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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Então, separada a moça da comitiva, ainda que tenham passado com ela algumas pessoas, é fácil ao bandeirista consumar o rapto. A Rosinha saltará na garupa do baio; com uma das mãos tapará a bôca de D. Flor para impedí-la e gritar e com a outra a estreitará ao peito, enquanto o Onofre bemmontado, tomando o beio pela brida, disparará com êle e a donzela. 

Para reforçar a grade de couro, preparou Onofre outra barreira. É uma ramalhuda braúna, já serrada pelo tôpo e que a um empurrão do Aleixo Vargas cairá sôbre o caminho, trancando-o com uma sebe viva e emaranhada. 

Enquanto o capitão-mór e sua gente esbarrarem nessa embrechada, o Onofre tem tempo de pôr-se a salvo com a donzela e recolher-se ao Bargado. 

Antes de concluir o novo exame da emboscada, sentiu o bandeirista a língua trôpega: 

— Diabo dêste vinho do reino!… Não sei que mistura lhe deitaram!… Querem ver que pôs-me, meio lá, meio cá? Eu me entendo é com o patrício! 

— Não é, sr. Onofre. Êste vinho tinha alguma coisa com certeza. Também eu estou com as pernas bambas, de uns sorvos que dei na borracha. Pois a minha conta no Minho era meio quartilho ao almôço. 

Reparou o Onofre que toda a sua gente já andava estirada, uns pelo chão juncado de fôlhas sêcas, outros pelos galhos rasteiros, a curtir a carraspana. 

— Olhem esta corja de bêbados! Como roncam!… E mais é que vou fazer o mesmo! Não posso comigo! O tal sumo de uva não me toa!… Corrimboque, fique de espreita e acorde-nos, quando chegar… quando for… você sabe… 

Não concluiu Onofre. O torpor que lhe invadira o corpo sopitou-o completamente, e nem lhe deu tempo de escolher o lugar onde acomodar-se. O corrimboque, se ainda o ouviu, não pôde responder-lhe de pesada que tinha a língua; e o Moirão já mugia como um touro. 

Nessa ocasião os cavalos começaram a rinchar sentindo talvez a aproximação de algum animal da mesma espécie. 

A única pessoa que resistiu ao súbito letargo foi Rosinha, de-certo por ter bebido apenas uns goles do vinho. A rapariga vendo toda aquela gente sopitada em profunda modorra, assustou-se, tanto mais quanto também sentia desfalecimento. 

Não foi longa, porém, essa perturbação; passada ela, conservou-se alerta a fim de acordar os companheiros ao primeiro sobressalto. 

Ergueu-se então dentre um monte de fôlhas sêcas a alta e magra estatura de Jó. Investigando com rápido olhar a cena, o velho esgueirou-se com a sutileza de uma sombra por entre a folhagem e foi surdir a uma distância de cem braças. 

Alí, segurando um grosso madeiro, começou a bater na terra com o movimento compassado de um pilão. 

Às primeiras pancadas, Rosinha sobressaltou-se e tratou de acordar Onofre; mas o bandeirista não deu acôrdo de si e os companheiros ainda menos. Quando a rapariga já não sabia o que fizesse, cessou o estrépito que ela atribuiu à corrida de algum boi. 

Entretanto Arnaldo acabava de soltar o Dourado, e lembrando-se dos rinchos que ouvira, e que denunciavam a presença de cavalos bridados, tomou êsse rumo, suspeitando que a bandeira do Onofre andasse por aqueles sítios. 

Nisso percebeu uma como vibração que saía da terra e reconheceu imediatamente o sinal de Jó, que tinha aprendido dos índios a comunicar-se por aquele meio seguro através de grandes distâncias. 

Instantes depois o moço sertanejo encontrava-se com o velho, que o levou ao lugar da emboscada. 

— Estão dormindo? 

— beberam tinguí. 

O velho referiu então rapidamente a Arnaldo o que fizera. 

Enquanto os bandeiristas agachados no mato espiavam a passagem da comitiva, Jó fôra aos alforges, tirara um caneco, enchera-o de aguardente em um dos odres; e esmagando entre os dedos ramas de tinguí, macerou-as depois dentro do espírito. Quando lhe pareceu que a tintura estava bastante forte, dividiu a aguardente pelas duas borrachas e teve o cuidado de as sacolejar. Sabendo que a gente da escolta fôra tinguijada pelo velho, Arnaldo estremeceu: 

— Envenenados? Todos?… 

— Tontos apenas. Deixa-os dormir descansados, e daquí a uma hora acordarão um tanto moídos e nada mais. 

— E a rapariga? 

— Bebeu pouco. 

— É preciso amarrá-la a ela e aos outros por segurança. 

Jó apoderou-se de Rosinha embrulhando-lhe a cabeça na mantilha. Arnaldo foi à várzea, matou um boi e o esfolou com a rapidez e destreza que tem neste, como em todos os misteres de seu ofício, o vaqueiro cearense. 

O couro foi imediatamente cortado em correias, com que o sertanejo peou de pés e mãos a toda a escolta, inclusive a Rosinha, passando em seguida, êle e Jó, a amordaçá-los pelo mesmo sistema. 

Na ocasião em que ligava os pulsos do Moirão, Arnaldo traçou-lhe com a ponta da faca uma cruz nas costas da mão direita, e tão ferrado estava no sono o minhoto que não sentiu o gume do ferro cortar-lhe a epiderme. 

 

IX - Repreensão 

 

Depois de combinar com Jó o que lhes restava a fazer, Arnaldo deixou o velho no lugar da emboscada e voltou ao sítio onde havia ficado a comitiva. 

(continua...)

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