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#Autos#Literatura Portuguesa

Auto da Festa de São Lourenço

Por José de Anchieta (1587)

Seu próprio Filho entregou à morte, por te salvar. Que mais te podia dar, se tudo o que tem te dou?

Por mandado do Senhor, te disse o que tens ouvido. Abre todo teu sentido, porque eu, que sou seu Amor, seja em ti bem imprimido

(Glosa e declaração do recado)

Todas as coisas criadas conhecem seu Criador. Todas lhe guardam amor, pois nele são conservadas, cada qual em seu vigor.

Pois com tanta perfeição sua ciência te formou homem capaz de razão, de todo o teu coração ama a Deus, que te criou!

Se amas a criatura por se parecer formosa, ama a visão graciosa desta mesma formosura por sobre todas as coisas.

Dessa divina lindeza deves ser enamorado. Seja tua alma presa daquela suma beleza homem, de Deus muito amado!

Aborrece todo o mal, com despeito e com desdém, E pois, que é racional, abraça a Deus imortal, todo, sumo e único bem.

Este abismo de fartura, que nunca será esgotado; esta fonte viva e pura, este rio de doçura, ama com todo cuidado.

Antes que criasse nada já a alma majestade te havia a vida gerado. e tua alma, abrasada com eterna caridade.

Por fazer-te todo seu com amor te cativou e, pois que tudo te deu, dá tu todo o maior que é teu a quem primeiro te amou.

E deu-te alma imortal e digna de um Deus imenso, para que fosses suspenso nele, esse bem eternal, que é sem fim e sem começo.

Depois, que em morte caíste com vida te levantou. Porque sair não conseguiste da culpa em que te fundiste, seu próprio filho entregou.

Entregou-o por escravo, deixou que fosse vendido, para que tu, redimido do poder do leão bravo fosses sempre agradecido.

Para que não morras, morre com amor bem singular. Pois, quanto deves amar a Deus que entregar-se quer à morte, por te salvar.

O Filho, que o Padre deu, a seu Pai te dá por pai, e sua graça te infundiu, e quando na cruz morreu, deu-te por mãe sua Mãe.

Deu-te fé com esperança, e a si mesmo por manjar, para em si te transformar pela bem aventurança. Que mais te podia dar?

Em paga de tudo isto, oh, ditoso pecador, pede apenas teu amor. Despreza pois todo o resto por ganhar a tal Senhor.

Dá tua vida pelos bens que Sua morte te ganhou. És seu, nada tens de teu, Dá-lhe tudo quanto tens, pois tudo o que tem te deu!

DESPEDIDA

Levantai os olhos ao céu, meus irmãos. Vereis a Lourenço reinando com Deus, por vós implorando junto ao rei dos céus, que louvais seu nome aqui neste chão!

Daqui por diante tende grande zelo, que Deus seja sempre temido e amado, e, mártir tão santo, de todos honrado.

Terei seus favores e doce desvelo.

Pois que celebrai com tal devoção seu claro martírio, tomai meu conselho: sua vida e virtudes tende por espelho, chamando-o sempre com grande afeição.

Tereis, por seus rogos, o santo perdão, e sobre o inimigo perfeita vitória. E depois da morte vós vereis na glória a cara divina, com clara visão.

(LAUS DEO)

QUINTO ATO

Dança de doze meninos, que se fez na procissão de São Lourenço.

1º) Aqui estamos jubilosos tua festa celebrando. Por teus rogos desejando Deus nos faça venturosos nosso coração guardando.

2º) Nós confiamos em ti Lourenço santificado, que nos guardes preservados

dos inimigos aqui

Dos vícios já desligados nos pajés não crendo mais, em suas danças rituais, nem seus mágicos cuidados.

3º) Como tu, que a confiança em Deus tão bem resguardaste, que o dom de Jesus nos baste, pai da suprema esperança.

4º) Pleno do divino amor foi teu coração outrora. Zela pois por nós agora! Amemos nosso Criador, pai nosso de cada hora!

5º) Obedeceste ao Senhor, cumprindo sua palavra. Vem que nossa alma escrava de teu amor, neste dia te imita em sabedoria.

6º) Milagroso, tu curaste teus filhos tão santamente. Suas almas estão doentes deste mal que abominaste, Vem curá-los novamente!

7º) Fiel a Nosso Senhor a morte tu suportaste. Que a força disto nos baste para suportar a dor pelo mesmo Deus que amaste.

8º) Pelo terrível que és,

Já que os demônios te temem, nas ocas onde se escondem vem calcá-los sob os pés, pra que as almas não nos queimem.

9º) Hereges que este indefeso corpo no teu assaram, e a carne toda queimaram em grelhas de ferro aceso.

Choremos, do alto desejo de Deus Padre contemplar. Venha Ele neste ensejo nossas almas inflamar.

10º) Os teus verdugos extremos treme, algozes de Deus. Vem, leva-nos como teus, que ao teu lado ficaremos assustando estes ateus.

11º) Estes que te deram morte ardem no fogo infernal. Tu, na glória celestial gozarás, divina sorte.

E contigo aprenderemos a amar a Deus no mais fundo do nosso ser, e no mundo longa vida gozaremos.

12º) Em tuas mãos depositamos nosso destino também. Em teu amor confiamos e uns aos outros nos amamos para todo o sempre. Amém.

FIM


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