Por José de Alencar (1872)
No dia seguinte recomeçou Ricardo a lida do escritório; e o trabalho, que é o mais forte detersivo do coração, apagou os vestígios da alucinação que sofrera. Todavia, quando uma circunstância lhe recordava Guida, sentia-se o mancebo tomado por um terror indizível, e estremecia com a idéia de cair outra vez no sonho, ou antes no pesadelo d’ouro, que já uma vez fizera presa nele.
Antes de findar a semana, estando Ricardo em seu escritório, recebeu do carteiro sua correspondência de São Paulo. Dentro da carta de D. Benvinda, que dava notícias de todos os seus, achou uma de Bela; e guardou-a para a ler em casa, a sós, sem risco de o interromperem.
Avalia-se do espanto de Ricardo ao ler estas poucas linhas:
“Meu primo.
Um pressentimento, que não engana, diz-me que sou um obstáculo em sua vida; e portanto o meu dever é afastar-me para que você possa livremente seguir a brilhante carreira que lhe prometem seus talentos e virtudes.
Outra, mais prendada e escolhida por Deus, fará sua felicidade, oferecendo-lhe toda a sorte de alegrias e encantos, que eu não poderia dar, eu que apenas tenho um coração. Esse o acompanhará de longe com seus votos; e creia, meu primo, que outros não haverá mais ardentes pela sua ventura.
Desde que nos separamos, meu querido pai insta para que aceite uma união, que ele sempre desejou. Ocultei-lhe este segredo de família para não afligi-lo, em compensação de tantos sacrifícios que você aí sofria só; era justo que tomasse para mim unicamente essa contrariedade.
Enquanto me julguei necessária à sua felicidade, tive forças para resistir a meu pai; agora faltam-me, e também o direito de opor-me à sua vontade, e recusar o destino traçado por ele, quando outro não me resta, nem eu tenho mais que esperar do mundo.
Quando receber esta carta, já estará partido o vínculo que nos unia; pois vou dar a meu pai o consentimento que me pede há tanto tempo. Sua prima e amiga
Isabel Lopes
20 de agosto de 1871.”
Por diversas vezes, Ricardo retrocedeu ao princípio da carta e releu os períodos, para compenetrar-se do pensamento, que exprimiam essas palavras. A surpresa e pasmo produzidos por tão inesperado teor tinham-lhe embotado a compreensão; com os olhos fitos no papel, havia momentos em que não via as letras, ou vendo-as, não sabia soletrálas.
Passado o primeiro abalo, quando o mancebo pôde coligir as idéias e refletir sobre o caso, sua mente procurou naturalmente a a explicação do estranho acontecimento; e certo de a ter encontrado, deleitou-se em passá-la e repassá-la no espírito. Foi um consolo.
Para Ricardo a carta de Bela não era senão um engenhoso meio de justificar sua ingratidão e perfídia. Cansada de esperar, a moça de coração volúvel, resolvera casar com o Felício Lemos, que além de arranjado, estava à mão. A indignação do mancebo, a revolta do seu caráter em face de tal procedimento, sobrepujou a mágoa de se ver esquecido, e a dor de perder as mais doces ilusões de sua vida.
- E foi por essa mulher, que eu recusei um coração virgem, e o futuro mais brilhante que podia sonhar em meus arroubos de imaginação!
À noite Ricardo saiu à procura de Fábio, a quem encontrou na Rua do Ouvidor. Conseguiu trazê-lo à casa, para mostrar-lhe a carta de Bela, e vazar em seio amigo a exuberância de sua alma.
Fábio informou-se do que havia, tratou o ocorrido com a sua habitual leviandade, consolando Ricardo dessa insignificante derrota, que às vezes, dizia ele, era o princípio dos mais esplêndidos triunfos.
- Vem dar um passeio comigo ao Carceler. Um sorvete e um charuto de Havana, são os melhores específicos para esses achaques. O primeiro apaga um incêndio mais chibantemente do que o coronel dos bombeiros; o segundo desfaz em fumo a paixão a mais descabelada. Ontem ouvindo o Rossi, fiz esta reflexão, que tem escapado aos mais profundos pensadores: Se Otelo fumasse, não estrangulava Desdêmona, e Shakespeare não poderia escrever aquela cena sublime do final; ficaria reduzido ao soco inglês.
Não ouvia Ricardo as pilhérias do amigo, nem deu fé quando ele, no meio da sua parolice, eclipsou-se pela escada do sótão, para ir pautear pela calçada do Carceler e Rua do Ouvidor, na esperança de encontrar a mulher do conselheiro Barros.
No dia seguinte, recordando o golpe que na véspera sofrera, e estava ainda aberto dentro n’alma, teve Ricardo uma veleidade, um desejo, um impulso... Ver Guida. Para quê? Sob que pretexto? Em que intuito? Nem ele o sabia; nem lembrou-se de inquirir de si próprio; pois logo repeliu essa idéia como uma extravagância do espírito.
Durante as horas do trabalho, a agitação da cidade, o movimento dos negócios, o rumor das ruas, distraíram o moço.
À tarde, porém, a lembrança que despontara pela manhã, tornou-se em necessidade imperiosa: e ele não pôde resistir. Deixou-se levar à toa, como um batel que voga ao fluxo das águas. Chegando à praia de Botafogo, apeou-se do bonde e seguiu a pé até o portão do palacete. Foi depois de entrar, que se lhe apresentou a estranheza do passo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.