Por Franklin Távora (1878)
- Vim chamar vosmecê a toda pressa. Do lado do rio dirigem-se para o sobrado forças numerosas. No sobrado se diz que são as forças de Luiz Soares. Luiz Soares! exclamou o sargento-mór.
- Luiz Soares! repetiram Felipe e Cosme Bezerra.
- E que faremos agora? Inquiriu João da Cunha.
- Sabendo do que havia, Antonio Rabelo aproximou-se e disse-lhes:
- Podeis ir, senhores. Eu defenderei o meu posto até exalar o ultimo suspiro. Pois bem. partiremos a cortarlhe a vanguarda – disse Cosme a Antonio Rabelo. Mas ao vosso lado, senhor capitão, ficará o alferes Diogo Maciel. Tende certeza de que estareis bem acompanhado.
Com as espadas nuas nas mãos, os fidalgos afastaram-se, formando uma mó impenetrável.
Alguns dos do bando de Jeronimo Paes, que lhes saíram ao encontro, caíram ao peso da terrível massa de Lourenço, o qual ia na frente abrindo caminho temerariamente.
Seguiam após eles as ordenanças de Cosme Bezerra e os escravos de João da Cunha.
Penosa, mas rápida, tinha corrido a noite.
Raiava, enfim o dia 23 de agosto de 1711, que ficou sendo memorável nos fastos de Goiana.
XXVI
Não tinha ainda amanhecido de todo, quando as balas dos assaltantes já sibilavam pelas urupemas do sobrado de João da Cunha, como pelas enxárcias de navio no alto mar esfuziam as lufadas de atroz procela.
Porque fora esse o lugar escolhido para as primeiras honras do assalto? Porque, em vez de correr imediatamente à cadeia, forçá-la, quebrar-lhe os ferrolhos, soltar os sentenciados, tinha Luiz Soares tomado para o pátio do Carmo, deixando entrever a intenção de atacar a habitação do fidalgo antes do que qualquer outro ponto?
A resposta é fácil. Antonio Coelho sabia a hora precisa em que Luiz Soares teria de entrar na vila. Sabia o lugar onde essa entrada devia efetuar-se: era aquém do Tanquinho, e quase fronteiro ao oitão da igreja do Senhor-dosmartirios. Tomando essa direção, escapava às trincheiras de Manoel de Lacerda, como aconteceu.
O negociante, tanto que viu aproximar-se o momento, montou a cavalo e para lá se encaminhou, seguido de cerca de cem homens. Este troço era composto em grande parte de europeus. Era o corpo de sua especial confiança. Coelho o denominava seu estado-maior. Partiram da Rua-de-rosario, ao mesmo tempo que a multidão capitaneada por Jeronimo se dirigia para o lugar onde estacionou.
Quando a gente de Luiz Soares, rompendo os últimos matos, saiu na Rua-dos-martirios, que não era então mais do que o caminho do Tanquinho, achou já ai para o receber o estado-maior dos mascates.
Vendo o comandante da tropa, Coelho correu a ele, chamou-o de parte e falou-lhe à puridade. Quando a cabo de alguns minutos se separaram, estava assentado o plano do ataque. Luiz Soares devia levar suas primeiras investidas contra a frente da casa do sargento-mór, enquanto o negociante a atacaria pelo lado oposto. Entre dois fogos, o soberbo fidalgo cairia no poder dos inimigos sem grande custo, e tanto bastaria para que cessasse a resistência, visto que nenhum dos outros, nem Cosme nem Filipe, nem Jorge Cavalcanti, nem Manoel da Lacerda, em uma palavra nenhum deles tinha gente para fazer frente a seus adversários. Então tudo tornar-se-ia fácil. O povo já estava solto; a vila abandonada por mais da metade dos habitantes pacíficos; seguir-se-ia a revolta como se seguiu. As tropas invasoras engrossariam com os subsídios que desse a insurreição, e tomariam sem perda de tempo o caminho do Recife, a fim de romper o cerco.
Estas foram as razões que publicou Coelho para autorizar o seu plano. Ele porém tinha a sua razão particular em querer que prevalecesse este a outros planos indicados pelo destemido Paraibano. O leitor já sabe qual ela seja. Acabar com João da Cunha era o seu fim, a sua preocupação de todo o instante. Acabado ele, poderia finalizar a guerra, que ele não teria por isso pesar nem descontentamento.
No momento em que, dando a volta da rua, descobriram os fidalgos, aos primeiros clarões da manhã, a vasta multidão, superior a seiscentos homens, uma idéia assaltou incontinenti o espirito de Bezerra. Com sua lúcida previsão a que devia tantos sucessos felizes no período de agitação de que se trata, concebeu logo ele um projeto de oposição. - Um cavalo já para Lourenço.
E voltando-se para o rapaz, disse-lhe:
- Tu me acompanharás. Não preciso de mais ninguém.
- Aonde tencionais ir, Cosme? perguntou Filipe Cavalcanti.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.