Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Era uma moça de dezesseis anos. Mercê da hora e do lugar, vinha ela em livre desalinho. Vestia um vestido azul-claro, leve, de mangas curtas, e comprido, como é moda ainda hoje. Cabelos castanhos quase pretos caíam bastos, longos e ondeados até um palmo do chão, de modo a fazer inveja a essas gregas, de quem fala Gemelli; sua fronte era branca e lisa; seus olhos azuis e belos, como os das mais belas mulheres do Norte. Fugitivo rubor lhe assomava às faces. Formavam sua boca breve e ornada de lindíssimos dentes, dois lábios úmidos e rubros, como o bico de uma trocaz. Seu nariz era bem feito como os das beldades da Circássia; e a seu colo altivo e branco como a neve seguia um seio alvo palpitante... perigoso de se contemplar...
Delgada e graciosa como a palmeira de nossos bosques, essa moça com cintura de georgiana, com suas mãozinhas delicadas e finas, com seus pés de menina, com todas as suas formas mimosas e puras, mostrava-se verdadeiramente encantadora.
Era uma dessas belezas delicadas e flexíveis, a quem um homem apertaria a mão muito de leve, e teria ainda assim mesmo medo de haver ofendido seus brandos tecidos; a quem um esposo beijaria no rosto com a ponta dos lábios, temeroso de desbotá-la com o simples toque deles; era um desses tipos de brandura delicado e fino, como uma violeta, um jacinto ou uma pétala de rosa.
Era a “Bela Órfã”.
A interessante moça passeou durante alguns momentos por entre suas flores; examinou o estado de seus arbustinhos mais queridos; enfim chegou-se a uma roseira e colheu um botão de rosa.
Tinha colhido a sua imagem.
Entrou depois no caramanchão e reclinou-se negligentemente em um banco de relva. Aproveitando a inclinação desse belo corpo, e ajudados pelo impulso dos zéfiros, os cabelos da moça derramaram-se sobre ela.
Quem a visse então debaixo daquele teto de flores, reclinada em um leito cor de esmeralda, com seu seio e seu colo cobertos pelas longas madeixas quase negras, com seu comprido vestido azul-celeste agitado pelas auras, com seu rosto tão belo como surgindo dentre aquela chusma de anéis de madeixas, a julgaria talvez uma encantadora fada, ou tomá-la-ia pela visão de um sonho.
A moça parecia esquecida de si própria na posição que tomara, quando um brando raio do sol que acabava de nascer veio refletir sobre seu rosto.
Então ergueu-se, e olhando como em despedida para suas flores, saiu do caramanhão, e pouco depois desapareceu pela pequena porta por onde tinha vindo.
O anjo acabava de entrar no céu.
Cândido, imóvel, silencioso e em êxtase, havia acompanhado com seu olhar magnético aquela mulher angélica em todos os seus movimentos. Vendo-a desaparecer, exalou um suspiro longo e doloroso, que talvez desde muito sufocava no coração; e enfim pronunciou vagarosamente com enlevo indizível e demorandose em cada sílaba, um nome, só um nome, como se esse nome fosse um hino completo, e em cada uma de suas sílabas achassem seus lábios melíflua doçura. Ele disse pois baixinho e preguiçosamente:
– Celina!
CAPÍTULO III
A TIA DE CELINA
CELINA acabava de entrar na sala para entregar-se a seus estudos de música, que ela amava sobretudo, quando sua tia veio correndo para ela, e com uma explosão de alegria infantil exclamou abraçando-a:
– Celina! eu sou feliz... imensamente feliz!.
A “Bela Órfã” deixou-se levar por Mariana até o sofá, onde se sentaram juntas a sobrinha muito admirada, e a tia rutilante de júbilo.
Mariana era uma dessas mulheres que ainda são moças aos quarenta anos. Contava ela então trinta e seis, dizia que tinha trinta, e julgá-la-iam com vinte e cinco. Era um verdadeiro tipo de beleza dos trópicos; tinha os cabelos longos e negros como o azeviche, os olhos grandes, pretos e tão brilhantes como o sol do Brasil; o rosto perfeitamente bem talhado e de uma cor morena muito pronunciada. O nariz era bem feito, e suas narinas cedendo às vezes a um ardor natural, se dilatavam com força; tinha lábios eróticos, e riquíssimos dentes; a boca um pouco grande, mas engraçada; abaixo de seu pescoço garboso e acima de seus seios pequenos e palpitantes, nem de leve se desenhavam suas clavículas; cintura delgada, braços grossos com perfeição torneados, mãos lindíssimas e pés de brasileira completavam os encantos dessa mulher.
Começando ela então a engordar, nada porém havia perdido da elegância de suas formas; ao contrário estava mais elegante ainda. Alta e graciosa, cada posição que seu corpo tomava tinha um encanto particular, cada um de seus movimentos acendia um desejo perigoso; seu olhar era às vezes um desafio, uma provocação; seu sorrir quase sempre uma magia poderosa, sua voz uma harmonia que ficava no coração para se ouvir sempre, ainda mesmo ausente dela: a voluptuosidade e o ardor estavam derramados em toda essa mulher, que deveria ter sido e era ainda objeto de cultos perigosos.
Sobretudo, Mariana sabia que era bela, e se ufanava de sê-lo. Quando um homem chegava-se a ela, havia de pagar-lhe por força o seu tributo de admiração, porque Mariana lho pedia com a provocação de seus olhos; e se o homem resistia, lho ordenava com a magia de seu sorrir, e enfim lho impunha com a harmonia de sua voz.
Viúva há três anos, julgara com sua vaidade de bela, que as vestes de luto não faziam sobressair seus encantos; e um simples lencinho preto que às vezes lhe ornava o colo, era menos um sinal de viuvez, do que um enfeite que a tornava dobradamente interessante. Aquele lencinho preto parecia estar dizendo “sou livre... podem dizer que me amam”.
Mariana era finalmente a menina dos olhos de seu velho pai, e a amiga e companheira da “Bela Órfã”.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.