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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

“Minha querida Bela. 

Deus ouviu suas preces, as preces de um anjo, e abençoou os meus esforços. 

Breve estaremos reunidos e para sempre. Viveremos na pobreza, a que a sorte nos condena; mas não é só a opulência que tem o direito de ser feliz neste mundo; ao contrário, muitas vezes ela não acha no meio de seu luxo um instante da alegria que enche a casinha do pobre. 

Teremos de passar ainda por grandes provanças, minha querida Bela; não devo iludi-la. A vida é difícil para aqueles que trilham a áspera vereda, e não se deixam arrastar pelas brilhantes equipagens, que passam cobrindo-os de pó! Não me assusta a luta; conto, para dar-me coragem, com o nosso amor, que tem sido e há de ser o conforto de minha vida. 

Às vezes perdido neste turbilhão da corte, minha querida Bela, têm-me vindo também a mim sonhos d’ouro, castelos encantados como fazem todos que têm imaginação. A riqueza para certos indivíduos não passa de uma indigestão de dinheiro, é na mão de quem compreende um dom sublime, quase celeste, porque transmite ao homem um influxo da Providência: enxuga as lágrimas da miséria, fortalece a virtude vacilante, e anima os nobres cometimentos. 

Mas eu os espanco, a esses silfos tentadores, que agitam sussurrando suas asas de ouro, e me refugio nos meus sonhos de amor. Sob as tuas brancas asas, e me refugio nos meus sonhos de amor. Sob as tuas brancas asas, meu anjo da guarda, estou com Deus; e posso desafiar o mundo. Sei para sempre. Ricardo.” 

 

Soavam trindades na torre fronteira da matriz. 

Ajoelhou-se Bela para rezar a “ave-maria”. As andorinhas esvoaçavam pela fachada da igreja, retalhando os ares com vôos intermitentes. Já caía a noite quando duas se encontraram diante da janela,  beijando-se com alegres chilidos, que assustaram a moça. 

Ainda Bela não tinha rezado, tão absorvida estava em seus pensamentos. 

 

XXX 

 

No dia em que Ricardo recusara a mão de Guida, espontaneamente oferecida, chegou à casa de volta de Andaraí, atordoado ainda pelo procedimento singular, como pela decisão de caráter dessa moça. Eram três horas. 

O jantar o esperava, e durante ele, a conversa com a dona da casa e a tagarelice das crianças o distraíram da preocupação que trazia e à qual desejava arrancar o espírito. 

À tarde, fumando um charuto e sentado à janela do sótão donde avistava as verdes encostas de Santa Teresa e mais longe o Corcovado, o moço deixou-se ir à discrição do pensamento que o levava para os acontecimentos daquela manhã. Não tardou o envolvesse um desses castelos encantados de que falava na carta a Bela. 

Imaginou-se outro homem, que não ele. Um moço pobre, de alguma inteligência, lutando corajosamente com a sorte, mas sem o vínculo de uma afeição, que o prendesse para sempre. Caminhava curvado ao peso do trabalho, quando uma voz celeste o chama. Ergue os olhos, e vê descer das nuvens a moça mais gentil, deslumbrante de beleza, cintilando graça e espírito que lhe diz: 

“Minha alma é virgem e pura, como o sorriso de que Deus a formou. Nunca amei; não sei que mistério é esse da criação. Ensinai-me vós a amar; acordai em mim as doces emoções dessa felicidade que eu não conheço. A linguagem dos anjos que eu falava no céu é doce; mas quero aprender em vossos lábios outra linguagem mais suave e maviosa, a que entende o coração. Eu sou a flor que nasce, cheia de fragrância, que toda guardei para derramar em vosso seio: colhei-me.” 

E o moço ficava enlevado a admirar a esplêndida formosura, não podendo crer que Deus houvesse formado aquela sublime criatura e a conservasse imaculada no regaço do céu, para enviá-la de repente a ele, como um anjo, que o inundasse de felicidade. Mas interrompendo um instante o afã, ajoelhava para admirar a peregrina imagem. “Erguei-vos, dizia-lhe a moça. Meu senhor não há de calcar o pó da terra. Tenho riquezas sem conta para dar-lhe. Quero ser querida em um palácio, entre as magnificências do luxo, cercada de tudo quanto seduz e deslumbra. Quero ser amada assim para que, no meio de todos esses esplendores, ele só busque meus olhos, só deseje meu sorriso.” Desfraldando as asas, a imaginação de Ricardo bordou sobre o gracioso tema um desses arabescos orientais, cheios de encantamentos e fascinações, como são os contos árabes. 

Quando ele surpreendeu-se no meio desse devaneio, teve um remordimento; e para fugir aos enlevos da fantasia, asilou-se nas recordações das puras afeições da família e dos santos amores de sua infância. 

Tomou a pena e escreveu a Bela a carta que este lera à janela, na hora da ave-maria; depois conversou longamente com sua mãe, em duas folhas de papel, renovando as reminiscências dos tempos que tinham passado juntos em São Paulo antes da separação. 

(continua...)

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