Por José de Alencar (1875)
O chão fôra tapeçado com uma grande alcatifa mourisca, na qual se viam estampadas as figuras das hurís e dos guerreiros bem-aventurados, trançando no paraíso as mais graciosas dansas orientais, ou trocando entre si ardentes carícias.
Felizmente para a tranquilidade do banquete, as estampas da tapeçaria ficavam quase de todo ocultas pela mesa e assentos; pois do contrário o capitão-mór, apercebendo-se de semelhante desvergonhamento, não o suportaria de-certo; e nós já sabemos a fôrça de pressão do seu orgulho, quando ofendido.
As damas que tinham-se recolhido ao pavilhão por convite de Fragoso, já estavam sentadas no sofá; e só esperavam para se porem à mesa, a chegada do capitão-mór e dos outros companheiros, que aproveitavam o tempo a montear as reses bravas.
A vitela que forneceu a carne para o banquete fôra lançada pelo próprio capitão-mór e sangrada pelo Daniel Ferro. O João Correia tinha feito também a sua proeza. Correndo atrás de um boiote, foi sôbre êle com tal fúria, que, focinhando o seu cavalo no chão, achou-se êle montado no novilho; êste espantado com a carga deitou a correr para o mato como um desesperado. O primeiro ramo baixo atirou ao chão com a carga.
O capitão-mór apenado-se, contou à mulher a façanha do recifense.
— Aquí está o sr. capitão João Correia, que levou as lampas a todos, D. Genoveva. Montou num boiote, e largou-se a correr para o mato com tanta fúria que furou pela terra a dentro.
— Então divertiu-se muito? perguntou D. Genoveva ao capitão para arredar a lembrança do seu revés.
— A vaquejada é um belo passatempo, sem dúvida; mas eu prefiro a caça a tiro.
— Então já não é vaquejada; é matança como usam os que precisam da carne para comer, disse o Daniel Ferro.
Pagens do reino, vestidos de garridas librés à moda do tempo, com longas casacas de abas largas, calções e meias brancas, vieram apresentar às damas e convidados ricas bacias de prata dourada, para lavarem as mãos, entornando água de jarros do mesmo lavor e metal.
Ao ombro esquerdo traziam êles alvas toalhas do mais fino esguião lavradas de labirinto com guarnições de renda, trabalhos êstes em que as filhas do Aracatí já primavam naquele tempo, e que lhes valeu a reputação das mais mimosas rendeiras de todo o norte.
Depois que o capitão-mór e sua família enxugaram as mãos, o Marcos Fragoso fazendo as honras do banquete com a apurada cortesia, conduziu à mesa seus convidados colocando-os nos lugares a cada um destinados conforme o grau de cerimônia e importância.
Ao capitão-mór coube a cabeceira; as damas com o capelão ocuparam um lado; e o outro lado ficou para Ourém, Daniel Ferro, João Correia e o Agrela; Marcos Fragoso sentou-se no tôpo.
Eram mais de oito horas. Para a época e o lugar tardara o almôço; mas fôra preciso dar tempo à montearia, mais agradável com a fresca da manhã. Além de que os tarros de leite fresco, mugido do peito das vacas alí mesmo no pasto, haviam confortado os estômagos. Todavia o apetite foi o que se devia esperar depois de três horas de equitação e dos exercícios ativíssimos da vaquejada.
O sol já estava alto; mas seus fogos eram moderados pela aragem fagueira que durante os meses do inverno reina no sertão.
Aquela festa cortesã, arreada com todos os primores do luxo, tinha alí no seio do deserto um encanto especial e novo que perderia, se, em vez da floresta, a cingissem as paredes do mais suntuoso palácio. As telas de veludo e sêda, desfraldadas por entre o verde estôfo da folhagem; a competência do cristal, do ouro e da prata com as flores e os frutos dos mais finos matizes e de mil formas caprichosas; a antítese da arte no seu esplendor com a natureza em sua virgindade primitiva: era de enlevar.
O banquete foi demorado. A princípio correu quase silencioso; os caçadores tratavam de aplacar os rebates do apetite, que a-pesar-do anexim, não cedia ao do pescado, na fome como na sede.
Durante essa primeira parte do almôço, alguns pagens tocavam charamelas, gaitas e outros instrumentos que formavam então as bandas de música marcial.
Mais tarde levantou-se a conversação na qual tomou parte ativa Marcos fragoso.
Não perdeu o moço capitão vez de insinuar a D. Flor alusões e finezas encobertas que todos entendiam, menos a donzela, cuja índole não se prestava a tais ambiguidades, e o capitão-mór, para o qual a mitologia em que os namorados de então se forneciam de galanteios, era um latim rebarbativo.
Já estava a terminar o almôço, quando Arnaldo que tornava da corrida, ouviu de longe os brindes que se trocavam entre os convidados. Aproximou-se cautelosamente por dentro do mato. O seu nobre semblante, que tinha habitualmente a expressão viva e atenta, que é própria do sertanejo, nesse momento apresentava uma alerta ainda mais pronta e vigilante.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.