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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Não devia Ter dado a notícia, disse Fábio arrependido; mas como sempre se havia de saber... 

- Decerto. Que mal faz? 

- Quanto à carta, não posso. Ricardo não me perdoaria. 

- Essa é a confiança que lhe mereço? disse D. Guilhermina queixosa. 

- Se fosse meu, não hesitaria. Mas este segredo não me pertence. 

- E pertencia-me a mim a afeição que lhe dei? 

- Direi, com uma condição.

- Por negócio, dispenso. 

E a moça deu ao talhe uma lânguida inflexão que era o irresistível condão de sua beleza. 

- Pois bem, à senhora eu conto, disse o moço correndo o olhar em torno. 

Guida, já sobre si, tivera o cuidado de colher a cauda do vestido e ocultar-se por trás do pedestal de bronze, de modo que Fábio não se apercebeu de sua presença. 

- Pode falar, disse D. Guilhermina. Ninguém nos ouve. 

- A carta era muito curta. Bela dizia a Ricardo que, não podendo fazer sua felicidade, cedia aos desejos do pai aceitando o esposo que tinha escolhido. 

- E o Ricardo, como recebeu a notícia? 

- Tem sentido muito. Ele amava sinceramente a prima; era uma afeição de infância.

- Mas há de consolar-se. 

- Que remédio! 

- Os homens esquecem depressa! 

- As injustiças que lhes fazem aquelas a quem adoram. 

- Há de ver que daqui a um mês o Ricardo amará outra. 

- Duvido, disse Fábio. Eu o conheço; é dessas almas concentradas, onde tudo, afeição, idéia, lembrança, cria raiz funda. É preciso tempo! 

- Veremos! 

Deixara D. Guilhermina cair essa palavra do lado da estátua, afastando-se para deixar a Guida retirar-se sem que a percebesse Fábio. Aproveitou a moça o momento, e deu uma volta para encontrar-se mais longe com os dois. Ao tomar pela alameda que prolonga-se com o gradil, viu uma pessoa que entrava o portão e que dirigindo-se à escada de mármore, parou de repente em meio caminho. 

Reconheceu Ricardo, e notou sua perturbação; no gesto e olhar traía-se a perplexidade do espírito. Após breve luta, voltou ele sobre os passos; e saindo novamente o portão, afastou-se apressado para o lado de São Clemente. 

Teve Guida ímpetos de chamá-lo; mas faltou-lhe o ânimo. Já não possuía a sua antiga isenção. Chegaram D. Guilhermina com Fábio: 

- Sabe quem passou por aqui? disse Guida com uma voz que apesar do esforço tremia: seu amigo. 

- Ricardo? 

Acenou Guida que sim, fitando um olhar fagueiro em D. Guilhermina. 

- Por que não vai chamá-lo? disse a mulher do conselheiro a Fábio. Se ele soubesse que o senhor estava aqui, com certeza entrava. 

- Maçado como anda? 

- É bom que se distraia, disse a senhora, e voltou-se para Guida:

- O Dr. Nunes teve um desgosto. 

- Ah! 

- Mas não quer que se saiba, acudiu Fábio. 

- Esteja descansado, que ninguém vai tocar-lhe nisso. Não se demore.

- De que lado tomou? 

- Seguiu para São Clemente, respondeu Guida. 

Fábio saiu naquela direção. A pequena distância encontrou o amigo, que naturalmente já vinha de volta, pois não tardou que as duas moças, através da folhagem, os avistassem a ambos, passando em frente ao gradil. 

Em um irresistível assomo de júbilo, Guida abraçou a D. Guilhermina, que retribuiu-lhe afetuosamente a carícia, murmurando: 

- Você pode ser feliz! 

Sentiu Guida o egoísmo de sua alegria, e apagou com um beijo o sorriso triste que abrira nos lábios da amiga. 

 

XXIX 

 

Na linda várzea do Brás, onde se desdobra um dos mais pitorescos arrabaldes da capital de São Paulo, há uma chácara extensa, cujos terrenos bordam a margem esquerda da estrada de ferro. 

A casa é grande, abarracada, ao gosto paulista, e bem antiga. Cercam-na vastas hortas e largos tabuleiros de flores. No mesmo dia em que Ricardo recusava a mão de Guida, por volta de seis horas da tarde estavam reunidas várias pessoas na varanda daquela casa, em volta da mesa de jantar, onde acabavam de colocar dois castiçais com velas de estearina. 

A senhora idosa, de agradável parecer e porte refeito, que sentava-se à cabeceira da mesa, era a mãe de Ricardo, D. Benvinda. Com as mãos cruzadas ao peito, no trepasse do lenço vermelho que trazia aos ombros, escutava com religiosa atenção a leitura de uma carta. 

(continua...)

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