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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— A conferência há de acabar um tanto azedada; pelo que julgo mais prudente não a prolongar com despedidas. 

— Lá isso é verdade. 

— Previna o primo ao João Correia, que eu vou avisar ao Daniel Ferro. 

Instantes depois anunciou-se a partida. Vieram os cavalos, e Arnaldo trouxe pelo freio o baio, que apresentou a D. Flor; mas não deu tempo à moça de falar-lhe. Quando depois de ter montado ia a donzela dirigir-lhe a palavra, tinha êle desaparecido. 

Tornou a comitiva pelo mesmo caminho. 

A cêrca de meia légua da marizeira, onde as duas comitivas se haviam juntado, Marcos Fragoso, que seguia de par com o capitão-mór entretendo-o com uma conversa banal acêrca de fazendas de gado e outros assuntos do sertão, fez uma pequena pausa, e mudou de tom. 

As senhoras e os outros cavaleiros iam muito adiante escaramuçando e já não apareciam; o Agrela vinha atrás com a escolta. Tinha, pois, o Fragoso liberdade para  encetar o delicado assunto: 

— Agora, sr. capitão-mór, peço-lhe vênia para tratar de um ponto que me toca mais que nenhum outro, disse Fragoso; e releve vossa senhoria, se o faço nesta ocasião imprópria, mas como talvez saia amanhã para Inhamuns, não quis adiar. 

— Visto que está de partida e o caso é urgente, não nos negaremos a ouví-lo aquí, sr. capitão Marcos Fragoso, ainda que o direito era em nossa casa. 

— Bem o reconheço; mas a bondade de vossa senhoria supre esta minha falta.

— De que se trata então? 

— O muito e estremecido afeto que sinto por sua filha, D. Flor, e que eu acredito ser por ela retribuído, obriga-me a pedir sua mão a vossa senhoria, que decidirá, como pai que é, de nossa mútua felicidade. 

Passada a surpresa, o capitão-mór respondeu com severidade: 

— Nossa filha, sr. capitão Marcos Fragoso, não podia pensar em homem algum sem licença de seu pai. Fique sabendo. 

— Talvez me iluda; e nesse caso dela virá a minha desventura. Mas vossa senhoria, que decide? 

— O senhor não falou esta mesma manhã de uma noiva, com quem já parecia justo e contratado? A-propósito do Dourado e daquelas formosas chinelas que ainda não tem solado? 

— Ah! exclamou Fragoso sorrindo. Essa noiva de que eu falei, é precisamente aquela que lhe acabo de pedir, e que espero alcançar da sua generosidade. 

— Visto isso, já contava como certo o seu casamento? retorquiu o capitão-mór, rugando o sobrolho. 

— Tinha a esperança, que ainda conservo, de que vossa senhoria não me recusará a mão de D. Flor, tornou Marcos Fragoso. O Campelo calou-se. 

— Que resolve, senhor capitão-mór? 

— Eu pensarei. 

— Já anunciei a vossa senhoria que parto amanhã, e careço de uma resposta para terminar agora mesmo esta minha pretensão de uma ou de outra forma. 

O capitão-mór solenizou-se: 

— O que lhe podemos dizer, sr. Marcos Fragoso, é que apressou-se em pedir nossa filha e pensar que ela estivesse à sua espera ou de outro qualquer. 

— Será porventura alguma princesa? atalhou Fragoso, já não dominando o despeito. 

— É nossa filha, a filha do capitão-mór Gonçalo Pires Campelo. Está ouvindo? Nós podíamos, se nos aprouvesse, escolher entre outros o sr. Marcos Fragoso para casá-lo com D. Flor; mas não admitimos que pretenda casá-la consigo.  

— Quer isso dizer que seriam o senhor e ela quem me dariam a honra de admitir-me na sua família, em falta e coisa melhor, e por uma espécie de promoção ao pôsto de marido?

— É justamente isto, tornou o capitão-mór. 

Fragoso calou-se. Com um movimento expressivo tirou o chapéu e conservou-o algum tempo na mão. Soou então no mato o canto estridente da saracura; e com pouca demora outro igual respondeu-lhe a cêrca de cincoenta braças para diante. 

Então o moço capitão voltou-se com arrogância para o Campelo: 

— Senhor capitão-mór, o assunto é muito sério. Pese bem a sua resolução. 

— O capitão-mór Campelo só tem uma palavra. Disse não; é não. 

— Pois saiba vossa senhoria que eu, Marcos fragoso, também só tenho uma vontade e irrevogável. Jurei que sua filha seria minha mulher e, com o favor de Deus, ela há de sê-lo. 

O moço capitão fez com o chapéu um cortejo ao Campelo; e voltando à direita meteu-se pelo mato seguido de toda a sua comitiva, inclusive os pagens que ticavam as charamelas. O capitão-mór ficou um instante perplexo: 

— Que disse êle? perguntou para o ajudante. Jurou que minha filha há de pertencer-lhe com o favor de Deus? Irá fazer alguma novena, Agrela? 

— Ou alguma penitência, senhor capitão-mór. 

A atenção do capitão-mór voltou-se para um grande tropel de cavalos que soara pela frente. Curioso de saber por si mesmo a causa dessa arrancada, apressou o passo do ruço pedrês. 

 

VIII - Emboscada 

 

Oculto nas vizinhanças do Bargado, Jó espiava a casa da fazenda e seus arredores. 

O velho tinha a astúcia de um índio e talvez a adquirira no trato com os indígenas durante a robustez da idade e a aumentara com a experiência de sua vida quase selvagem. 

(continua...)

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