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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

E fizemos muito bem em concluir depressa, porque Filipe acaba de receber Augusto com todas as demonstrações de sincero prazer e o faz entrar imediatamente para a sala.

Agora, outras duas palavras sobre a casa: imagine-se uma elegante sala de cinqüenta palmos em quadro; aos lados dela dois gabinetes proporcionalmente espaçosos, dos quais um, o do lado esquerdo, pelos aromas que exala, espelhos que brilham, e um não sei quê que insinua, está dizendo que é o gabinete das moças. Imagine-se mais, fazendo frente para o mar e em toda a extensão da sala e dos gabinetes, uma varanda terminada em arcos; no interior meia dúzia de quartos; depois uma alegre e longa sala de jantar, com janelas e portas para o pomar e jardim, e ter-se-á feito da casa a idéia que precisamos dar.

Pois bem; Augusto apresentou-se. A sala estava ornada com boa dúzia de jovens interessantes: pareceu ao estudante um jardim cheio de flores ou o céu semeado de estrelas. Verdade seja que, entre esses "orgulhos" da idade presente, havia também algumas rugosas representantes do tempo passado; porém isso ainda mais lhe sanciona a propriedade da comparação, porque há muitas rosas murchas nos jardins e estrelas quase obscuras no firmamento.

Filipe apresentou o seu amigo à sua digna avó, e a todas as outras pessoas que aí se achavam. Não há remédio senão dizer alguma coisa sobre elas.

A sra. d. Ana, este é o nome da avó de Filipe, é uma senhora de espírito e alguma instrução. Em consideração a seus sessenta anos, ela dispensa tudo quanto se poderia dizer sobre o seu físico. Em suma, cheia de bondade e de agrado, ela recebe a todos com o sorriso nos lábios: seu coração pode-se talvez dizer o templo da amizade, cujo mais nobre altar é exclusivamente consagrado à querida neta, irmã de Filipe; e ainda mais, seu afeto para com essa menina não se limita à doçura da amizade; vai ao ardor da paixão. Perdendo seus pais quando apenas contava oito anos, a inocente criança tinha, assim como Filipe, achado no seio da melhor das avós a ternura de sua extremosa mãe.

Ao lado da sra. d. Ana estavam duas jovens, cujos nomes se adivinharão facilmente: uma é a "pálida", a outra a "loira". São as primas de Filipe.

Ambas são bonitinhas; mas, para Augusto, d. Quinquina tem as feições mais regulares, achou-lhe mesmo muita harmonia nos cabelos loiros, olhos azuis e faces coradas, confessando, todavia, que as negras madeixas e o rosto romântico de d. Joaninha fizeram-lhe uma brecha terrível no coração.

Além destas, algumas outras senhoras aí estavam, valendo bem a pena de se olhar para elas meia hora sem pestanejar. Toda a dificuldade, porém, está em pintar aquela mocinha que acaba de sentar-se pela sexta vez, depois que Augusto entrou na sala: é a irmã de Filipe. Que beija-flor! Há cinco minutos que Augusto entrou e em tão curto espaço já ela sentou-se em diferentes cadeiras, desfolhou um lindo pendão de rosas, derramou no chapéu de Leopoldo mais de duas onças de água-de-colônia de um vidro que estava sobre um dos aparadores, fez chorar uma criança, deu um beliscão em Filipe, e Augusto a surpreendeu fazendo-lhe caretas: travessa, inconseqüente e às vezes engraçada; viva, curiosa e em algumas ocasiões impertinente, O nosso estudante não pode dizer com precisão nem o que ela é, nem o que não é: acha-a estouvada, caprichosa e mesmo feia, e pretende tratá-la com seriedade e estudo para nem desgostar a dona da casa, nem se sujeitar a sofrer as impertinências e travessuras que a todo o momento a vê praticar com os outros. Enfim, para acabar de uma vez esta já longa conta das senhoras que se achavam na sala, diremos que aí se notavam também duas velhas amigas da dona da casa. Uma, que só se entreteve, se entretém e se há de entreter em admirar a graça e encantos de duas filhas que consigo trouxera; e outra, que pertence ao gênero daquelas que nas sociedades agarram num pobre homem, sentam-no ao pé de si, e, maçando-o duas e três horas com enfadonhas e intermináveis dissertações, finalmente o largam, supondo que lhe têm feito grande honra e dado o maior prazer.

Quanto aos homens... Não vale a pena! ... Vamos adiante.

Estas observações que aqui vamos oferecendo, fez também Augusto consigo mesmo, durante o tempo que gastou cm endereçar seus cumprimentos e dizer todas essas coisas muito banais, e já muito cediças, mas que se dizem sempre de parte a parte, com obrigado sorrir nos lábios e indiferença no coração. Concluída essa verdadeira maçada e reparando que todos tratavam de conversar, para melhor passar as horas e esperar a do jantar, ele voltou o rosto com vistas de achar uma cadeira desocupada junto de algumas daquelas moças; porém, é mofina do pobre estudante! O intempestivo castigo dos seus maiores pecados! ... A segunda das duas velhas, de quem há pouco se tratou, estendeu a mão e chamou-o, mostrando com o dedo carregado de anéis um lugar livre junto dela.

Não havia remédio; era preciso sofrer, com os olhos enxutos, o prazer na face, o martírio que se lhe oferecia. Augusto sentou-se ao pé da sra. d. Violante.



(continua...)

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