Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Formosas e risonhas são as campinas no município da Uberaba, profundas e gigantescas as florestas, e os horizontes sempre afogueados pelos raios de um sol abrasador são esplêndidos e deslumbrantes. Vastíssimas colinas se estendem com suaves ondulações por distâncias sem-fim, orladas de verde-negros capões, que ensombram o leito de caudais e límpidos ribeirões. Extensas linhas de buritis se enfileiram pela macega ao longo dos brejais até se perderem nas profundidades do horizonte. Lisos e viçosos vargedos vão terminar ao pé de um cordão de boleados outeiros de pouca elevação, que se desenham fumacentos no fundo do painel à semelhança de uma nuvem cinzenta fixa na orla extrema do céu.

Nem são essas campinas como as desabridas e monótonas pampas das regiões do sul, onde a vista em vão se cansa procurando em derredor um ponto, em que repouse, um pequeno cômoro sequer e que interrompa a insípida uniformidade dos horizontes; nem como essas savanas e chapadões intermináveis, como os há nas províncias do norte e do centro, que o viajante palmilha de sol a sol sem que jamais lhe afaguem os ouvidos o ramalhar da folhagem, nem o consolador murmúrio das torrentes, sem ver mais que campo e céu, e ouvindo apenas o zunido dos ventos, e o enfadonho zumbido das cigarras. De espigão em espigão varia a perspectiva, e apresenta novos e sempre risonhos panoramas.

No meio desses plainos por entre as manadas de gado sem conto vagueiam os veados, e as emas passeiam em bandos erguendo o esbelto e altaneiro colo até a altura de um cavaleiro. O canto do campeiro, que anda pelos rincões arrebanhando o gado, os trinos agudos da siriema, o pio melancólico da perdiz, e o monótono chiar do carro de bois, que atravessa os chapadões carregado dos produtos de pingues colheitas, eis os únicos sons, que de ordinário quebram o silêncio daquelas afortunadas e risonhas solidões.

As vivendas dos fazendeiros são comumente construções toscas e singelas, ainda que cômodas e vastas. Mas em compensação a situação delas é quase sempre aprazível e pitoresca, ao pé de algum suave lançante, ouvindo o marulho da torrente, que corre à sombra dos buritizais, e olhando ao longe pelos descampados espigões.

Em frente à casa há sempre um vasto curral ou terreiro, em torno do qual estão o engenho, o moinho, o paiol e mais outros acessórios da fazenda. Por detrás se estende um vasto pomar, um verdadeiro bosque sombrio e perfumoso, onde a laranjeira, o limoeiro, a jabuticabeira, o jambeiro, o genipapeiro, o mamoeiro, o jaracatiá, as bananeiras e coqueiros de diversas espécies crescem promiscuamente e cruzam suas ramagens em uma espessa abóbada cheia de fresquidão, de murmúrios e perfumes. Os cercados são latados de maracujá com seus doces e aromáticos frutos, ou renques de piteiras, eriçando em torno as longas e agudas hastes como uma floresta de baionetas, do meio das quais se ergue como um estandarte o comprido pendão coroado de brancas flores, O jasmineiro, a cocleária, o bogari, a esponjeira também crescem em torno da casa, pelos cercados, junto às fontes, saturando o ambiente de suavíssimos aromas.

Aqueles céus sempre azuis e límpidos desconhecem os nevoeiros, os invernos, e essas brumas carregadas e úmidas, que costumam embuçar céu e terra em nossas montuosas e tristonhas regiões. Quando é chegada a estação das chuvas, as águas se precipitam do céu em violentas borrascas entre o estampido de horrorosas trovoadas; ao estouro de mil raios parece que a esfera abraseada rompe-se em estilhaços, e se despenha sobre a terra. A copiosa e grossa chuva em pouco tempo rega e lava os espigões, alaga as várzeas, e converte os menores ribeiros em torrentes caudalosas. Mas dura pouco aquela convulsão dos elementos; o mesmo tufão que trouxe a tempestade a varre em breve do firmamento, e o sol torna a dominar em toda a amplidão da esfera azul e resplendente.

Debaixo daqueles céus ardentes, em meio daqueles plainos infindos tão cheios de encantadoras perspectivas, cobertos de tão opulenta vegetação e banhados de tanta luz, parece que a imaginação se inflama ao reflexo daqueles horizontes de fogo, e o coração nutre-se de uma seiva de amor e voluptuosidade, que o faz pulsar com mais força, sentir com mais energia. A índole do homem ali é plácida e calma na aparência como o céu, que o cobre, mas no fundo é ardente de sentimento e de paixão. O sopro das paixões lhe ruge n’alma violento e tormentoso como os pavorosos temporais que atroam aquelas solidões.

Assim, se tomardes um lugar em roda do fogo, que aquece no rancho o caldeirão do tropeiro, ou vos sentardes na varanda do fazendeiro em horas de serão a conversar com o sertanejo, ouvireis sinistras lendas, horríveis histórias de sangue e vingança, e interessantes e românticos episódios de amor, acontecidos naquelas paragens, como este cuja história vos estou contando.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...56789...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →