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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Achou êle na mata uma grossa casca de pereiro, já despegada do tronco morto, e vestiu-a como um estôjo que o escondia desde a cabeça até os pés, deixando-lhe ver por entre as rachas do córtice. Êste aparelho, que êle completou com as ramas verdes da árvore, permitia-lhe transportar-se de um ponto para outro, sem que o percebessem. Era uma moita ambulante. 

Arnaldo recomendara especialmente ao velho que observasse os movimentos de Luiz Onofre e da sua bandeira; pois suspeitava da vinda dessa gente, embora fosse tão natural que o Fragoso, tendo de atravessar o sertão de Inhamuns ainda infestado de índios bravos, se munisse de uma escolta maior do que trouxera do Recife. 

Jó notou na véspera da montearia que Luiz Onofre saíra do Bargado com o Moirão e mais um camarada que levava um grande surrão ou alforge de couro, e só tornou à casa por tarde. Ao passar, o bandeirista dizia a um dos acólitos: 

— Esta madrugada, quando o galo cantar a segunda vez, todos a-cavalo. Ouviu, Corrimboque? 

— Não tem dúvida, sr. Onofre. 

— E até lá, moita. 

Concluiu o velho que de alguma expedição se tratava para a madrugada seguinte; e não era a montearia, pois havia recomendação de segrêdo. Quando Arnaldo veio à noite, êle comunicou-lhe o que sabia. 

— É uma emboscada, disse o velho. 

— A quem? perguntou Arnaldo. 

— Ao Campelo. O capitão-mór é soberbo; ofendeu ao moço, êste vinga-se.

— Mas êle pretende a filha por espôsa? 

— Então é que o pai a recusou. 

— Ainda não, afirmou Arnaldo. 

Foi combinado entre ambos um plano. Arnaldo tinha de acompanhar o capitão-mór. Jó seguiria o Onofre para saber o fim da expedição. No caso de verificarem-se as suspeitas, daria sinal a Arnaldo pela percussão da terra. 

Era porisso que durante o trajeto Arnaldo tinha o ouvido alerta. 

A princípio inclinou-se ao alvitre de prevenir o Campelo; porém receou que o tomassem por visionário, ou que fosse êle o motor de algum injusto desabrimento do capitão-mór contra o Fragoso. Seu pundonor repelia essa idéia de chamar em auxílio de seu ódio o poder do dono da Oiticica; êle, Arnaldo, não carecia de ninguém mais, senão de si, para combater seu inimigo. 

Não obstante, quando viu a pequena escolta com que saíu o capitão-mór, cerrou-se-lhe a alma e quis falar. Mas dominou-o ainda o mesmo receio. 

— Em todo o caso, para salvar D. Flor, basta o Corisco! pensou consigo anediando a longa crina do cardão que rinchava. 

À hora aprazada a bandeira estava montada e partiu do Bargado, saindo os cavaleiros de casa a um e um para não fazer tropel. Atrás do último foi Jó escanchado em um poldro que o Arnaldo lhe deixara para êsse fim. 

Luiz Onofre era um produto dêsse cruzamento de raças a que se deu o nome de coriboca. Assim como a sua tez representava a fusão das três côres, a alva, a vermelha e a negra, da mesma sorte o seu caráter compunha-se dos três elementos correspondentes àquelas variedades. Tinha a avidez do branco, a astúcia do índio, e a submissão do negro. 

O Fragoso não podia achar melhor instrumento para seu projeto; e até, segundo rezava a crônica de Inhamuns, não seria êsse dos primeiros furtos ou raptos de moça que o Onofre fizesse por conta do patrão, o qual tinha fama de grande corredor de aventuras. 

Ao primeiro alvorecer chegou o bandeirista com sua gente ao ponto designado. Depois que prenderam os cavalos e ataram-lhes o focinho com embornais para impedí-los de rinchar, seguiram todos o cabo, que os levou para dentro do cerrado. 

— Corrimboque! 

— Pronto! 

— Você fica no mundéu lá do outro lado para cortar a corda; e o Raimundo do lado de cá. Raimundo! 

— Rente! 

— Chegue cá! Está vendo êste angico vergado ao chão? Pois assim que me ouvir gritar ai, é cortar a corda, senão corto-lhe eu as orelhas. Está entendido? 

— Não quero destas graças comigo, sr. Onofre. 

— Cá o amigo Aleixo Moirão, não precida que lhe diga; fica ao pé do pau… 

— E lá vai a trabuzana! acrescentou o Moirão, fazendo gesto de quem mete as mãos para empurrar. 

— Quando for tempo! advertiu o Onofre. Onde está o Beijú? 

— Às ordens! 

— Lembra-se bem do canto da saracura? Do José Cigano?… Vamos a ver lá isso! 

O Beijú soltou um guincho que imitava perfeitamente o canto da saracura, e que estrugiu longe pela mata a dentro. 

— Está direito. Quem falta agora? Rosinha! 

— Que tem com ela? perguntou uma trêfega rapariga adiantando-se. 

— Já sabe, moça. Quando o cavalo da dama passar, é de um pulo escanchar-se na garupa e segurar bem a dita, e tapar-lhe a bôca para não gritar. 

— Fica ao meu cuidado. 

— Bem; tudo está corrente. Agora, moita; vamos esperar que passe a comitiva, para cuidarmos cá da pessoinha. Quem piar, tem contas comigo. Toca a deitar. Corrimboque, vá ver se os cavalos estão com os focinhos bem apertados pelos embornais, e leve-os para bem longe. 

(continua...)

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