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#Contos#Literatura Brasileira

A mulher de preto

Por Machado de Assis (1868)

CÉSAR — (Sentando-se) Mesmo para mim. Por que me olha com esse olhar? Tem inveja? FREITAS — Não é inveja, é admiração! De ordinário ninguém corresponde ao nome que recebeu na pia; mas o Sr. César, benza-o Deus, não desmente que traz um nome significativo, e trata de ser nas págmas amorosas o que foi o outro nas batalhas campais.

CÉSAR — Pois também os procuradores dizem cousas destas?

FREITAS — De vez em quando. (Indo sentar-se) V. S.a admira-se?

CÉSAR — (Tirando charutos) Como não é de costume... quer um charuto?

FREITAS — Obrigado... Eu tomo rapé. (Tira a boceta) Quer uma pitada? C É S A R — Obrigado.

FREITAS — (Sentando-se) Pois a causa da minha constituinte vai às mil maravilhas. A parte contrária requereu assinação de dez dias, mas eu vou...

CÉSAR — Está bom, Sr. Freitas, eu dispenso o resto; ou então não me fale linguagem do foro. Em resumo, ela vence?

FREITAS — Está claro. Tratando provar que...

C É S A R — Vence, é quanto basta.

FREITAS — Pudera não vencer! Pois se eu ando nisto...

C É S. A R — Tanto melhor!

FREITAS — Ainda não me lembro de ter perdido uma só causa: isto é, já perdi uma, mas é porque nas vésperas de ganhar disse-me o constituinte que desejava perdê-la. Dito e feito. Provei o contrário do que já tinha provado, e perdi... ou antes, ganhei, porque perder assim é ganhar.

CÉSAR — É a fênix dos procuradores.

FREITAS — (Modestamente) São os seus bons olhos...

C É S. A R — Mas a consciência?

FREITAS — Quem é a consciência?

CÉSAR — A consciência, a sua consciência?

FREITAS — A minha consciência? Ah! essa também ganha. C É S. A R — (Levantando-se) Ah! também? . . .

FREITAS — (O mesmo) Tem V. S.a alguma demandazinha? CÉSAR — Não, não, não tenho; mas, quando tiver, fique descansado, vou bater à sua porta.

. .

FREITAS — Sempre às ordens de V.S.a.

Capítulo VIII

Estêvão interrompeu violentamente a leitura, o que desgostou bastante ao poeta novel. O pobre candidato às musas mal pôde balbuciar uma súplica; Estêvão mostrou-se surdo, e o mais que lhe concedeu foi ficar com a comédia para lê-la depois.

Oliveira contentou-se com isso; mas não se retirou sem recitar-lhe de cor uma fala do protagonista da tragédia, em versos duros e compridos, dandolhe por quebra uma estrofe de uma poesia lírica, no estilo do Djinns de Vítor Hugo.

Enfim saiu.

Entretanto havia passado o tempo.

Estêvão releu a carta e quis ainda mandá-la; mas a interrupção do poeta fora proveitosa; relendo a carta, Estêvão achou-a fria e nula; a linguagem era ardente, mas não lhe correspondia ao fogo do coração.

- É inútil, disse ele rasgando a carta em mil pedaços, a língua humana há de ser sempre impotente para exprimir certos afetos da alma; tudo aquilo era frio e diferente do que sinto. Estou condenado a não dizer nada ou a dizer mal. Ao pé dela não tenho forças, sinto-me fraco...

Estêvão parou diante da janela que dava para a rua, no momento em que passava um antigo colega dele, com a mulher de braço, a mulher que era bonita, e com quem se casara um mês antes.

Os dous iam alegres e felizes.

Estêvão contemplou aquele quadro com adoração e tristeza. O casamento já não era para ele aquele impossível de que falava quando apenas tinha idéias e não sentimentos. Agora era uma ventura realizável.

O casal que passara dera-lhe nova força.

- É preciso acabar com isto, dizia ele; eu não posso deixar de ir àquela mulher e dizer-lhe que a amo, que a adoro, que desejo ser seu marido. Ela amar-me-á, se já me não ama: sim, ama-me. ..

E começou a vestir-se.

Quando calçava as luvas e lançava um olhar para o relógio, o criado trouxelhe uma carta.

Era de Madalena.

Espero, meu caro doutor, que não deixe de vir hoje; esperei-o ontem em vão. Desejo falarlhe.

Estêvão acabou de ler este bilhete na escada, com tal pressa descia e tal urgência tinha de achar-se em casa da viúva.

O que ele não queria era perder aquele assomo de coragem. Partiu.

Quando chegou à casa de Madalena achava-se esta à janela. Recebeu-o - com a costumada afabilidade. Estêvão desculpou-se como pôde por não ter podido vir na véspera, acrescentando que só com desgosto do seu coração havia faltado.

Que melhor ocasião do que era essa para lançar a bomba de uma declaração franca e apaixonada? Estêvão hesitou alguns segundos; mas tomando ânimo, ia continuar o período, quando a viúva lhe disse:

- Estava ansiosa por vê-lo para comunicar-lhe uma cousa de certa importância, e que só a um homem de honra, como o senhor, se pode confiar.

Estêvão empalideceu.

- Sabe onde foi que eu o vi pela primeira vez?

- No baile de ***.

- Não; foi antes disso; foi no Teatro Lírico.

- Ah! - Lá o vi com o seu amigo Meneses.

- Fomos algumas vezes lá!

(continua...)

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