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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- Não percamos mais um momento. As forças aí vêm. Se não resistirmos, em dez minutos estaremos no poder dos rebeldes. Descei, descei, e mandai a gente para cá. O forte dela deve ficar lá em baixo. Cá em cima precisamos unicamente de quem saiba carregar e descarregar sua arma. Lá em baixo requerem-se ânimos viris. Será lá o nosso posto de honra.

João da Cunha desceu e tornou logo. Vinham com ele o Roberto e mais dez negros.

- Vês aquela linha de homens que ali vem avançando e atirando para cá? Perguntou o sargento-mór, indicando ao feitor a parte da força que era comandada pelo próprio Luiz Soares. Estou vendo, sim senhor.

- Sobre ela devem ser feitas todas as pontarias. De lá debaixo, quero ver cair aqueles alteadores atravessados pelas balas dos meus escravos. Senhor sim, disse Roberto.

Os negros foram distribuídos pelas janelas. Pelos interstícios das urupemas introduziram os canos dos bacamartes, e espararam a voz de – fogo. O sargento-mór, tanto que viu as armas abocadas na direção conveniente, ordenou uma descarga. Queria por seus próprios olhos ter uma prova, antes de descer ao outro pavimento, do valor e da disciplina da sua gente.

No mesmo instante um só e infernal estampido encheu o âmbito da sala, e foi revoando pelos aposentos e salas imediatas. A casa, em que predominava a pesada alvenaria daqueles tempos, estremeceu, não obstante, como se fora de taipa de sebe, desde os fundamentos até ao teto, de cujo estuque se desagregaram partículas calcinadas. Dir-se-ia que ali o mundo acabava de ter uma das suas medonhas comoções, um desses terríveis cataclismos que se resolvem no aparecimento de mais um vulcão, na abertura de mais um abismo. Misericórdia! Misericórdia! Gritaram dentro algumas mulheres aterradas. Quando iam descendo, ouviram os fidalgos o estrondear de uma forte descarga do lado de fora. Era a resposta que os da rua davam aos do sobrado. Era mais do que uma simples resposta; era principalmente intimação, feita pelo fogo, a que se rendessem, senão a acerba ameaça de que dentro em pouco tempo não passariam de vencidos e prisioneiros.

A luta estava terrivelmente travada. Em alguns minutos ninguém mais pode entender-se. a mosquetaria atroava os ares com suas vozes assustadoras. As descargas sucediam-se incessantemente umas às outras. Contra os paredões e muralhas de solida e antiga fortaleza não batem com mais fúria as balas de canhões inimigos do que as dos mosquetes dos matutos contra as paredes, as portas, as janelas do sobrado do sargento-mór em que eles consideravam encastelado o despotismo, o orgulho e a maldade de um senhor feudal.

- Germano? Germano? Chamou o sargento-mór, ao penetrar no vasto aposento em que tinha o grosso de sua tropa. Onde estás, moleque? Não vês que as portas da entrada se acham desamparadas? Para a frente, demônios!

João da Cunha trazia na cava do colete um punhal, no cós dos calções uma pistola, e na mão esquerda um clavinote curto. Por cima do gibão de seu uso corria-lhe, cingindo-o, o talim, donde lhe pendia uma espada de ponta direita. Do ombro esquerdo para o quadril direito caia transversalmente uma correia lustrosa na qual se via segura uma patrona cheia de cartuchos fabricados por sua mulher. Trazia na cabeça chapéu de palha de largas abas. Com o trigueiro do rosto contrastava a barba grisalha, com o longo nariz aquilino os olhos pequeninos e redondos, como os de pomba.

Em sua fisionomia liam-se sentimentos encontrados e violentos: a temeridade para avançar, a firmeza para resistir.

À voz do senhor, Germano chamou os outros e tornou com eles para as portas. Por trás destas tinham sido colocadas diversas caixas-de-açúcar com dobrado fim – amparar as entradas e dar aos atiradores posição sobranceira. Subiram às caixas os negros, e nos pequenos olhais, acinte feitos nas portas por ordem do sargento-mór, puseram eles as bocas das armas.

Então o sargento-mór deu ordem para atirar. As pedras bateram nos fuzis, algumas escorvas arderam, mas nem um tiro soou.

João da Cunha, espantado, surpreso, olhou sucessivamente para os negros e para os dois fidalgos. Rápida lividez passou pelas faces destes últimos. Uma só idéia, uma suspeita cruel que lhe atravessara o cérebro, fez chegar ao rosto deles a sombra de sua asa negra.

Puseram os escravos novas escorvas nos mosquetes, que levaram novamente aos orifícios das portas. À voz de – fogo! – as escorvas arderam, mas, como da primeira vez, nenhuma arma disparou seu tiro.

Fora de si, o sargento-mór vai cair de um pulo junto de Germano, enquanto Filipe Cavalcanti e Luiz Vidal, desembainhando suas espadas, se colocam em atitude ameaçadora diante dos outros escravos.

- Negro infame, quero saber o que têm estas armas. Confessa a verdade, senão te atravesso da outra banda. João da Cunha parecia uma visão infernal. Todos os músculos do rosto, as mais delicadas linhas de seus olhos despediam duras e mudas ameaças, que falavam mais claro do que seus gestos e expressões violentas. Senhor, as armas estão molhadas, respondeu Germano. Não fui eu que as molhei, foi ele; mas já pagou.

- Molhadas as armas! exclamou Filipe. Traidores!

- Ele quem? Ele quem? Dize já quem foi o autor deste crime. - Moçambique.

Eis o que se tinha passado depois da subida do Roberto e dos seus companheiros para o andar superior.

(continua...)

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