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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Moçambique chegou-se a Germano e lhe disse:

- Que esperas, moleque? Daqui a pouco o branco vem chamar-nos para o sobrado, e nós levamos as armas enxutas. Bota logo água dentro delas.

- Cala a boca, tio Moçambique. Estás doido? Água dentro das armas! Para que fim?

- Ah! Tão depressa te esqueceste da promessa que fizeste a seu Pedro de Lima?

- Eu nada prometi, Moçambique, eu nada prometi do que você está inventando ai.

- Pois já te não lembras da conversa que tiveste ontem de tarde no mucambo?

E que prometi eu, negro velho tonto? Melhor será que você cale sua boca. Calou Moçambique a boca um momento, mas seu espirito embrutecido, seu interesse, que sua ignorância o fazia supor muito bem amparado pelas promessas de Pedro de Lima, alteou dentro em sua mente cada vez mais as vozes falazes e persuasivas. O negro deu uma volta, como para disfarçar a intenção serpentina, dirigiu-se ao canto onde estavam encostadas as armas, e começou a esvaziar no cano de cada uma o coco, que enchia no pote d’água destinada a matar-lhes a sede.

Germano deu pela operação, no momento precisamente em que Moçambique molhava o ultimo mosquete. Correr ao negro velho, tomar-lhe a arma da mão, exprobra-lo, foram atos que o moleque praticou em um momento.

- Tio Moçambique! Você sempre fez o que queria?! exclamou na realidade aterrado Germano.

- Fiz o que tu prometeste, mas não tiveste coragem para fazer, respondeu Moçambique. Negão safado! Tu ouviste eu prometer alguma coisa?

Ouvi, sim. E se tu quiseres agora negar, eu tudo contarei ao senhor – disse Moçambique, dando mostras de querer envolver em sua queda o parceiro.

Germano era fino. Viu de um lance d’olhos todo o horror da situação, toda a imensidade do seu infame procedimento. Compreendeu que se o senhor-de-engenho saísse daquele aperto e viesse a ter conhecimento do que se passara no mucambo, a forca seria o seu fim, se não fosse a morte nos açoites. Então lembrou-lhe uma idéia, única que o podia salvar do abismo à borda do qual cambaleava mais morto do que vivo. Era destruir a única testemunha da sua entrevista com Pedro de Lima. Morto Moçambique, estaria ele livre da responsabilidade que o negro queria repartir com ele, e poderia até, se a vitoria pertencesse aos mascates tão completamente como figuraria Pedro de Lima, exigir deste o preenchimento da promessa feita. Tanto que esta ordem de idéias se acentuou bem em sua mente, para o que não foi preciso mais do que um instante, o moleque puxou resolutamente do facão que consigo trazia, e com ele traspassou o parceiro.

Tendo contado pela rama esta fatal acontecimento a João da Cunha, Germano para dar inteira autoridade ao que dizia, indicou o canto do armazém onde se achava morto, dentro de uma poça de sangue ainda quente, o negro que punha sentido nas carvoeiras.

O sargento-mór soltou então o moleque, dizendo-lhe estas palavras:

- Em recompensa da ação que praticaste, Germano, dou-te a liberdade. Do ora por diante já não és meu escravo, mas meu amigo. Estás forro.

- Eu forro, eu livre senhor! exclamou, duvidoso ainda o negro, como quem não podia acreditar fosse senhor do sumo bem a que aspirava desde que tivera o uso da razão, mas cuja posse só em sonho considerava possível.

Estás livre. Palavra de João da Cunha. As lagrimas saltaram dos olhos do moleque, mas uma sombra, escurecendo-lhe o espirito e aguando o contentamento inefável que o repassava, volitou diante dos seus olhos. Esta sombra tinha a forma de um espectro agoureiro e medonho. Parecia com o negro morto, mas não era senão o remorso, porque, em consciência, o moleque se reconhecia traidor e assassino.

Nesse momento Roberto apareceu no armazém.

- - Pólvora, senhor, queremos pólvora – disse ele. acabaram-se todas as munições que havia lá em cima. E que fazem os inimigos? Interrogou Filipe Cavalcanti.

Avançam, respondeu Roberto. Estão já batendo nas portas. Pólvora, Germano! Gritou o sargento-mór. E uma idéia sinistra, semelhante à sombra do inferno, atravessou seu espirito atribulado. – Se Moçambique molhou a pólvora, que será de nós?- pensou ele.

Germano corre ao barril que primeiro se lhe mostra. O sargento-mór, sobressaltado, impaciente por saber imediatamente a sorte que lhe estava reservada naquele tremendo apuro, correu após o moleque. Germano para diante do barril, abre-o com arrebatamento nervoso, e voltando-se imediatamente ao sargento-mór que tinha os olhos postos nele, exclama:

- A pólvora está molhada, senhor!

Molhada! Molhada! Exclamam quatro vezes ao mesmo tempo, quatro vozes que se confundiram na mesma angustia, e que pareciam um só grito de maldição e de horror. Eram as vozes de João da Cunha, Filipe Cavalcanti, Luiz Vidal e Roberto.

Para se certificar, o sargento-mór meteu suas próprias mãos dentro do primeiro barril, do segundo, de todos eles. Retirou-as cobertas de uma camada espessa e úmida, semelhante à lama da rua, que se lhes aderira. Não havia mais que duvidar. O tremendo drama caminhava rapidamente à sua ultima cena.

(continua...)

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