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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Vou a Jorge Cavalcanti, que já pode abandonar a sua fortificação, visto que as forças inimigas, a que ele pretendia impedir a entrada, já estão tomando conta da vila. Lourenço correrá ao Tanquinho a dizer a Manoel de Lacerda que venha em nosso socorro. Com a gente que cada um destes amigos tiver junta, bateremos esses bandidos. Só o que desejo me façais, João da Cunha, é que sustenteis a resistência até que eu chegue. Bastam-me cinquenta, quarenta, vinte goianistas da gema para levar estes salteadores a panos de espada, este canalha a patas de cavalo. Em menos de dois minutos, Cosme e Lourenço, tomando pela Rua-do-meio, corriam à desfilada. O momento era decisivo.

Chegando à sala, Filipe Cavalcanti, Luiz Vidal e João da Cunha deram com um espetáculo novo e singular. Cada uma das mulheres que ai se achavam – eram oito, a saber d. Damiana, Marcelina e seis mulatas escravas – mostrava-se aparelhada para travar a luta homérica. A capitoa era a mulher do sargento-mór. Seu espirito belicoso tinha-se comunicado a todas as outras, excetuada Gertrudes, velha que a amamentara e que a um canto da sala tremia de medo. Sobre os bufetes, as mesas, os estrados viam-se açafates cheios de cartuchos, obra das suas mãos e das de algumas de suas mucamas durante os dias e as noites anteriores.

- Que é isto, senhora? perguntou o sargento-mór à sua mulher, tanto que seus olhos leram na face dela a expressão da energia intima, reflexo do seu sangue e do seu orgulho.

- De que vos admirais? Mandei trazer para a sala as armas e munições que estavam nas camarinhas. Será ainda cedo para aparecerem?

-Cedo não é, disse o sargento-mór. Mas é que em mãos de uma dama e de escravas elas se me afiguram postas com muita antecipação. Em ocasiões como esta, e em havendo ainda homens, as mulheres não devem usar outras armas que os seus rosários.

- Tem vosmecê razão, seu sargento-mór, disse a velha. Eu cá por mim não posso entender-me com armas de fogo. As minhas armas são d’água – são as lagrimas. As de fogo, quando alguma vez as tenho, como agora debaixo das mãos, já me parece que vão estourar e despedaçar-me.

Gertrudes tinha de feito nesse momento a mão posta sobre o cano de um mosquete, que estava a seu lado sobre o estrado. Mal acabara de falar, um estrepito estranho e inesperado rebentou perto dela. A anciã recuou espavorida. Pareceu-lhe que se confirmava seu receio. Dera causa ao ruído uma bala inimiga que, batendo no espelho da sala, o pusera em farelos.

- Credo! Virgem santíssima! Exclamaram quase ao mesmo tempo as mulheres.

D. Damiana tinha corrido para junto do marido, como quem queria defendê-lo.

-Correis aqui perigo de vida, disse Felipe Cavalcanti. O meu parecer é que vos retireis ao interior da casa, onde estareis mais resguardadas das balas perdidas. Ide aí encomendar nossas vidas a Deus, e pedir para as nossas armas a vitoria.

A senhora-de-engenho não quis parecer obstinada. Deu o andar para dentro com sua antiga aia, Marcelina e as mucamas. É, porém, certo que seus espíritos, alvoroçados com a eminência do perigo, não se deixaram lá ficar, antes vieram emparelhar-se a João da Cunha, vigiando sobre ele, estremecendo por sua existência, a qualquer detonação, a qualquer vibração suspeita de lhe ser ofensiva.

Quando se acharam sós, correram os três fidalgos às urupemas a examinar o aspecto do campo inimigo. - Estais vendo, Felipe? Inquiriu Luiz Vidal.

- Que quereis dizer?

- Aquela mó de gente de negro que se move do lado de lá do cruzeiro?

- Estou vendo. São frades, ao que parece.

- São os próprios frades do convento – disse João da Cunha – que distribuem armas e munições pelos matutos esfarrapados e imundos. Oh! os frades, os frades do Recife e de Goiana têm tido grande parte nesta guerra!

Tendo dito estas palavras, o senhor-de-engenho deu o andar para descer.

- Para onde ides? perguntou-lhe Luiz Vidal, carregando o mosquete de que lançara mão.

- Vou mandar subir para cá a metade dos negros. Precisamos dar logo sinal de nós, rompendo o fogo sobre aqueles magotes ferozes. Prudência, amigo, prudência! Observou Filipe. Vede bem não vá esta provocação decidi-los a acometer logo o sobrado.

- Que tem que venham? Tenho forças bastantes, não só a resistir-lhes, mas a batê-los.

- Não estareis enganado? Demais não será mais acertado nada tentarmos contra eles, antes de chegarem os reforços que Cosme foi buscar? Se aquela gente toda, reunida com a que está na frente da cadeia, vier assaltar-nos, achais que poderemos ficar vencedores?

- Só por milagre, ajuntou Luiz Vidal. Mas olhai que a força inimiga, Filipe. Não compreendeis aquela manobra, ordenada por Luiz Soares?

As forças deste caudilho tinham-se dividido em três grandes pelotões. O do centro, formando uma extensa linha ao longo da praça, parecia querer adiantar-se até ao cruzeiro, e de feito se encaminhou para ai; os das extremidades, mais numerosos e compactos, desceram, correndo a marche-marche a tomar as embocaduras, ao norte e ao sul da rua.

Claro está o plano do caudilho, disse o sargento-mór. Atentai nele. A linha do centro manterá sobre nossa frente incessante fogo, enquanto as outras duas, ganhando os lados, vêm reunir-se com ela no ponto comum, que não é outro senão as nossas portas. Houve um momento de silencio. Os fidalgos, por trás das rotulas, olhavam para um lado e para outro, como quem estava estudando as posições inimigas. Enfim Luiz Vidal voltou-se para o senhor-de-engenho e lhe disse:

(continua...)

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