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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

A seu lado estava uma linda moça, tipo dessa beleza plástica e serena, que distingue as paulistas, e à qual só falta um nada da petulância que têm as fluminenses às vezes em demasia. Era bela, essa moça; e ao vê-la no repouso de sua formosura correta e imaculada, compreendia-se o culto de Ricardo que tinha em alto grau o sentimento artístico. A Bela seguia-se Luisinha, e depois os irmãos e irmãs. Era a fisionomia de Ricardo, reproduzida sete vezes, em traços mais indecisos; neste perfil, com a suavidade do contorno feminino; naquele, com a alacridade da travessura infantil. E dias de chegada de paquete, como esse, Bela que morava perto da matriz, vinha passar a tarde com a tia, para receber notícias da corte, e ouvir as longas cartas que Ricardo escrevia com recados para todos, especialmente para ela. 

Acabava Juca, um dos filhos de D. Benvinda, de chegar do correio, trazendo duas cartas, uma delas bastante volumosa e portulada com um batalhão de estampilhas. Pelo sobrescrito conheceu logo a velha que a do filho era a mais pequena. 

Abriu-a, e disse com um suspiro ao passá-la à Luisinha para ler: 

- Tão curta! 

- É mesmo! repetiu Luisinha com a doce voz arrastada. Ele sempre escreve tanto! A carta continha apenas estas palavras: 

 

“Minha boa e querida mãe. 

De prevenção e à pressa lhe envio estas linhas. Estou ocupado com um trabalho importante, que devo concluir até amanhã; e receio me roube o tempo que eu destino para conversar com aquelas a quem amo. 

Mas trabalhando, não tenho eu sempre vivas em minha alma, para dar-lhe coragem, a sua imagem, minha querida mãe, a de Bela, de Luisinha, de todos aqueles por cuja felicidade eu rogo a Deus todos os dias? Abençoe-me, querida mãe; e dê a Bela o santo beijo que eu de longe não posso receber. Seu filho 

Ricardo 

18 de agosto de 1871.” 

 

Quando Luisinha terminou a leitura da breve carta duas lágrimas rolavam pelas faces de D. Benvinda, que parecia absorvida na imagem do filho ausente. Bela se erguera, e enxugando com o lenço de cambraia as faces da velha, dobrou os joelhos para receber na fronte o beijo de Ricardo, ungido pela bênção materna. 

Entretanto Luisinha voltava de todos os lados a carta volumosa, em cujo sobrescrito reconhecera admirada a letra de Fábio, o qual raras vezes escrevia e sempre de afogadilho, por desencargo de consciência.

- E esta é de Fábio? perguntou D. Benvinda. 

- Não sei, respondeu Luisinha vermelha como lacre. Creio que é.

- Basta ver a letra, disse Bela. 

- Desta vez desforrou-se! observou D. Benvinda contando as laudas da carta que tinha aberto. Toma, Luisinha; vamos ver o palavreado do rapaz. Já estou-me rindo! 

- Leia você, Bela, murmurou Luisinha com as faces a arderem. 

Era o costume. As duas noivas trocavam a vez nessa leitura. 

A carta de Fábio era uma garrulice de estróina, mas não destituída de chiste e boas lembranças. 

Suprimidos os nomes próprios, e metida em meia dúzia de colunas, aquela prosa caseira e do cote, podia bem gozar das honras do folhetim, e não teria que invejar aos mais asseados e domingueiros que aí aparecem. 

Ao escrever essa carta passava o noivo de Luisinha por um desses momentos de plenitude moral, em que o espírito, como o coração, transbordam, e carecem de vazar a afluência de vida. Durante seis meses fartara-se de prazeres, divertira-se a não poder mais, gozara do mundo, era amado por uma mulher bonita e do grande tom. Estava cheio. Retido em casa à espera de uma resposta que devia trazer-lhe dinheiro, o moço lembrou-se, para disfarçar a impaciência, de escrever à sua futura sogra, e começou neste belo teor: 

 

“Minha futura mãe e respeitável senhora. 

Há tempos recebi uma carta sua em que me perguntava como ia na advocacia. Deixei passar alguns meses, antes de responder, para dar-lhe uma informação mais segura.  

Agora posso dizer-lhe tudo que há a tal respeito e não é muito. O nosso Ricardo está com um escritório já bastante acreditado; tem clientes magníficos; e vai ganhando sofrivelmente. Eu só apareço lá, de longe em longe, para não espantar a caça; mas vou-lhe mandando as causas que posso. Sou um jornal vivo; mas jornal de sala, que é mais aristocrático, e mais barato.” 

 

Neste gosto continuava a carta, que Bela ia lendo no meio das risadas de D. Benvinda e dos muxoxos de Luisinha. Chegou, porém, um ponto, em que redobrara a atenção das três senhoras: 

 

“A Bela deve estar orgulhosa do noivo que tem. Se ela soubesse até que ponto Ricardo a ama!... Ele, estou certo que nada lhe dirá; mas eu é que não sou caixeta de segredos; e este me está fazendo cócegas. Aí vai, no ouvido, de cochicho, que não o ouça uma certa sonsinha, cujo pecado é a curiosidade.” 

 

- Isto é com Luisinha! Disse D. Benvinda. 

- É o que ele sabe me dizer. 

Imagine-se a curiosidade com que foi ouvido o trecho seguinte, que leu Bela com a voz palpitante de emoção: 

 

“Há aqui na corte uma moça, que é a rainha da moda; chama-se Guida; é filha de um homem que não sabe quanto possui; tem dezenove anos e muito espírito; a respeito de beleza e elegância, não se fala; é o tipo: ninguém a excede. Imagine quantos sujeitinhos andam-lhe arrastando a asa, apaixonados ao mesmo tempo pelos olhos pretos e os milhões amarelos dessa peregrina formosura. 

(continua...)

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