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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

 Com o arrojo e destreza que ele possuía no mais alto grau, e o multiplicava, lançou mão de uma estava do rancho e espancou a troça do Filipe. 

 Depois de os ter sovado em regra, quando ia já em retirada, ouvindo a voz do Aguiar a perguntar pelo que havia, gritou-lhe de longe: 

 - A sua gente rompeu o ajuste; minha palavra está livre. Passe bem; mas fique descansado que eu lhe darei o pago deste desaforo. Há de ver se é bom ser amarrado como um negro fugido! 

 Deixando a fazenda encaminhou-se Jão Fera para Santa Bárbara, donde saíra aquela manhã, cuidando que nunca mais voltaria àqueles lugares. 

 O desfecho da traição do Aguiar o entristecia, e dentro de sua alma lamentava não estar àquela hora preso na cadeia de Campinas, ou enterrado no rancho da fazenda, onde algum dos capangas podia tê-lo facilmente prostrado com um tiro de melhor pontaria. 

 Incutia-lhe esse pesar o profundo pavor que dele se apoderava, pensando no seu encontro com Berta, e na indignação que sua presença devia causar à menina. 

 Por vezes parou, hesitando se devia retroceder. 

 

XXVI 

O cipó 

 

O fim da noite foi para Jão Fera um pesadelo horrível. 

 A todo instante fulgurava em sua alma, ao clarão de uma chama satânica, a cena atroz do assassinato de Besita. 

 Mais de cem vezes, no resto da noite, reviveu esse momento de acerba angústia, no qual toda sua existência submergia-se, como rio caudal pela estreita gorja de um precipício. 

 Revia com a mesma ânsia o vulto do Ribeiro, e sentia que após vinte anos ainda não cicatrizara em sua alma o golpe que a tinha dilacerado, quando foi ele, Jão, obrigado a rasga-la, ficando junto de Besita, e não perseguindo o assassino. 

 A voz da mísera mãe ressoava-lhe constantemente no íntimo, com aquele pungente grito de desespero:

- “Minha filha, Jão!... Ele... matá-la...”. 

 Revolvia-se o capanga na dura laje que lhe servia de leito; e tentava subtrair-se à obsessão, lembrando que não passava aquela visão de um desvario de seu espírito. 

 Mas surgia-lhe a imagem de Besita, que descia do céu para implorar-lhe a salvação da filha; e o capanga, impelido por força misteriosa, erguia-se de um ímpeto; e vagava à toa pelo ermo, à busca do ignoto perigo que ameaçava Berta. 

 Uma vez chegou a cerca da casa de nhá Tudinha para certificar-se de que nada ocorrera de extraordinário naquela habitação. Vendo-a tranqüila como de costume, tornou à furna e esperou que amanhecesse. 

 Às seis horas encaminhara-se para a tapera, onde esperava encontrar Berta. Batia-lhe o coração pensando na cólera da menina. 

 Chegado ao ponto da vereda, onde ficava o fojo minado pelo Brás, o capanga que desde o princípio descobrira a cilada e a desprezara, sorriu, percebendo as escarchas da terra gretada pela escavação interior. 

 Batendo com o pé de champa, abateu a estiva, que, desmoronando-se com a camada de barro superposta, rolou pelo barranco abaixo. 

 Ouviu-se um berro, e o idiota, que desde o romper do dia, acocorado no fundo do desfiladeiro, esperava o corpo do capanga para cair-lhe em cima, fugiu amedrontado, mas sobretudo furioso por lhe ter falhado o ardil armado com tamanha paciência. 

 Jão tinha gana ao idiota, e prometeu a si castiga-lo. Entretanto, saltou a fenda do despenhadeiro, como por segurança se habituara a fazer desde que descobrira a cilada, e aproximou-se da tapera. 

 Aí chegou o momento em que Zana via a descoberto o vulto do Ribeiro, assomando na orla do mato. 

 O grito que soltou a negra, repercutiu na alma do Bugre, como o eco de um som remoto, mas que estrugia ainda a seus ouvidos. O semblante fulvo da louca surgiu diante dele como a figura que tinha gravada dentro da alma, no sombrio painel da morte de Besita. 

 Seu olhar acompanhou a vista esvairada de Zana e encontrou-se com o espectro, que tantas vezes lhe aparecera durante a noite. A expressão viperina daquele rosto, ele a conhecia; era a máscara que tinha servido, vinte anos antes, na horrível tragédia. 

 Apoderou-se do capanga uma súbita convulsão. Tremiam-lhe os músculos, como as estipes da palmeira, açoitadas pelo temporal. Batiam os dentes; e a língua trêmula nem força tinha para balbuciar. 

 A possante organização parece romper-se aos embates de uma paixão imensa, que se quer precipitar do íntimo, e não acha válvula bastante por onde escape. 

 A semelhança do monte percutido pelo fogo subterrâneo, que lhe dilacerava as entranhas, o corpo robusto e atlético de Jão Fera brande, e vacila até que abra-se enfim uma cratera a esse ímpeto vulcânico. 

 Durou a crise espantosa todo o tempo que levou Ribeiro a aproximar-se de Berta. A cada passo do facínora, crispava-se o capanga, no afã de colher as forças; mas abatia sobre si, como ao próprio peso se acalca a massa bruta. 

(continua...)

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