Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
É casa histórica: em 1710 Carlos Duclerc atacando por terra a cidade do Rio de Janeiro entrou com a sua falange nesta casa, e em rígido combate foi dela expelido por Gurgel do Amaral com os seus estudantes e paisanos armados.
Agora a casa dos governadores vai ser demolida. Que haja ao menos quem lhe assista às últimas horas de existência e lhe escreva a necrologia.
(Prevenção ao Instituto Histórico).
Mas a Rua de Aleixo Manoel, vendo aterrado o mar do qual fora Desvio, atravessou a Rua Direita, ou foi além dela estender-se até ao lugar que ficou sendo então praia, e que era pouco mais ou menos onde hoje a Rua do Mercado corta em ângulo reto a do Ouvidor.
No fim do mesmo século décimo sétimo essa praia tornou-se lugar de mercado de peixe, de verduras e de algumas frutas, que se vendiam não debaixo de barracas de lona, mas sob pequenas palhoças, pelo que foi denominado e conhecido por
Quitanda das Cabanas - primeiro nome da atual Praça do Mercado.
Assim, pois, a rua que desde um século menos dois anos se chama do Ouvidor começava então em face da Quitanda das Cabanas.
Quitanda das Cabanas! Apesar de Quitanda, graças porém às Cabanas, era nome rústico, mas um pouco lírico o tinha laivos de poesia de civilização primitiva; a mais chata e infeliz das lembranças eivada de maresia mais tarde trocou essa denominação pela de Praia do Peixe.
Mil vezes antes Quitanda das Cabanas!
É certo que naquele mercado o que predominava era o peixe, e peixe ótimo e a fartar baratíssimo a cidade, e peixe miúdo que se vendia então a cinco réis por quantidade abundante.
As verduras eram poucas e limitadíssimas em variedades. As frutas estavam no mesmo caso. Flores ninguém vendia nem comprava, davam-se como davam-se e trocavam-se as mudas e sementes das que já se cultivavam; quais eram além das do país?... Não estudei a questão floriantiquária, mas que havia cultivo de flores juro-o, porque havia senhoras.
Mas, em todo caso, não há desculpa que aproveite a quem mandou rebaixar a Quitanda das Cabanas para Praia do Peixe.
Em memórias históricas o anacronismo é naufrágio, e eu estava deveras naufragando em anacronismo.
A rua chamada de Aleixo Manoel quando atravessou a Rua Direita e foi parar na Quitanda das Cabanas não tinha mais aquele nome, pois que desde o ano de 1659 se denominou Rua do Padre Homem da Costa.
Certamente o cirurgião Aleixo Manoel já tinha morrido sem deixar filhos ricos, e a linda mameluca Inês, se ainda vivia, era viúva maior de oitenta anos, e por isso desde muito esquecida do amigo vento, que outrora oportunamente lhe desarranjava a mantilha e lhe levantava o véu, e portanto um por morto sem herdeiros de seu nome com herança de áureo prestígio e a suposta viúva já por velha, ex-adorada mameluca, foram despojados da glória daquela denominação da rua.
Quem foi porém na ordem das coisas, e qual o merecimento do Padre Homem da Costa positivamente morador à rua que tomou o seu nome?... Não sei.
Naqueles tempos encontro um Padre Pedro Homem Albernaz que foi Vigário da freguesia da Candelária, e Prelado do Rio de Janeiro; mas, embora fosse Homem, não foi da Costa; além disso, descobri um Padre Pedro Homem da Costa que depois de paroquiar por alguns anos a freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Angra dos Reis entregou-a em 1636 ao Padre Roque Lopes de Queirós, e recolheu-se à cidade do Rio de Janeiro.
Seria esse o padre cujo nome passou à rua que se chamava de Aleixo Manoel?... ignoro-o, e não devo expor-me a falsos juízos.
Sei de uma tradição - que não se encontra nos meus velhos manuscritos, mas que me foi transmitida por um antigo fluminense honradíssimo, carpinteiro e mestre-de-obras, a quem devi curiosíssimas informações de coisas do fim do século passado e do princípio do atual; esta tradição, porém, que é a do Padre Homem da Costa, só a esse meu amigo ouvi, e portanto é apenas individual, e não popular, e, tratando-se de caso passado há duzentos anos, não a posso reproduzir sem previamente declará-la muito duvidosa.
Quando imagino episódios para suavizar a leitura destas Memórias, indico-os sempre com bastante clareza: Agora não imagino, não invento a tradição, mas refiro-a, porque se não é verdadeira é bem achada.
O Padre Homem da Costa (que só esses dois nomes tinha) era padre de letras gordas, mas passava por bom cantoconista, porque sabia um pouco de música: indulgente, agradável e de benigno coração, era geralmente estimado, e como gostasse de cantar modinhas e lundus, todos o queriam nos seus saraus; tinha ele porém uma fraqueza ou uma paixão predominante a da gastronomia.
Padre e já velho, mas ainda rei da viola ou do cravo acompanhadores de suas cantigas nas sociedades, as senhoras o festejavam à porfia; e por fim de contas as moças solteiras e desejosas de casar descobriram nele a mais preciosa qualidade, um talento sublime.
O Padre Homem da Costa era maravilhoso a facilitar e promover casamentos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.