Por José de Alencar (1872)
Fitou a moça os olhos nas grinaldas que pendiam da janela, acompanhando o volutear de um colibri que chupava o mel das flores. Deste modo não se podia cruzar o seu olhar com o do advogado.
- O título... não me lembro. Era uma moça, filha de um banqueiro muito rico. Quanto à descrição, imagine o senhor, que sabe desenhar: o romancista a dá como bonitinha; não era nenhum primor; bem longe disso.
- Aí está-se revelando a escola inglesa, observou Ricardo.
Riu-se Guida maliciosamente da observação do moço, e continuou:
- O pai tinha declarado à filha quando ela tornou-se moça, que a não constrangeria, mas ao contrário lhe deixava plena liberdade para escolher um marido; contanto que chegando aos dezoito anos se casasse. Também é inglês, não lhe parece?
- Genuíno.
- Vai ver o resto. Chegou a moça aos dezoito anos; e completou os dezenove. O pai exige o cumprimento da promessa.
- E ela casa-se! exclamou Ricardo com vivacidade, levado por estranho impulso.
Retraiu-se porém o moço e desfolhou dos lábios um irônico sorriso. Guida, que deixara suspensa um instante a exclamação do moço, continuou galanteando:
- O senhor quer precipitar o desenlace. Não seja tão sôfrego. Ouça; temos muito tempo. Avozinha não vem tão cedo.
Guida parecia recobrar sua habitual isenção a garridice:
- O pai exigiu o casamento; mas a moça não tinha escolhido.
-Ah!
- E não só não tinha, como não podia escolher. A ninguém amava; não conhecia um homem por quem sentisse as doces emoções, os estremecimentos, que fazem a felicidade conjugal. Donde provinha isto, não sabia explicar o romancista, e menos eu. Não teria coração essa moça, ou se lhe havia cegado? Era isso feito da educação, ou da sociedade em que vivia, cercada de galanteios ridículos, de cálculos vis, e de grosseiras afeições? Pode ser que sucedesse à alma da moça o mesmo que a um botão de cacto, quando há tempestade: choca e não abre em flor. Pode ser!
- Mais tarde. Quem sabe! disse Ricardo sorrindo.
- É a minha...
Atalhou-se Guida em cujas faces espontava um vislumbre de púrpura. Ricardo olhava-a com emoção.
- “É minha esperança”, repetiu Guida pausadamente. Assim disse a moça, uma vez que lhe acudiu esse mesmo pensamento. Mas os dezoito anos eram passados; fugia o tempo, e seu pai que a amava extremosamente, afligia-se com a idéia de a deixar só no mundo à mercê da especulação. Reconheceu a moça que era forçoso o sacrifício; e não hesitou em jogar seu destino ao azar, para sossego de quem morria-se por ela. Escolheu.
Ricardo recolheu-se todo em si como se tivesse de assistir a uma importante revelação.
- Não careceu escolher, continuou Guida. Conhecia o moço, que fora algumas vezes à sua casa; tinha plena confiança em seu caráter e na sua educação. Era um homem probo e delicado. Podia confiar-lhe o seu destino. A primeira vez que o encontrou, confessou-lhe tudo; disse-lhe que, se não lhe tinha afeição, ou nunca a teria por ninguém, ou só ele a podia inspirar.
Guida que falava sôfrega, moderou-se.
- “Se pois não lhe repugna aceitar a mão de uma mulher nestas condições, e pensa que ela vale a pena de arriscar a sua independência, o senhor me salva da maior humilhação”. Eis o que ela disse, concluiu Guida. Os olhares dos dois moços se encontraram e fugiram-se.
- Não considera extravagante este procedimento? disse Guida rindo, para disfarçar a emoção.
- Está fora do comum; é novo, excepcional, como as circunstâncias que o determinaram; mas não há nele que repreender. Admiro a energia e espírito dessa moça, que em tão difícil conjuntura de sua vida, não sucumbiu à debilidade de seu sexo e teve coragem para decidir ela mesma e deliberadamente de sua sorte. Surpreende-me esta iniciativa, que atribuo à educação; e ainda assim parece difícil de vê-la produzir-se na vida real. - Pois há de ver, disse Guida meia voz.
- Como?
- Mas o senhor que aprova o procedimento da moça, no caso de ser a pessoa por ela escolhida, o que responderia?
- Eu não podia ser essa pessoa, disse gravemente Ricardo.
- Por quê? perguntou Guida com afã.
- O homem a quem essa moça se dirigiu estava livre; podia dispor de seu coração e de sua vida!
- Ah!
Descaiu-lhe, à Guida, a fronte abatida, Ricardo olhou-a um instante com uma ternura melancólica. Depois, reclinando para não arrancá-la à sua posição, fez-lhe a confidência de sua vida em breves palavras:
- É uma afeição de infância. Brincamos juntos, e aprendemos a amar-nos. Esperava formar-me, mas tendo falecido meu pai, fiquei único arrimo de uma família pobre e endividada. Meu tio, o pai de Bela, adiou o nosso casamento, apelando para minha honra. Que futuro reservava eu para sua filha, pobre também? Parti para a corte; vim pedir ao trabalho os recursos indispensáveis para desempenhar a velha casa onde mora minha mãe, e que é nosso único patrimônio.
- E é preciso muito dinheiro? perguntou Guida com interesse. Quanto?
- Acanho-me de falar-lhe dessas particularidades.
- Não adquiri esse direito fazendo-lhe minha confidência? tornou a moça com meiga exprobração.
- Tem razão.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.