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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Por entre as árvores descobriu êle as cavalgaduras, que pastavam à soga em uma clareira coberta de relva e sombreada pela mata. Perto do baio de D. Flor, estava um rapaz de vinte anos, que pelo tipo das feições e pela côr baça do rosto combinada com os cabelos negros e lustrosos, mostrava pertencer à raça boêmia, da qual nesse tempo e até época bem recente, vagavam pelo sertão bandos que viviam de enliços e rapinas. 

O escritor desta páginas ainda tem viva a lembrança dessas partidas de ciganos, que muitas se arrancharam no sítio onde nasceu, e cuja derrota era assinalada pelo desaparecimento das aves e criação e animais domésticos, especialmente cavalos, quando não havia a lamentar o furto de crianças, de que faziam particular indústria. 

O rapaz que Arnaldo vira, era um cigano desgarrado, como havia alguns por exceção; e estava a fazer ao baio uns afagos e carícias, tão cacheiros que para exprimí-los, adotou a língua o seu próprio nome. O povo rude chamava a isso, enfeitiçar o cavalo; e acreditava que o animal assim enliçado fugia do dono para seguir o ladino. 

O sertanejo parou um instante a observar o cigano, e seguiu adiante. 

O capitão-mór pela posição em que estava foi quem primeiro o avistou, e de longe, ainda gritou: 

— Sempre escapou-te, o Dourado, rapaz? Aquilo é um boi danado, e manhoso como nunca se viu. Mas não te desconsoles. Outra vez com certeza lhe deitas a unha. Êle ficou te conhecendo desta primeira corrida que lhe deste, e já sabe o filho e quem és. Teu pai, o Louredo, nosso vaqueiro, e o primeiro campeador de todo êste Quixeramobim, o que quer dizer de todos os sertões do mundo, levou uma semana atrás dêsse boi desaforado. 

Ao terminar desta fala, já Arnaldo achava-se perto da mesa. Marcos fragoso, a-pesar-de haver-se convencido da necessidade de suportar com uma altiva impassibilidade a presença do vaqueiro que o havia insultado, custou a conter-se, e como o banquete havia terminado apartou-se com o primo Ourém para não precipitar-se. 

— Portanto, concluiu o capitão-mór, erguendo-se da mesa e caminhando para o sertanejo, não tens de que te envergonhar, rapaz! Aprendeste as manhas do boi; qualquer dia dêstes consegues pegá-lo. 

— Eu já o peguei, sr. capitão-mór, disse Arnaldo sem alterar-se. 

— Que dizes? Pegaste o Dourado, rapaz? perguntou o fazendeiro na maior surpresa. 

— Á unha, sr. capitão-mór. 

— Bravo, Arnaldo! Onde está o maganão? Trouxeste-o à ponta de laço, ou deixaste-o amarrado ao pau, que não é boi para matar-se aquele? 

— Tive pena dele, e solteio-o, respondeu Arnaldo com emoção. 

— É boa! exclamou João Correia. Pena de um demônio em figura de boi! 

— Que ternuras de vaqueiro! acrescentou Daniel Ferro. 

— Soltei o Dourado, sr. capitão-mór; porém antes marquei-o com o ferro de D. Flor, como ela tinha-me ordenado, concluiu Arnaldo sem dar ouvido às observações impertinentes. 

O capitão-mór exultou: 

— Flor, já sabe? O Dourado está com o seu ferro. Não pediu? 

— Eu sabia que êle tinha de ser meu, e que Arnaldo é que o havia de amansar, respondeu a donzela sorrindo. 

— Mas que prova temos nós disso? volveu Daniel Ferro. 

— De quê? perguntou o sertanejo. 

— De ter pegado o boi e ferrado. 

Arnaldo olhou-o com surpresa: 

— A minha palavra, respondeu. 

Já soava o riso dos dois hóspedes do Fragoso quando o capitão-mór o atalhou: 

— A tua palavra, Arnaldo, que nós seguramos com a nossa. O que disse o nosso vaqueiro é a verdade, e somos nós, o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, que o afirmamos. Se há quem duvide… terminou com uma reticência cheia de ameaças, correndo os olhos em roda. 

— Quem é capaz de duvidar da honrada palavra de vossa senhoria? acudiu o João Correia. 

Desde que o sr. capitão-mór abona, está acabado. 

O Daniel Ferro foi prudente apenas, e afastou-se. 

— Mas então, como foi o caso, Arnaldo? Conta-me tudo, quero saber. Pegaste-o mesmo à unha? 

Arnaldo referiu singelamente ao capitão-mór os pormenores da corrida, sem omitir nem 

mesmo suas conjeturas acêrca da tristeza do boi, e da piedade que excitara nele a lágrima do corredor. O capitão-mór ouviu atentamente, inquirindo de cada circunstância, e aprovou o procedimento de seu vaqueiro. 

— Fizeste bem; não se deve informar um boi valente, é melhor matá-lo. 

Enquanto relatava ao capitão-mór a corrida, não cessou Arnaldo de observar o Marcos Fragoso, e viu a conferência que êle teve com o Ourém. 

— É agora na volta, primo Ourém, que pretendo falar ao capitão-mór sôbre o assunto que sabe; e decidir êste casamento, de que depende o meu sossêgo, pois quis o fado que eu não possa viver sem D. Flor. Espero que me ajudará. 

— Disponha de mim, primo; infelizmente não posso pôr à sua disposição: 

 

«Para servi-vos braço às armas feito, 

Para cantar-vos mente à musa dada.» 

 

— Guarde o braço; quanto à musa basta que ela entretenha as damas e os outros, enquanto me entendo com o capitão-mór. 

— Conte comigo. 

— Obrigado. Se a resposta for favorável, conhecerá pela demora e por meu semblante; se for contrária, há de ouvir-se o toque de charamelas; é o sinal para afastar-se logo do caminho e tomar direito pelo mato, onde nos reuniremos. 

— Sem despedir-me do capitão-mór? 

(continua...)

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