Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Ângelo não se enganara. Em poucos minutos, chegaram ao boqueirão. Na largura de uma braça, a cerca estava de fato aberta; mas a vara inferior, na altura dos joelhos de um homem, mostrava-se ainda suspensa pelos cipós que a traziam presa às estacas. Ângelo, apoiando-se sobre a vara, atravessou da outra banda, e daí ofereceu a mão à Maurícia para a ajudar a transpor a cerca. Mal tinha ela posto o pé na travessa, quando deu um grito, que não parecia arrancado somente pelo susto, mas também pelo terror; e, em vez de passar para o outro lado, recuou amedrontada e meteu-se por trás do tronco de um cajueiro próximo, como quem queria ocultar-se.

Ângelo, assustado, acudiu logo:

— Meu Deus? Que é que tem, D. Maurícia?

Esta respondeu, como quem cobrava os espíritos que um momento a tinham desamparado:

— Desculpe-me, Sr. Dr. Ângelo, Não tenho nada, não foi nada.

— Mas por que deu este grito?

Ângelo já estava ao pé de Maurícia, e ambos quase ocultos pela folhagem do cajueiro.

— Eu poderia dizer-lhe que tinha sentido uma cobra passar por cima dos meus pés, e tudo estaria explicado; mas não seria esta a verdade.

— Diga então o que foi.

Ângelo estava profundamente impressionado. Tinha ainda na sua a mão de Maurícia, e lhe sentia o frio e o tremor, conseqüências da violenta impressão.

— Estou deveras assustada, Sr. Dr. Ângelo. Veja como me bate o coração. Não vi uma cobra, vi um demônio.

Assim falando, ela levou a mão do bacharel ao seu peito e a apertou contra ele. Ângelo, através da onda de cambraia e rendas, sentiu as pulsações violentas desse coração que ele desejara pulasse, não de susto, mas de amor por ele.

— Mas o que foi que lhe ocasionou tamanho susto?

— Quando o senhor me estendia a mão para me ajudar a sair, não sentiu passar pela estrada um homem?

— Sim, sim; ele ainda ali vai.

— Nunca em vi em homem algum tamanha semelhança com meu marido.

— Com seu marido! exclamou o bacharel sentindo fel nos lábios. Meu Deus!

Tal não diga, por quem é. Seria a maior das desgraças.

— Para mim não há dúvida que seria isso o maior dos infortúnios.

— E para mim também - acrescentou o bacharel; por que... Oh, eu não devia dizê-lo, mas não está em mim prender no coração, como se prende uma cobra dentro de um frasco, o sentimento que a senhora veio despertar nesta morada de solidão e trevas.

— Saiamos já, Sr. Dr. Ângelo, disse Maurícia, como quem não tinha ouvido aquela perigosa revelação. E voltemos antes para casa; já não quero ir com as meninas da capela.

Do lado de fora, a estrada estava deserta como dentro do sítio.

— Havia de ser ilusão sua, minha senhora, disse Ângelo, oferecendo o braço a Maurícia. O homem que passou parece-me ser um que mora aqui adiante.

— Talvez; mas, então, é a cópia fiel do Bezerra. Depois de três anos de liberdade e tranqüilidade, ser-me-ia por extremo penoso pensar, ainda que fosse por um momento, em voltar à antiga vida de humilhação e martírio, porque eu detesto esse homem, que não era para mim, que foi meu algoz por uma dúzia de anos, que hoje só me merece compaixão ou esquecimento. Como não há quem nos ouça, quero contar-lhe um episódio de minha escravidão conjugal; por ele, poderá o senhor ajuizar do baixo drama em que a mim me coube o papel de vítima, e a ele o de tirano sanguinário. Depois de proibir que eu conversasse em francês com as minhas amigas, impôs-me que não tocasse mais piano. Perguntei-lhe o porque; respondeu-me que ouvira na tarde anterior, por ocasião de eu estar tocando umas melodias de Schubert, um vizinho dizer que eu não devia ter casado com ele. Sabedora do quanto Bezerra era capaz, fechei imediatamente o meu piano, que assim tomava parte no meu infortúnio e martírio.

— Vejo que o seu sofrimento foi na verdade original.

— Oh! o senhor que tem espírito elevado, e no coração dotes surpreendentes, não imagina até onde pode descer um homem de curto entendimento, sem educação, sem alma. Ouça. Não podendo resignar-me inteiramente à privação daquelas vozes sublimes que eram o meu único conforto, que desde criança não se separavam de mim, que era as irmãs da minha voz, espiei qualquer momento em que o meu tirano se dirigisse

a algum arrabalde, deixando-me livre algumas horas. Esse momento ofereceu-se uma tarde em que Bezerra teve que entender-se com certo sujeito sobre negócios que lhes eram comuns. Logo que o vi montar a cavalo, corri como louca ao meu piano. Havia quase três meses que estava muda como túmulo aquela arca dos meus particulares afetos. Sobre as teclas caíram e correram meus dedos desvairados e febricitantes. O prazer que senti, ouvindo os primeiros acordes, desceu tão intensamente ao fundo do meu sistema nervoso que de meus olhos saltaram lágrimas, como contas de cristal, sobre a face de marfim insensível e fria, mas amiga. Irresistivelmente, a voz saiu-me da garganta, com a ternura apaixonada que nesse momento me transbordava do coração, ninho de sentimentos muito diferentes dos de Bezerra. Nunca a musa da harmonia, ao que me parece, havia socorrido tanto o meu canto com a sua paixão.

— Muito bem - disse Ângelo comovido.

— De repente, uma voz ressoou no âmbito da sala: “—Bravo! Bravo!” - dizia a voz.

— Era a de seu marido?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...56789...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →