Por Bernardo Guimarães (1869)
Reinaldo, que todo se embebia na contemplação dos encantos da Maroca, e que a rodeava de seus ardentes olhares, como um jacaré vigiando o ninho, não era dos mais alegres da festa.
Todavia o batuque continua, o frenesi recresce, as palmas fervem, e as umbigadas estouram cada vez com mais furor. Um cavaleiro apeia-se à porta da sala e bate.
Sem tomar a precaução de perguntar quem é, mestre Mateus vai imediatamente abri-la. Um belo rapagão de botas com grandes esporas de prata, chapéu à banda, chicote na mão e cigarro na boca se apresenta no limiar da porta.
— Oh! viva! bradou mestre Mateus; seja muito bem-vindo, compadre Gonçalino; já me tardava; por onde andou até agora? já não gosta da casa deste seu velho compadre?
— Entra, Gonçalo; ainda vieste a tempo; já estavas nos fazendo falta.
— O Sr. Gonçalo anda-se vendendo muito caro; já não há quem o veja; alguém o ofendeu nesta casa?
— Gonçalo, deixa de ouvir secas e cumprimentos; anda para cá; vamos a beber, folgar e dançar.
Todos estes cumprimentos e outros ainda eram dirigidos quase a um tempo a Gonçalo, que não podendo responder a todos assentou de si para si que era mais cômodo não responder a nenhum. Mestre Mateus chegou-se para Gonçalo.
— Estás hoje de má cara, meu compadre! o que te aconteceu?... Não queres tomar alguma coisa? da lisa ou da assada?... heim?
— Venha seja o que for, e deixem-me que estou cansado.
Dizendo estas palavras, o moço atira-se atabalhoadamente no primeiro assento que encontra fazendo um barulho dos diabos com as esporas, faca, garruchas, e todo o trem bélico que trazia em si, joga o chapéu para um canto, encosta-se à parede, estende as pernas para o meio da sala com toda semcerimônia, boceja e fecha os olhos como quem quer dormir. Mestre Mateus volta daí a um instante com um copo na mão.
— Toma lá da queimada, compadre. Oh! com os diabos!... queres dormir, homem?
— Ora vai-te com os diabos, compadre, que me não deixas descansar. O que me queres?
— É da queimada; não tomas? e então fica-se aqui a dormir ou vai-se dançar?
Gonçalo sacudiu os ombros, e não respondeu, tomou alguns goles da assada, passeou um olhar indiferente pela sala, e de novo inteirou-se em seu assento a todo o comprimento do corpo com ares de quem estava soberanamente aborrecido. E de feito desde manhã até aquela hora tinha ele rondado a vila inteira, tinha penetrado em todos os recantos, botequins e casas de jogo, tomado parte em todos os ajuntamentos onde houvesse algazarra e bebedeira, dito graças pesadas a mais de uma moça bonita mesmo às barbas de seus amantes, e nem assim tinha achado ensejo nem sequer de apalpar o cabo de sua faca, e isto em pleno domingo, em uma vila de tanto povo, que se tem por valente e pouco sofredor! Daquele dia em diante Goiás não era a seus olhos mais do que um covil de aduladores, cobardes e poltrões, um curral de carneiros indigno de ser pisado pelos pés de um homem de brio. Decididamente não podia demorar-se por mais tempo em tão miserável país, e estava disposto a abandoná-lo para sempre.
O compadre Mateus veio arrancá-lo a essas reflexões.
— Que diabo tens tu hoje, compadre?... dança-se, ou não dança-se?... As moças estão ardendo por te verem na roda. Olha a Calu como está te chamando com aquele olhar derretido!... A Zezinha diz que não dança mais e vai-se embora, se continuares dessa maneira; a Maroca por te ver assim embezerrado está com medo que queiras fazer algumas das tuas, e já foi ver o capote para escapulir-se. Ah! compadre, isto não está bem; você, que é sempre o melhor companheiro de folgança, há de ser hoje o nosso desmancha-prazeres! Oh! bravo!... é a Maroca que sai a campo! é a rainha da festa. Olha, compadre, como está linda aquela feiticeirinha! Bravo disso! bravo, Maroca!
E a Maroca, depois de ter feito os mais galantes e graciosos requebros sapateando pela sala, girou como um corrupio sobre os talões, abaixou-se rapidamente rente ao chão, deixando ver somente entre os tufos de suas alvas saias enfunadas os braços e o rostinho cor de jambo, como uma rolinha deitada em ninho de algodão batido.
— Bravo! bravíssimo! bradou Gonçalo levantando-se de um salto, que retiniu com estrondo por toda a sala.
Depois continuou baixo voltando-se para mestre Mateus:
— Agora sim, compadre, sou da festa; a Maroca está aí, vai tudo bem. E o Reinaldo, onde está ele? não veio?...
— Não enxergas!... Olha, lá está ele naquele canto, e por sinal que está hoje triste e de viseira fechada, não sei por quê.
— Bem! lá o vejo, disse Gonçalo, em cujos olhos reluzia um prazer satânico, e continuou resmungando entre si: — Bem! muito bem! aqui sim! tenho uma linda menina a quem posso fazer a corte, e ao lado dela um valentão de primeira ordem a quem farei abaixar o topete. Ah! Reinaldinho, meu amigo, eis aqui uma bela ocasião de mostrar, sem ser por brincadeira, qual dos dois é mais valente, o tigre ou a onça, e isto sem quebra de nossa amizade; para teu ensino quebrar-te-ei bem as costelas diante de toda esta gente, e nem por isso deixaremos de continuar a ser bons amigos como dantes. Não serás o primeiro amigo a quem dou uma destas proveitosas lições.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.