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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Mulheres ímpias, mulheres ímpias, que atirais contra a cruz do redentor, vede lá não venhais rasgar as veias sacrossantas daquele que em espirito está aqui pregado nela. Ergueram-se todas as vistas ao ponto donde tais palavras caiam.

Um vulto vestido de negro destacava sobre a larga peanha do cruzeiro. Estava de pé, o braço esquerdo passado em torno da haste pétrea, enquanto o direito destendido parecia acompanhar e completar a direção e o eco de sua voz. A cara branca e macilenta, o perfil negro e esguio, a voz fina e vibrante davam aquele vulto certa aparência majestosa e patética. O que sobressaia nele, cercando-o de uma como virtude misteriosa e fatal, era o animo terso, a temeridade a modo de barbara, a fé passiva e animal que o fizera levantar-se diante das balas inimigas, que em torno de se cortavam o fio de muitas vidas. Esse vulto, esse espectro, esse animo que excedia a medida humana, era um membro da Companhia-de-Jesus. Era o padre Henrique Celini. Fora mandado expressamente do Recife para pregar contra os nobres e a favor dos mercadores. Seu nome devia figurar depois na carta monitoria em que o bispo cometia ao Padre Manoel Lopes todas as necessárias faculdades a fim de que ‘notificasse certos clérigos para aparecerem em sua presença, e os corrigisse da escandalosa missão de andarem seduzindo os ânimos dos que os ouviam a seguirem por seleta e segura a nova doutrina sustentada pelos conjurados do Recife, com a qual agitaram o povo e deram tanto abalo a toda a terra.’

Apenas ouviu as primeiras palavras do jesuíta, o sargento-mór correu à sala superior. As balas paraibanas tinham deixado ai traços medonhos. Viam-se nas paredes, por entre superficiais escoriações, profundos ferimentos. Parte do estuque do teto estava por terra. Das rotulas algumas se mostravam despedaçadas, outras com imensos rombos por onde do pátio se via grande parte do que se fazia na sala. A frente da casa poder-se-ia comparar com a careta de um homem vesgo e desdentado.

D. Damiana, de pé por trás de uma das rotulas mais destruídas, olhava para o pregador por um dos rombos, no momento em que seu marido entrou na sala. As outras mulheres imitavam a senhora-de-engenho das outras janelas. Vinde ouvir, Sr. João da Cunha, vinde ouvir o pregador – disse ela. Ainda está falando ai essa sombra do inferno? Perguntou ele, lançando as vistas para o pátio, por cima do ombro da mulher. E rapidamente levou ao rosto o clavinote, como quem o queria desfechar sobre aquele novo sustentador da desordem e da destruição que aludiam a sua posição e o seu poder. Mas no mesmo instante sentiu-se apertado entre dois braços fortes, roliços e deliciosos. Sentiu uma macia mão pegar-lhe do pulso e obrigá-lo a abaixar a arma. Ouviu uma voz terna, aflita, plangente pedir-lhe que não atirasse.

Não atireis, não atireis, Sr. João da Cunha, sobre o padre. Seria um grande pecado. Atreveis-vos a dizer-me estas palavras, senhora? exclamou o fidalgo. O que ali está não é um padre, um ministro de Deus. É o espirito de Satanás. É um perverso que deve cair atravessado por uma bala. Peço-vos também eu que não atireis, seu sargento-mór – disse-lhe outra voz ao pé de si. João da Cunha voltou-se e deu de face com Marcelina, que dava mostras de quem ia ajoelhar-se. Alongando os olhos algum tanto mais, viu todas as mulatas na mesma atitude, acusando sua fisionomia os mesmos sentimentos manifestados pela senhora-de-engenho e pela cabocla. A forte guarnição que até aquele momento mantivera nutrido e mortífero fogo sobre os invasores; desamparava as posições, abaixava as armas à voz de um padre; e quando ele trovejava contra elas próprias, corriam medrosas a impedir, com suplicas e prantos, que lhe tirassem a vida.

O jesuíta entretanto prosseguia assim a sua terrível jaculação.

- Atirastes sobre a cruz do redentor. Estais por isso condenadas às profundas dos infernos. Suspendei, suspendei, filha de Satanás, a vossa impiedade. A maldição de Deus pesará eternamente sobre vós, se ousardes levantar ainda armas infernais para o lado onde está o símbolo da fé e da religião católica. Batei nas faces, mulheres ímpias. Pedi misericórdia a Deus. Misericórdia! Misericórdia! Exclamaram irresistivelmente todas as mulheres presentes. E suas mãos ainda quentes dos canos das armas, flagelaram, a modo de impelidas por oculta e fatal força, as faces há pouco afogueadas, agora pálidas, senão lívidas.

Um dos traços característicos daqueles tempos era a fé cega no padre e na sua doutrina. O sentimento religioso confundia-se com a superstição e dela recebia a influencia que ainda em nossos dias alenta no lar do rico e do pobre, do pequeno e do grande, crenças deletérias e hábitos fatalissimos. D. Damiana, educada no seio da família católica, ao paladar da fé antiga – misto de sombra e luz, como a nuvem que no deserto guiava o povo de Israel – sentia-se fraca diante do sacerdote, não obstante ter-se mostrado um momento antes brava, senão temerária, diante das forças e das armas rebeldes, porque ela estava acostumada a ver no padre o representante de Deus na terra; a considerar suas palavras como sentenças do código divino.

(continua...)

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