Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
TIMÓTEO – Não entendo: mas concordo pela regra da preferência.
LEOPOLDO – A moça tem longa vida diante de si e não morre nem a poder de ceias, de vigílias, de constipações, de indigestões, do diabo, e portanto significa um casamento sem probabilidade de viuvez; a uma noiva bem velha e bem rica enche-se de brilhantes, leva-se a todos os bailes e a todos os teatros, dá-se-lhe sorvetes quando o calor excita mais a transpiração, faz-se cear mayonaise, peru a Eglantine, fiambre e cabeça de porco, até que uma boa indigestão a livre dos trabalhos deste mundo, ficando o marido com o testamento que arranjou, e então ele se consola da morte da velha enfeitando-se com uma noiva moça e bonita... bem entendido, se a fortuna não lhe depara segunda velha ainda mais rica. Vamos procurar Clemência. (Vão-se)
CENA VII
MÁRIO, POLIDORO, logo a ACROBATA e imediatamente CASIMIRO e PORFÍRIO
POLIDORO – A Acrobata é bonita rapariga; mas eu prefiro o amor platônico e as emoções do lasquenet.
MÁRIO – Vai pois ver as damas dos teus baralhos, e deixa-me apanhar de surpresa a Acrobata, e na passagem tomar-lhe contas de certo logro. (Oculta-se) POLIDORO (Afastando-se) – Aí vem ela. (Para e espera) ACROBATA (A um mocinho que lhe sorri) – Cresça e apareça.
CASIMIRO (A Porfírio) – Violante e Clemência nos seguem? (Polidoro faz debalde sinais a Mário)
PORFÍRIO (Olhando para trás) – Não. (Continuam os sinais de Polidoro) CASIMIRO (Quase junto da Acrobata) – Ficas esta noite em casa?
ACROBATA – Isso é conforme: em todo caso não dormirei na rua.
CASIMIRO – Vai passar pelo outeiro...
ACROBATA – Queres dar-me cerveja? (Mário e Casimiro esbarram-se um com o outro) Adeus, pequeno! (Rindo-se)
CASIMIRO (A Porfírio) – Evidentemente o Mário está muito desmoralizado!... começo a suspeitar que até me espia! (Desaparece a Acrobata)
MÁRIO (A Porfírio) – Meu pai está perdido: é de uma inconveniência que me vexa. (Indo-se)
POLIDORO – Já tinha idade para limitar-se ao lasquenet. (Vão-se os dois)
CENA VIII
CASIMIRO e PORFÍRIO
CASIMIRO – O tratante vai sem dúvida encontrar-se com a Acrobata; não posso, não devo seguí-la: seria indecoroso. Mas donde tira ele dinheiro, chave de ouro para abrir a porta do inferno daquele demônio?
PORFÍRIO – Ah! Casimiro! estas mulheres são perversas: na gíria dessas harpias os mocetões da nossa idade têm um nome horrível, um nome com cheiro de armazém de secos e molhados.
CASIMIRO – Que nome?
PORFÍRIO – Paios, a explicação tu sabes.
CASIMIRO – Mas a Acrobata é uma perdição... e demais está na moda...
confesso-me doído por ela. Aquilo é uma centopéia de encantos!
PORFÍRIO – E a linda Irene?
CASIMIRO – Amor de outro gênero... loucura de outra espécie...
PORFÍRIO – E ela... vai-se abrandando... pendendo... caindo?
CASIMIRO – Exagera o recato: creio que é porque ainda não lhe falei em casamento.
PORFÍRIO – E que demora é essa tua?
CASIMIRO – Sabes que sou o modelo dos pais: hesito em dar madrasta a meus
filhos.
PORFÍRIO – Quem diz que te cases? prometer não é cumprir. Irene, rapariga pobre, depois de seduzida julgar-se-ia feliz, tendo casa e tratamento sob a proteção e os cuidados do teu amor. Eu, apesar de casado, não tive dúvida em arranjar uma dessas distrações.
CASIMIRO – E a comadre?
PORFÍRIO – Consola-se com os filhos e nada lhe falta; aos cinqüenta e dois anos perdeu o direito de opor embargos: é guarda nacional da reserva.
CASIMIRO – Ah! Porfírio! se ela te ouvisse...
PORFÍRIO – Rufa em casa, como um tambor; por isso ando sempre por fora; tu estás em melhores condições, és viúvo; faze o que te disse, Irene é uma economia, porque te fará esquecer a Acrobata.
CASIMIRO (Suspirando) – Ah! seu eu fosse rico...
PORFÍRIO – Que farias?
CASIMIRO – Tomava ambas; eu adoro o belo sexo... é o meu fraco; todavia...
pensarei no teu conselho... mas...
PORFÍRIO – Que é?
CASIMIRO – E o sr. Mário eclipsou-se!
PORFÍRIO – Naturalmente: ele o sol, a Acrobata a lua, tu ficas sendo terra; deuse o eclipse.
CASIMIRO – O que me espanta é a desmoralização da mocidade!
PORFÍRIO – Tens razão; porque os velhos, como nós, dão aos moços o exemplo da mais austera virtude; ora viva lá! sejamos francos: são os pais que deitam a perder os filhos, tem paciência, e vamos ver as moças. (Vão-se)
CENA IX
VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA, AUGUSTO e LEOPOLDO
CLEMÊNCIA – Como são belos os cisnes! que colos majestosos!
LEOPOLDO – Há quem tenha mais admirável pescoço.
CLEMÊNCIA – Pode-se saber quem é?
LEOPOLDO – É segredo meu; mas todos os dias por mais de uma vez lho revelam.
CLEMÊNCIA – Já adivinhei; mas desconfio do revelador.
LEOPOLDO – Por que?
CLEMÊNCIA – O meu espelho deixou-se corromper pela lisonja. (Conversam) BRAZ (A Violante) – O doutor já está harpoado: não perca tempo.
VIOLANTE (A Braz) – Por fim de contas vou entrar no fogo. (Alto) Clemência fica discorrendo sobre os colos dos cisnes, enquanto continuo a apreciar as reformas do Fialho.
BRAZ – Eis o meu braço madrinha.
VIOLANTE – Você nada me explica; apenas sabe maldizer do próximo: se o sr. doutor quisesse sacrificar dez minutos à minha companhia...
(continua...)
Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.