Por Franklin Távora (1878)
Mas Germano, que não gritará, que não se surpreendera com esse grande desastre, parecia não obstante haver ele penetrado mais profunda e dolorosamente do que nos outros. Havia nisso o efeito de uma lei fisiológica, senão moral. Fora ele, ele próprio quem tinha derramado água nos barris, logo depois da morte de Moçambique. Então nem sequer lhe passara pela imaginação a idéia de ser alforriado por seu senhor. pensava porém no que lhe dissera Pedro de Lima. Para justificar-se perante João da Cunha, se este vencesse, tinha ele o seu procedimento com o parceiro; matarao: não podia dar melhor prova de sua lealdade. Para aparecer diante do bandido com direito a ser livre, necessário lhe era algum fato de grande alcance, cuja responsabilidade pudesse atribuir a se próprio, no caso de saírem vencedores os estrangeiros, em nome de quem o cabra prometia essas grandes recompensas. Eis porque pusera água na pólvora.
Mas a inesperada generosidade do senhor tornara-o perplexo, confuso, sem saber o que fazer. O remorso, o arrependimento, o pesar, a dor abafada e temerosa o tiveram por um momento fora do uso das suas faculdades. Germano não era mau negro. Tinha sido até ao momento de se entender com ele o Pedro de Lima, muito dos seu senhores. Ainda depois nós o vimos como arrependido em conseqüência das reflexões que lhe fizera Marcelina. Desencabeçado, porém, em nome da liberdade, atirara-se naquele escabroso despenhadeiro a modo de fatalmente.
Vendo agora de perto os resultados de sua perfídia; conhecendo-se assassino, sem ter nunca pensado sê-lo; vendo seus senhores sujeitos aos duros azares que a vitoria dos contrários poderia trazer; vendo a ele próprio sem ação, sem meios para afastar todos aqueles horrores, vencer todas aquelas cruéis fatalidades, encher o grande abismo que ameaçava engoli-los, enfim reparar aquela imensa desgraça de seu natural irreparaval, só faltou ao negro completar o seu martírio mudo e imponderável, cortando com suas próprias mãos o fio da existência a que um momento se haviam rasgado horizontes cor de rosa, logo após convertidos em profundas e infernais escuridões. Ó liberdade, quanto pareceste dolorosa nesse transe ao pobre escravo, vitima da natural ambição de te possuir!
O estampido de uma nova descarga, abalando violentamente todos os espíritos, veio como reacender a perdida veemência do de Germano. Sua impetuosidade etiópica rebentou pujante, como a catadupa que jorra subitamente de solo frio e pedregoso.
O negro tivera uma inspiração grandiosa, digna da heroicidade romana. Pondo-a em pratica, reabilitava-se perante sua própria consciência e dava manifesto testemunho ao senhor-de-engenho da sua gratidão. ] - Senhor, senhor, - disse ele a João da Cunha, tendo na mão desembainhado o facão com que tirara a vida a Moçambique – a água molhou as armas e a pólvora, mas não molhou o facão de Germano. Ainda que estivesse molhado, era agora a ocasião de o enxugar nos corações dos mascates. Se senhor dá licença, vou esperar os inimigos da banda de fora com meus companheiros.
- Quantos estão aqui?
- Dezenove, respondeu Germano.
Não, agora somos trinta, respondeu ao pé do sargento-mór o Roberto, que descera. Nesse momento nova descarga soou na sala do sobrado. João da Cunha, espantado, perguntou a Roberto:
- Quem é que ainda atira lá em cima? Não estão vocês todos cá embaixo?
De feito, todos os negros, que Roberto capitaneava, achavam-se com os outros no armazém.
- É a senhora d. Damiana, com as negras.
- Que loucura! E onde acharam munições? Onde acharam munições?
- Lá em cima. A senhora d. Damiana tinha muitas dúzias de cartuchos guardados. Cada um de nós tem já a patrona cheia.
- Graças, meu Deus! exclamaram os fidalgos. Mas então porque desceram, porque abandonaram seu posto? perguntou o sargento-mór.
- Foi ela que nos mandou para baixo. Ela disse que havia mais necessidade de nós cá embaixo onde nenhum tiro se disparava, do que lá em cima. E a senhora d. Damiana teve razão – disse Filipe Cavalcanti, que, tendo ido olhar pelos olhais, voltara correndo ao lugar onde estas coisas se passavam. Acudam todos. Os bandidos batem-nos à porta. Uma descarga agora contra eles deve ser de grande proveito para nós. Correram todos os que tinham as armas carregadas. Um estampido imenso ecoou dentro do vasto armazém. No chão da rua caíram vários dos assaltantes – muitos feridos, alguns mortos. Era o primeiro sinal de vida que dava de se para o lado de fora o armazém.
Tomando por estratégia o silencio que até então ai reinara, recuaram os assaltantes amedrontados, mas não o fizeram tão prontamente que ficassem logo fora do alcance de novos tiros disparados do sobrado, desta vez mais certeiros do que das outras. Novas perdas contou a força invasora.
Quando cessou de todo o estrondo da ultima descarga, uma voz vibrou nos ares, forte e pujante, por entre as exclamações de dor dos feridos. Partia ela do cruzeiro e parecia dirigir-se aos do sobrado.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.