Por Franklin Távora (1878)
Mas o sargento-mór, que já não pensava assim, ergueu o clavinote e disparou-o. A bala foi bater nos pés da cruz, e arrancar uma lasca de pedra. No mesmo instante uma fila de sangue vivo escorre do lugar onde a bala deixara profunda e alongada ferida. Viram todos o sangue descer pela pedra. Era o do padre Henrique, cujo corpo caíra traspassado aos pés do cruzeiro.
- Meu Deus, que horror! Exclamou d. Damiana. Estamos perdidos. Deus não há de ser mais por nós.
E inclinou sobre as mãos, pequenas de mais para ocultarem o horror que lhe vinha do intimo, o rosto desfigurado e abatido.
O senhor-de-engenho, como se sua própria obre tivesse excedido a medida da sua intenção, teve por momentos os olhos, pasmos e desvairados, sobre o traço vermelho que descrevera um como hieróglifo ou símbolo infernal na pedra secular do símbolo santo.
Nesse momento diziam da rua:
- O tiro, que o matou, veio do sobrado onde estão a mulher e as negras do malvado. Sim, sim, veio de cima; veio.
- Foi a escopeteira que atirou.
- Foi ela, foi ela. Morra a escopeteira!
- Morra, morra. Ao sobrado, ao sobrado! Gritaram os frades em torno do cadáver do jesuíta. Ao sobrado!
respondeu a multidão.
XXVII
O sobrado foi fortemente atacado, mas à força exterior opuseram os que estavam dentro dele heróica resistência, impossível de descrever-se.
Nos últimos momentos os negros, dirigidos por Germano, tinham-se batido quais feras. Prometera-lhes o sargento-mór a liberdade a todos, e tanto bastou para que os guaribas lutassem como se foram leões.
Mas Germano devia ser punido da sua perfídia. Defendendo a facão e a chuço com os parceiros uma das portas que os invasores tinham logrado romper, ele caíra traspassado de golpes. Com o sangue e a vida resgatara a culpa. Tanto que considerou perdida a esperança de salvação, o sargento-mór pediu a Filipe Cavalcanti e a Luiz Vidal que pusessem a salvo sua mulher.
- E porque não nos salvaremos todos? Inquiriu um deles. Roberto podia resistir com os negros que restam, ainda alguns minutos. Teremos tempo de ganhar a cavalariça. Tomaremos os animais e ficaremos fora do alcance dos malvados.
- Desamparar a minha casa seria uma covardia, que eu nunca havia de perdoar-me, disse o sargento-mór. Ide vós. Correi, correi, senhores. Salvai-me Damiana, e não vos importais comigo. Hei de resistir até à minha derradeira. Talvez que nesse entrementes chegue Cosme.
Mal tinha acabado estas palavras que poderiam considerar-se inspiradas pela intuição do momento final, quando as outras portas que ainda estavam de pé, caíram debaixo do peso dos machados e alavancas fortemente vibrados pela turba sedenta de vingança. Na primeira linha dos atacantes viam-se, movendo os terríveis instrumentos, diferentes frades carmelitas, que assim entendiam dever ressarcir a perda do jesuíta.
À vista desta cena extrema, não havia mais que hesitar. Os dois fidalgos, dois sós, porque João da Cunha ficava embaixo, resistindo ainda, lutando sempre, atiraram-se de escada acima a fim de tentarem a fuga, com a senhora-deengenho, pelos fundos do sobrado, única comunicação para uns casebres com frente para a Rua-do-meio. Mas qual não foi o seu espanto e tristeza, quando se encontraram com as mucamas de d. Damiana que, espavoridas e chorosas, corriam de escada abaixo pedindo socorro?
Uma malta, não inferior a cinquenta homens, entrando justamente pela parte da casa por onde Felipe e Luiz tencionavam escapar-se, tinha já tomado o andar superior. A senhora?! Onde está a senhora?! perguntaram os fidalgos, passados de impaciência e aflição indescritível.
- Não sei – responde uma das escravas.
- Fugiu, responde outra.
- Trancou-se por dentro em um quarto, - acrescenta a terceira.
- Negras do diabo! exclamou Luiz Vidal.
E atira-se com Felipe, desesperado, agoniado, na direção que levava. A indignação e o vexame faiscavam-lhes dos olhos. Mas do topo da escada não passaram eles. Parte da multidão veio ao seu encontro e embargou-lhes o caminho.
- Afastai-vos miseráveis! gritou Luiz Vidal. Vou a salvar uma dona honrada. Para o lado, vilões! Para o lado.
- A quem vais tu salvar, mazombo infame! perguntou-lhe o sujeito que vinha na frente da onda.
Os fidalgos reconheceram o que lhes dirigira este apodo acerbo. Era o Belchior.
- Será uma escopeteira? perguntou outro sujeito em quem eles reconheceram Manoel Rodrigues – o taverneiro. - A escopeteira! A escopeteira! articulou o terceiro com ares de mofa. Está nas unhas do nosso comandante, o bravo Antonio Coelho.
Quem assim falava era o alfaiate Manoel Gaudencio.
Coelho, de feito, entrando no sobrado do momento em que de fora ainda se pedia o coração, a cabeça de d.
Damiana em paga da vida do frade, correu à senhora-de-engenho e disse:
- Senhora, senhora minha, se não vos entregais em minhas mãos, mata-vos a multidão!
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.