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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- É preciso conhecer as particularidades da família... O Dr. Nunes, se eu lhe perguntar, desconfiará e com certeza há de recusar, mas o Fábio... 

- Ele nunca me falou na família do Ricardo. 

- Porque não lhe tocou nisso. 

- Hei de perguntar-lhe! 

- Talvez ele apareça aqui esta tarde. 

- Não deve tardar... Isto é, creio que ele vem, corrigiu a tempo a moça com vexame. 

Mas Guida não fez reparo; e afastou-se na direção do gradil, olhando para a rua através dos recortes da folhagem. Momentos depois voltou pressurosa ao lugar onde ficara D. Guilhermina triste e pensativa: 

- Aí está ele. 

Efetivamente chegava Fábio ao portão; e avistando as senhoras ao atravessar o jardim, foi-lhes ao encontro. Depois dos cumprimentos e banalidades usuais, Guida trocando com a amiga um olhar de inteligência, procurou um disfarce para deixá-la só com o Fábio. 

- O senhor nunca me disse que seu amigo Fábio tinha uma irmã? foram as primeiras palavras que D. Guilhermina dirigiu ao moço, interrogando-lhe a fisionomia com o olhar. 

Ficou passado o Fábio. Apesar de sua leviandade, evitava com o maior cuidado tocar no que tinha relação com sua vida de São Paulo, pelo receio de divulgar o seu ajuste de casamento com Luisinha. 

Imagine-se pois do atordoado que estaria, vendo a pessoa de quem mais desejava esconder essas particularidades, tão ao corrente, e sentindo assim evaporar-se de repente o seu castelo encantado. 

- Não sabia que a senhora tomava tanto interesse por meu amigo! respondeu o moço buscando uma evasiva nessa ponta de ciúme. 

- Mais do que o senhor pensa; e tanto que desejo pedir-lhe certas informações a respeito dele.

- A mim! 

- Sem dúvida. Não é o senhor amigo íntimo do Dr. Nunes? 

- Por isso mesmo, deve compreender quanto as suas palavras me fazem sofrer. 

- Não vejo motivo. Conheço uma pessoa, que, sendo infeliz no seu casamento, consola-se quando pode fazer a felicidade dos que se amam. 

Vinham estas palavras envoltas em um suspiro e perfumadas de suave melancolia. 

- E recusa fazer a minha, quando sabe a paixão com que a adoro! 

- Essa pessoa soube, não sei como, que o Ricardo tinha um casamento ajustado em São Paulo com uma moça a quem ama; mas sua felicidade depende de uma soma necessária para o pagamento de certas dívidas... - Sua felicidade dependia de um escrúpulo. Hoje nem isso!... 

- Deixe-me acabar. O que eu desejo que o senhor me diga, pois está no segredo da família, é o modo de pagar essas dívidas, sem que seu amigo saiba, nem desconfie, senão depois de tudo acabado. Assim não haverá mais impedimento à felicidade dele... 

A voz da bela senhora afogou-se na reticência de uma lágrima. 

- E à sua! disse afinal com emoção. O senhor poderá casar-se com aquela a quem ama, Luísa, não é o nome? O primeiro assomo de Fábio foi a negativa; mas à sua alma, nobre no meio da volubilidade e extravagância da mocidade folgazã, repugnou essa apostasia de sua primeira afeição. 

- Eu amo Luisinha, confesso; mas também a amo, D. Guilhermina, e com paixão!

- Essa paixão é impossível. 

- Porque a senhora a despreza. 

- Eu devo-lhe as únicas alegrias de minha vida, condenada a um triste desencanto. Deixe-me guardar estas recordações doces e puras dos dias passados; não devemos envenená-las com um crime que faria a infelicidade de duas pessoas e a nossa. 

Fábio travara da mão da senhora e a beijava. D. Guilhermina retirando-a enternecida, chamou a amiga para romper o a sós que a estava comovendo: 

- Guida!...

- Cruel!... 

- Ainda não satisfez o meu pedido sobre a dívida de seu amigo. 

- Oh! isso é fácil. O pai de Ricardo deixou a chácara hipotecada na casa bancária de Gavião Peixoto pela quantia de dez ou doze contos de réis; mas com os juros já monta a dívida a vinte. Desembaraçada a casa, podia D. Benvinda viver com a família modestamente sem pesar sobre o filho. 

- O senhor me há de dar por escrito uma lembrança de tudo isto, com os nomes...

- Para quê? tornou o moço com escrúpulo.

- Já lhe disse. 

- Para apressar o casamento de Ricardo com Bela?... Mas é inútil.  

- Deveras? perguntou D. Guilhermina lançando um olhar para Guida que se aproximava. 

- Foi uma surpresa! Ontem, quando menos esperava, recebeu Ricardo uma carta de São Paulo. Abriu; era de Bela, que lhe participava seu casamento com o Lemos, outro primo. 

Ouviu Guida essa notícia, ao aproximar-se; e vacilou com a emoção que abalou o seu talhe esbelto. Felizmente passava naquele momento por uma estátua de bronze representando Flora, cujo pedestal lhe serviu de apoio e também de refúgio para esconder a alteração do gesto, pois Fábio colocado do lado oposto não podia perceber-lhe o vulto. Notando o soçobro da amiga, a arfagem violenta do seio, que se expandira com o ímpeto d’alma, e a contração do rosto ao esforço da vontade a reprimir o grito que rompia do seio, D. Guilhermina voltou-se para o outro lado, o que obrigava o moço a imitá-la, desviando assim os olhos da estátua. 

- O que dizia a carta? perguntou a mulher do Barros. 

(continua...)

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