÇO
Que profunda é a solidão desta casa depois que tu não a habitas comigo!
Parece-me um túmulo.
Na sepultura em que descansas na Igreja de São Pedro Gonçalves, não sentes nem o peso da terra, nem o prurido dos vermes. Tua alma branca e pura, goza no seio do Criador. Na minha sepultura, eu me sinto asfixiar pelo silêncio, que me é mortalha. Quando alguma vez o burburinho do mundo penetra aqui, é para despertar a modorra da agonia.
A noite desce, como a lousa fria e negra. Ah! se com ela me trouxesse o repouso!... Mas é só morte ao coração, à fé, à crença. A dor vive em meu cadáver.
Quando tu aqui estavas, vinham ainda ver-te algumas velhas amigas da infância. Tão santa cousa é a afeição!... Vencia o receio e a repugnância que eu lhes inspirava.
Agora, ninguém virá. Luíza não pode, nem deve. É minha irmã; mas é mãe. Não o fora, que eu lhe pediria para não vir. Sofreria mais da compaixão dela, que não sofro do meu suplício.
Amigos, nunca os tive. Parentes já não os tenho. Depois que morri, não me conhecem... Sim! conhecem-me, quando me fogem.
Maria, a nossa escrava, é o único ser humano, com quem falo. Ao menos tem a forma... Deve existir uma alma ali dentro.
10 DE MARÇO
Depois que me deixaste, mãe, sinto um consolo imenso em escrever. E como se te falasse
Comecei hoje a tirar sobre o papel, do coração onde as tenho intactas, aquelas bonitas histórias, que aprendeste de meu avó. Foram-me bálsamo, ouvidas de teus lábios nas horas da vigília; porque o espírito ia-se nelas, e o fogo queimava só uma carne insensível. São-me conforto agora contra o desânimo que me invade. Escrevendo-as, estou contigo. A ternura que derramaste nelas é um santo óleo. Vaza-me do seio, onde o verteste, e unge-me Tuas palavras, escuto-as ainda. Deu-lhes tua alma uma voz, para que murmurem assim ao meu ouvido?
A recordar o que me contaste, vivo nesse tempo bom de fé e heroísmo. Não me admiram feitos grandes que houve então. O espírito respirava na estima do povo, como se respira o ar na atmosfera, um ressaibo de nobreza. Era mãe a pátria, que defendiam filhos dedicados. Foi depois que a fizeram senhora, mal servida por fâmulos interesseiros.
Mal de mim que não nasci naquele tempo!... Não me negariam o direito de morrer combatendo pela independência da minha terra. O soldado que a todo instante via a morte, não se temeria do contacto de um pobre enfermo... A bala do arcabuz ou o golpe da lança, é mais terrível do que a lepra.
Nesta era o soldado fez-se aventureiro. Joga a vida pelo lucro. Se me oferecesse por companheiro seu, me haviam de repelir. O mais bravo fugiria de mim! Que horrível anátema trago impresso na fronte!...
11 DE MARÇO
Luíza veio ver-me. Tarde, bem tarde da noite, para evitar suspeitas.
Parece que o mundo reputa crime consolar uma irmã a seu irmão aflito! Mas o irmão é um leproso!... Seu marido lhe perdoaria talvez se ela voltasse com o lábio manchado pelo beijo adúltero. Nunca, se esse lábio tivesse bafejado a face ardente do mísero enfermo.
Deliro!...
(continua...)
ALENCAR, José de. A alma do Lázaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7545 . Acesso em: 8 jan. 2026.