Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Vendo, contra os hábitos de vinte e dois anos, que o marido resistia à sua vontade, e que apesar de todo o esforço a festa do batizado continuava duvidosa, a mulher pensou, durante a noite, em um ataque de nova espécie contra Venâncio: ela devia estar enfadada na sala, exasperar o marido até fazê-lo gritar, fingir-se, então, pela primeira vez, temerosa, humilhar-se, enternecêlo, e depois a poder de lágrimas conseguir o que, então, não havia podido o seu quero absoluto. A paciência de Venâncio tinha neutralizado o estratagema de Tomásia: o cordeiro, sem saber e sem querer, opôs-se admiravelmente à raposa; e, conhecendo a mulher que seu marido não se assomava com as loucuras que lhe foi dizendo para levar a efeito o plano que concebera, fez-se por si mesma carinhosa e meiga.
O pacato velho começou por espantar-se do que observava; quando, enfim, Tomásia passou gradualmente da meiguice à submissão, ele mirou-se todo inteiro a ver se havia alguma novidade de meter medo em sua pessoa; não descobrindo nada que lhe explicasse o fenômeno, e, tendo de dar-se necessariamente uma explicação, imaginou que nesse dia a sua voz tinha um timbre assustador, que de seus olhos talvez partissem vistas magnéticas... fulminantes... terríveis. Sucedeu a Venâncio o que acontece a todo o homem medroso: apenas acreditou que sua mulher recuava, concebeu a possibilidade de chegar a sua vez de valentão, e determinou aproveitar-se dela; ele! a bigorna de vinte e dois anos passar milagrosamente a ser martelo!... semelhante idéia desenhou-se brilhantemente aos olhos do velho, que bem depressa cerrou as sobrancelhas, fez-se carrancudo e dispôs-se a representar o papel de mau.
Tomásia, que tinha assentado de pedra e cal fechar a discussão calorosa, que há tantos dias era debatida entre seu marido e ela, não perdia um só dos movimentos deste, bebia-lhe todos os pensamentos com vistas fingidamente tímidas, e, ao conhecer que o adversário caía nas suas redes, disse com voz terna:
— Pois bem, meu Venâncio, de hoje avante viveremos em completa harmonia.
— Se a senhora o quiser... seja! respondeu com mau modo o pobre homem.
Tomásia reprimiu a custo uma gargalhada; tal era o pouco-caso que fazia do marido. Venâncio levantou-se, e, cruzando as mãos atrás das costas, começou a passear ao longo da sala; a mulher levantou-se também e, acompanhando-o de perto, travou com ele o diálogo seguinte:
— Estimo achar-te disposto à paz, disse ela; portanto, meu amigo, tratemos de estabelecêla com bases sólidas: queres?...
— Se a senhora o quiser... isso para mim é quase indiferente.
Venâncio não cabia em si de alegre com a sua inopinada vitória, e prometia aproveitar-se dela.
— Pois, para isso, continuou Tomásia, troquemos penhores de paz: devemos pedir um ao outro uma prova de amor... um extremo de ternura: então, tu o que exiges de mim?...
— Coisa nenhuma.
— Não sou eu assim: tenho que te pedir, meu amigo...
— Vá dizendo.
—E ainda não adivinhaste, ingrato?...
— Ora, adivinhem lá o que quer a Sr.ª D. Tomásia! então não está boa?...
— Cruel, não compreendes que quero falar do batizado de nossa filha?...
— Batizar-se-á.
— E daremos um sarau digno de nós, não é assim?...
— Não é assim, não senhora.
— Ah! já vejo que estás brincando! tu não havias de querer que o batizado de nossa querida filhinha se fizesse como o de qualquer lheguelhé .
— Indeferido.
— Meu Venâncio!...
— Não há que deferir, não há que deferir.
— Que dirão as famílias que nos conhecem?... que conceito farão de nós?...
— Sustento o meu primeiro despacho.
— Ingrato, em recompensa do amor que te consagro, não me dás senão desgostos!... desvelo-me em te adorar, e tu me pagas com rigores... ai! sou pobre flor sem jardineiro, que fenece na espessura!
Venâncio, que sempre continuava a passear ao longo da sala, seguido por Tomásia, ouvindo aquela modesta comparação, voltou-se para ver a pobre flor sem jardineiro, que fenecia na espessura e achou diante dos olhos a cara de sua mulher feia, e desbotada; então, para se não expor a perder a posição que ocupava, teve de comprimir uma risada, e, continuando o seu passeio, respondeu:
— Não pega a lábia, minha senhora.
— Oh, ingratidão! oh, crueldade! e ele disse que queria a paz!... pobre de mim que sou a vítima!...
E Tomásia desatou a chorar horrivelmente.
Venâncio, cheio de si, perdido nas alturas de seus triunfos, não parou no seu passeio, antes o continuou, dizendo:
— Não é possível! não pode ser!
Tomásia não pôde conter-se por mais tempo: vendo esgotados até as lágrimas todos os meios brandos com que contava, fez com toda a habilidade própria das senhoras desaparecer o pranto num momento, e, levantando a cabeça, disse:
— Ai! pior está essa!... Venâncio, olha que já me vai subindo o sangue à cabeça! cuidado comigo.
Venâncio sentiu-se abalado; mas, não querendo mostrar-se desanimado, elevou a voz mais que nunca e gritou:
— Requeira em termos!...
— Venâncio!... bradou Tomásia com essa voz estrepitosa, com que costumava enterrar o marido três braças pela terra dentro.
Venâncio não se meteu três braças pela terra dentro; mas caiu completamente da sua elevada nuvem de superioridade; aquele brado de Venâncio soou na sua alma terrivelmente, e despertou a consciência do seu nada... foi ainda ensaiando um derradeiro esforço, que ele exclamou com voz de falsete:
— Tenho deferido.
Tomásia já não estava boa, agarrou nas abas da niza que seu marido vestia e, obrigando-o a voltar o rosto
para ela, gritou-lhe na cara:
— Ouviste?... quero que se dê um sarau! quero! compreendes-me bem?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.