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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Saltou em terra, ajoelhou-se humildemente, e de mãos postas, com todo o fervor do crente quando ora à divindade, pediu perdão a D. Flor da mágoa que lhe causara. Teve ímpetos de punir-se alí mesmo diante da donzela, do atrevimento com que lhe ofendera o pudor e o altivo melindre. 

Chegou a levar a mão ao punho da faca; mas lembrou-se que sua vida era precisa naquela ocasião em que novos e talvez mais sérios perigos ameaçavam a casa da Oiticica. 

 

X – A infância 

 

Entrando no seu camarim, depois da repreensão que dera a Arnaldo, D. Flor precipitadamente voltara-se para fechar a porta e impedir a entrada da escrava que vinha prestar-lhe os seus serviços e ajudá-la a mudar de traje.  

Caminhando até o meio do aposento, a donzela parou; e recolheu-se atônita do que se passava em si. De repente o seio tímido estalou em um soluço; e dois rocais de lágrimas aljofraramlhe as faces. 

Por que chorava? 

Foi a interrogação que dirigiu à sua conciência, confusa e perturbada com aquele pranto súbito. A severidade que usara com Arnaldo, ela a devia ter; não se arrependia da exprobração que fizera ao seu colaço, antes parecia-lhe mostrar maior rigor. 

Naquele instante, esquecendo a amizade que desde a infância tinha ao filho de sua ama, a donzela odiava-o sinceramente; e não podia perdoar ao vaqueiro o atrevimento de dar-lhe uma ordem e o insulto de tocá-la, a ela D. Flor, a quem seu próprio pai o capitão-mór Campelo respeitava como uma santa. 

Assomava-lhe ainda na mente a imagem do insolente, com a fisionomia revôlta, e os olhos chamejantes; ela não o vira erguer a mão audaz, tão rápido fôra o movimento; mas sentira-lhe o contacto nos cabelos, e o leve perpassar pelos alamares que fechavam o corpete de seu roupão de montar. 

Ainda a vertigem que a tomara naquele momento anuviava-lhe a vista ao recordar-se do incidente; e insensivelmente brandia o chicotinho, arrependida de não ter castigado aquela vilania. 

Mas se a revolta de sua altivez a impelira a êsse ato de energia, por outro lado os instintos nobres e delicados de sua alma tinham-lhe advertido que não devia descer até corrigir com sua própria mão a grosseria de um quase fâmulo da casa. 

A donzela permaneceu algum tempo imóvel no meio do aposento, completamente absorta. A pouco e pouco a figura sinistra do vaqueiro que a havia desacatado, foi-se desvanecendo, como se as lágrimas lhe delissem as tintas, e da névoa que fez-se na memória da donzela, surgiu o vulto de um menino de sete anos, vestido com um gibão de couro, que lhe servia de opa. 

Êste menino era Arnaldo; e o gibão pertencia ao pai, o vaqueiro Louredo, que o deixara de usar por já estar muito velho e surrado, a ponto de andar a rir-se pelos muitos rasgões que tinha nas costas. 

O menino, sôfrego por ter um vestuário de vaqueiro, enfronhara-se naquele fardão; e ficara tão cheio de si, que não se trocaria por um rei, embora dos rasgões do couro lhe saíssem as tiras de uma camisa de chita, que a mãe lhe cosera oito dias antes, e que êle já havia reduzido a trapos. 

D. Flor, tornada também em sua fantasia à idade feliz da inocência, olhava com espanto para aquele pirralho, que ela via a cada instante praticar as maiores estrepolias, e cometer temeridades que a todos enchiam de susto. 

Arnáo, como o chamavam os pais nesse tempo, não estava um instante quieto: se não andava já empenhado em uma travessura, com certeza buscava o pretêsto para ela. Seus folguedos, porém, eram sempre coisas impróprias de seu tamanho, e que muitos com o dôbro de sua idade não se animariam a empreender. 

Um macaco trepava aos últimos ramos de uma árvore, e de lá deixava-se cair, segurando-se pela cauda. Arnaldo assentava de pular como êle de ramo em ramo, e despencava-se do alto. A mãe o metia em panos de sal, e dava-lhe a beber um cozimento de angico; no dia seguinte já êle estava ruminando outra. 

Ora metia-se a parar a bolandeira tangida com fôrça, e rodava pelos ares; ora quando a mãe o mandava apanhar gravetos, carregava às costas um grosso toro de sábia, que o atirava ao chão em risco de esmagá-lo; em outra ocasião era o bode em que êle montava, e lá se ia pelos precipícios e desfiladeiros a divertir-se dos sustos da Justa. 

Ninguém podia com êle. A mãe com seus ralhos não conseguia senão afligir-se; e se passava o capeta ao cipó, então é que êle endemoniava-se. O capitão-mór não olhava para essas coisas; e o Louredo, conservando uma impossibilidade que nunca se desmentia, bem longe de proibir ao filho essas estrepolias, ao contrário o acoroçoava, deixando-o fazer quanto queria. 

Trouxeram uma tarde um cavalo bravo para que o Louredo o amansasse, pis não havia melhor campeador naquela redondeza. O vaqueiro conhecendo que o bicho era manhoso, tratou de amaciá-lo antes de saltar-lhe em-cima. 

— Eu quero montar! gritou Arnaldo. 

— Estás doido, menino? dizia a Justa, apoderando-se dele por segurança.

— Tu não podes com êle, Arnaldo! disse o pai. 

— Ora, se posso! 

(continua...)

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