Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
ÚRSULA – É isso mesmo... adivinhaste.
FÁBIO – Ora!... enriqueceu muito, negociando no Rio da Prata; mas por último arruinou-se em uma grande e desastrosa especulação: li há poucos dias cartas, em que ele se lastimava do seu infortúnio: pobre como chega não pode salvar Adriano, e por pouco que me auxilies, Helena abandonada pelo marido...
ÚRSULA (Em pé.) – Escuta aqui mesmo e já. (Olhando em torno.) Meu único irmão, meu único amor na terra, tenho-te amado com fraqueza de mãe... pobre e ocioso, jogador e libertino tens achado alimento para teus vícios na riqueza que herdei de meu marido...
FÁBIO – É melhor deixar esse sermão velho lá para casa.
ÚRSULA – Além do esbanjamento da minha fortuna, um dia me impuseste cruel sacrifício: pretextando intimidade de relações com Adriano, obrigaste-me a procurar a amizade de sua esposa; jurei-te que em outros tempos um abismo de ódio me separara da mãe de Helena: resisti, chorei; porém tu venceste.
FÁBIO – E daí?
ÚRSULA – Oh! pérfido amigo de Adriano, tu me querias para vil instrumento da sedução de sua esposa; colocaste-me na mais triste posição, porque todas as aparências me condenam como tua cúmplice.
FÁBIO – E daí?
ÚRSULA – E a minha consciência também me acusa, porque com o meu ouro pagas a perversão de Adriano, e eu, ainda imprudente, preveni Helena de paixão criminosa de seu marido.
FÁBIO (Rindo.) – E por último propuseste-lhe vir esta noite ao Teatro Provisório, no que Helena conveio logo, porque uma cartinha anônima levada pelo correio urbano já lhe havia anunciado em que camarote poderia ver a rival feliz.
ÚRSULA – Oh! Fábio... tu és mau e me sacrificas sem piedade; agora porém não me submeto mais: eu te peço... por quanto amor me deves, deixa em paz Helena, abafa essa paixão insensata e condenável; liberta-me de um remorso que me punge...
FÁBIO – Estás fora de ti... isso é nervoso, minha irmã...
ÚRSULA – Ingrato que me ridicularizas! vê bem: eu romperei o véu desta intriga... Helena saberá tudo, e ainda mais... eu me compadeço de Adriano, e posso vingar-me de ti, estendendo-lhe mão amiga, e desvendando-lhe os olhos...
FÁBIO – Que revolução!... o simples encontro inesperado de Clarimundo!...
ÚRSULA – Sim... é isso mesmo; Clarimundo conhece as razões da inimizade que
houve entre mim e a mãe de Helena, e na fraqueza imperdoável de tua irmã ele veria somente a perversidade do ódio velho... do ódio de além túmulo... do ódio da mulher demônio...
FÁBIO – Tens medo desse homem... (Aparece Bráulio à porta do fundo.)
ÚRSULA – Medo!... oh!... seja medo... supõe o que te parecer... imagina embora que eu me confundo nos turvos segredos dessa sociedade brilhante, onde às vezes se escondem traições e vergonhas nas dobras dos ricos vestidos de seda; mas, eu to disse já, não abusarás mais de mim...
FÁBIO – Isso passa... são recordações da mocidade... pecados veniais do outro tempo...
ÚRSULA – Fábio! tu me insultas!...
FÁBIO – Estamos entendidos: Clarimundo é um inimigo demais, e tu uma aliada de menos; ele, porém, é homem sem dinheiro, baluarte sem pólvora, fortaleza sem soldados, e tu uma alma ingrata que me embaraças a felicidade com os teus casos de consciência. Zombo do inimigo e dispenso a aliada. Agora só preciso de um auxiliar, é Bráulio.
CENA II
ÚRSULA, que logo se retira, FÁBIO e BRÁULIO
BRÁULIO (A Úrsula.) – O último dos criados de v.ex.! (A Fábio.) Às ordens de v.s.
FÁBIO (Apresentando) – O sr. Bráulio...
ÚRSULA (Saudando com desdém.) – Ah...
FÁBIO – Estava então aí... de perto?...
BRÁULIO – Passava por acaso, quando ouvi pronunciar o meu nome; mas de perto, ou de longe sou como o diabo, acudo logo à primeira evocação.
ÚRSULA (A Fábio.) – Voltemos ao camarote.
FÁBIO (A Bráulio.) – Espere-me aqui um instante (A Úrsula.) Vamos, Úrsula.
ÚRSULA – Posso ir só. Fique. (Vai-se.) FÁBIO – O senhor escutava-nos... confesse.
BRÁULIO – É claro que ainda que estivesse escutando, não faria a confissão; mas eu não disputo o direito da suspeita: V.S. pode pensar o que quiser.
FÁBIO – Não se ofenda: nós somos bons amigos e a sua chegada foi muito oportuna; ontem à noite naquela desordem em que acabou o jogo, não pude informarme do que sua sobrinha conseguiu de Adriano, e agora é ainda mais urgente...
BRÁULIO – Amanhã à meia noite Adriano me roubará Dionísia.
FÁBIO (Apertando a mão a Bráulio.) – Ah! ainda bem! com tanto que ele não se arrependa.
BRÁULIO – Ele?... está acorrentado pelo coração; mas outra pessoa... talvez...
FÁBIO – Outra pessoa?... quem então poderia arrepender-se?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.