Por Franklin Távora (1878)
- Entendeis então que de outro modo tereis restabelecido o sossego publico? Enganai-vos. Em momentos semelhantes ao presente, quem se deixa guiar pelo coração corre o perigo de morrer às unhas inimigas. O raciocínio, a justiça, o sentimento de humanidade devem estar na ponta da espada, na boca do clavinote, nas patas dos cavalos. Que dizeis, Luiz? perguntou Cosme voltando-se para seu irmão Luiz Vidal, que, de pé, olhava, com mostras de quem tinha o espirito ocupado em acertar com o verdadeiro caminho, ora para o capitão de ordenanças, ora para o sargento-mór. - - Em verdade não vejo outro meio de combater a insurreição, respondeu Luiz Vidal. Entendo, porém, que não há necessidade de levar-se a repressão ao extremo que vós indicais. A força publica deve apresentar-se imediatamente nos pontos em que a perturbação se mostrar mais veemente e ameaçadora; mas deve haver particular empenho em que sua presença sirva antes para serenar os espíritos do que exaltá-los ainda mais, e muito menos para proceder a excessos que possam trazer o sangue e a morte.
- - Com quem estou metido! exclamou Cosme. Que dois filósofos humanitários! Observasse eu estes preceitos de refinada brandura, que amanhã Goiana em peso estaria nas garras de Antonio Coelho e de Jeronimo Paes, e cada um de nós teria o seu gasnete entre as unhas do Lauriano, do Bartolomeu ou de outros vis instrumentos do ódio português. Basta, meus amigos; dispenso os vossos conselhos. Olá, Matias? Gritou ele a um soldado, que da porta da sala assistia, sem tugir nem mugir, como era seu dever, à conversação dos nobres senhores. Corre já à casa, e dize ao alferes Maciel que espere por mim com toda a força que lá tem sob suas ordens. Põe nova carga nas minhas pistolas e mete-as nos meus coldres.
- Luiz Vidal, tendo ouvido estas ordens do irmão, deu o andar pela sala e voltou ao ponto em que se achava um minuto antes. Faço-vos companhia, Cosme, disse ele.
- Muito folgo de o saber. Eu também vou, disse João da Cunha, encaminhando-se para a porta. Pois não hei de acompanhá-los? Não é o lugar dos cavalheiros o seio quente da família quando a pátria está em perigo. Chegando à porta que dava para a escada, o sargento-mór chamou:
- Ó debaixo? Venha cá um de vocês.
Um negro apareceu logo após.
- Onde está Germano?
- Foi chamar Moçambique e Benedicto.
- E vocês estão todos aí?
- Estamos todos, sim senhor. - Sela o meu cavalo.
Entretanto, d. Damiana chegara-se para onde estavam Cosme, Luiz Vidal e Filipe Cavalcanti e com eles conversava sobre os sucessos vistos e previstos.
- - Ides também percorrer as ruas, Sr. João da Cunha? Perguntou ela ao marido que, dada a ordem, tornara a seu lugar. Meu dever impõe-me este procedimento.
- Não sei se seria mais prudente não vos expordes às iras dos vossos inimigos. Penso, ao contrário, que devo ir ao encontro deles a fim de os castigar. Mas é que em vossa ausência podem vir atacar o sobrado, observou Filipe Cavalcanti.
- Meus escravos estão aí para defendê-lo. Não nos há de faltar nem pólvora nem bala.
- E não há de ser só a escravatura que o defenda. Eu também sei pegar de uma espingarda e dispará-la, disse graciosamente a jovem senhora-de-engenho.
- Bonito, prima! exclamou Cosme Bezerra, sorrindo. Quisera estar de parte a ver a galhardia desta valente amazona.
Não façais pouco em mim, Sr. Cosme, respondeu d. Damiana. Bem me conheceis. Se entrardes na sala das mulheres, ficareis admirado do armamento que lá existe. Há mais de uma semana não tinha eu no engenho outra ocupação que fazer cartuchame. Podeis pois levar tranqüilo vosso espirito. Na casa de João da Cunha só penetrará mascate depois que Damiana da Cunha tiver exalado o ultimo suspiro.
A gentileza com que a senhora-de-engenho dizia estas palavras não se descreve, nem se imagina sequer. Outros fossem aqueles a quem ela se dirigia nesse momento, que teriam por vã e ridícula bravata essa afirmação a que a autorizava o conhecimento intimo do quanto valia o seu animo. D. Damiana era de feito perita em atirar desde os quatorze para os quinze anos. Manhãs inteiras levava ela por junto das capoeiras próximas do cercado do engenho a passarinhar por distração. Mais de uma aposta ganhou a parentes seus com quem atirara ao alvo. As detonações das armas de fogo, longe de amedrontá-la, levantavam seus espíritos. Sentia nelas certa voluptuaria harmonia que lhe trazia deleite. Naquela forma juvenil, graciosa e fresca havia ânimos viris, que se impunham à vontade e condição feminil como leis fatais e impreteríveis. Enfim, era tradicional esta qualidade da mulher do sargento-mór, e lhe acarretara entre o povo certa alcunha, com que as más línguas supunham injuriá-la. Chamavam-na – a Escopeteira. Longe, porém, de se dar por ofendida, a mulher de João da Cunha não perdia ocasião de mostrar praticamente que esta alcunha lhe era agradável e que a ela tinha indisputável direito.
- Bem sei quanto valeis, senhora prima, tornou Cosme. Mas é que difere muito atirar em rolinhas e sanhassús de atirar em salteadores afeitos a torcer o corpo às balas e aos mais mortais golpes.
- Seja como for, Sr. Cosme. Guardem os negros o baixo da casa, que eu guardarei o alto. Mas receio por meu marido, porque sei quanto o odeiam os mascates e a plebe.
- Nada o há de ofender. Demais, vamos apenas dar uma volta pelas ruas mais agitadas, disse Luiz Vidal.
E estaremos dentro em pouco tempo de volta, acrescentou João da Cunha. Como a esse tempo estavam já prontos os cavalos, desceram a montá-los os cavaleiros presentes. Antes de sair, João da Cunha entrou no armazém.
- Todos estão ai, Roberto? Perguntou ele, Roberto era o feitor. Todos, menos Germano, que ainda não voltou do engenho.
- Tem cuidado, Roberto, enquanto volto.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.