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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Um matuto passando por ali, de jornada para Tejucupapo, ficou encantado pela amenidade e beleza da situação. Do cajueiro para dentro estendia-se larga planície coberta de arvores meãs, sombrias e graciosas. Em arvores semelhantes há algum tanto das donzelas faceiras e namoradas com que se arreiam os salões e que são as graças mimosas do lar. Era o intermédio entre a espessura úmida e medonha, e a campina nua, fresca, monótona, que se seguia á planície adornada com a vegetação moderada e pitoresca. Emgim era, em escala ascendente, a transição natural para a mata virgem.

Na volta entendeu-se o matuto (que não era outro senão Francisco) com o senhor do engenho Bujari a quem as terras pertenciam, e que consentiu em que ele levantasse casa de morada e abrisse roçado.

Francisco cortou madeiras, aparelhou-as e arrumou a casa ao pé do cajueiro. Havia barro perto. As palmeiras mais formosas daquela zona estavam agitando suas longas folhas verde-negras na espessura vizinha. Enfim, em menos de uma semana, aqueles que, de passagem para o Recife, tinham visto a casa apenas envarada ou encaibrada, vinham encontra-la agora fechada e coberta; e os que, tendo passado por ali antes destes últimos, voltavam ao mesmo tempo que eles da capital, ficavam admirados e satisfeitos de verem uma habitação nova e risonha, onde quinze dias atrás tinham deixado a solidão e o mato fechado.

Esta novidade era obra das mãos abençoadas de Francisco, homem de trabalho e paciência.

Forte de constituição física; ajudado, senão animado, pela energia de seu espirito; afeito desde os mais verdes anos a ganhar pela força de vontade, que era o seu primeiro dote natural, a vida honesta, os dias suados mas tranqüilos, as noites sem remorso, o sono solto e largo, estava o matuto habilitado a levar efeito prodígios semelhantes, e outros ainda maiores e mais admiráveis.

Francisco era semi-branco, corpulento, espadaúdo e de boa estatura. Tinha no semblante a expressão da virilidade e da resignação do que luta quase incessantemente com a pobreza, e a vence a pouco, por ventura mais forte, mas nunca invencível.

Os matutos podem dividir-se em diferentes espécies, mas as mais comuns são as dos lavradores e almocreves. Os primeiros são os que dispõem de alguns meios, a saber, escravos, cavalos, terras, os quais sem darem para ter um engenho ou, ao menos, para move-lo, por se sós habilitam o que os possuem, a cultivar a cana nas terras do engenho alheio, posto que sujeito a dividir com o respectivo proprietário o açúcar apurado em cada safra. Os últimos são os que se alugam com sua pessoa e seu cavalo para a condução de cargas, por ajustado frete. Os lavradores são matutos limpos, que entram muitas vezes nos negócios íntimos do grande proprietário, merecem a estima deles, a pesam com seu conselho na decisão dos interesses comuns. Aos almocreves já não sucede o mesmo. Paga-lhes o senhor de engenho o salário, e eles retiram-se a seus casebres onde vão comer, com a mulher e com a ninhada de filhos que ordinariamente contam, o escasso pão que lhes deram o cavalo magro e o trabalho puxado e cansado.

E pois o cavalo é, para assim escrevermos, a primeira riqueza do almocreve, visto que por ele é que vem a sua sustentação e a de sua família; ter um cavalo é a primeira aspiração do pobre no mato. O almocreve não vota mais afeto á sua mulher do que a seu animal. Por ele dá muitas vezes a vida. Para o reaver, se lho furtam, vai ao fim do mundo e mata o ladrão.

Quando o almocreve, firmando-se pelos dois primeiros dedos do pé, sempre descalço, sobre a raiz da curva da perna do seu cavalo, ganha de um pulo a cangalha, se ele está descarregado, ou a anca se o animal tem carga, considerase mais feliz e garboso do que um general de mil batalhas. A seus olhos aquela altura que o homem de pé atinge com a mão, lhe parece superior a todo poder humano. Dai não teme o agente da autoridade publica, nem o golpe ou o tiro mortal que lhe desfechem. Reputa-se inacessível a todos os males da terra. Entre suas pernas, querendo-o ele, o cavalo é uma locomotiva que se perde na imensidade dos caminhos ou dos descampados; é a faisca elétrica que corre terra a terra e desaparece, rompendo fechados e abatendo folhagens, na massa densa e sombria das selvas. O touro afasta-se, a onça recua, para o deixar passar livremente na vertiginosa carreira.

De ordinário, porém, a marcha do animal do almocreve não sai do rojão de todo dia. Tendo sempre presente na lembrança o muito que lhe custou ganhar o seu precioso bem, poupa-lhe as forças quanto pôde, e só em caso extraordinário exige dele a corrida afanosa, os saltos súbitos, o galope, o cansativo esquipar.

Do numero dos almocreves saem os cantadores e os repentistas, que, não obstante as privações ordinárias de sua vida quase errante, têm dias de consolação e regozijo.

Pelas festas do ano ajuntam-se na casa dos camaradas para cantar, dançar e beber.

(continua...)

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