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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

— Bom dia, senhores preguiçosos! — disse ela com voz argentina e festiva como o trino da andorinha. — Até que enfim sempre se levantaram!

— Estás hoje muito alegre, minha querida, — retorquiu-lhe sorrindo o marido; — viste algum passarinho verde de bico dourado?...

— Não vi, mas hei de ver; estou alegre mesmo, e quero que hoje aqui em casa seja um dia de festa para todos. Isto depende de ti, Leôncio, e estava aflita por te ver de pé; quero dizer-te uma coisa; já devia tê-la dito ontem, mas o prazer de ver este ingrato de irmão, que há tanto tempo não vejo, me fez esquecer...

— Mas o que é?... fala, Malvina.

— Não te lembras de uma promessa, que sempre me fazes, promessa sagrada, que há muito tempo devia ter sido cumprida?... hoje quero absolutamente, exijo, o seu cumprimento.

— Deveras?... mas que promessa?... não me lembro.

— Ah! como te fazes de esquecido!... não te lembras, que me prometeste dar liberdade a...

— Ah! já sei, já sei; — atalhou Leôncio com impaciência. – Mas tratar disso aqui agora? em presença dela?... que necessidade há de que nos ouça?

— E que mal faz isso? mas seja como quiseres, — replicou a moça tomando a mão de Leôncio e levando-o para o interior da casa; — vamos cá para dentro. Henrique, espera aí um momento, enquanto eu vou mandar preparar-nos o café.

Só depois da chegada de Malvina, Isaura deu pela presença dos dois mancebos, que a certa distância a contemplavam cochichando a respeito dela. Também pouco ouviu ela e nada compreendeu do rápido diálogo que tivera lugar entre Malvina e seu marido. Apenas estes se retiraram ela também se levantou e ia sair, mas Henrique, que ficara só, a deteve com um gesto.

— Que me quer, senhor? — disse ela baixando os olhos com humildade.

— Espera ai, menina; tenho alguma coisa a dizer-te, — replicou o moço, e sem dizer mais nada colocou-se diante dela devorando-a com os olhos, e como extático contemplando-lhe a maravilhosa beleza.

Henrique sentia-se acanhado diante daquela nobre figura radiante de beleza, e de angélica serenidade. Por seu lado Isaura também olhava para o moço, atônita e tolhida, esperando em vão que lhe dissesse o que queria. Por fim Henrique, afoito, e estouvado como era, lembrando-se que Isaura, a despeito de toda a sua formosura, não passava de uma escrava, entendeu que fazia um ridículo papel, deixando-se ali ficar diante dela em muda e extática contemplação, e chegando-se a ela com todo o desembaraço e petulância travou-lhe da mão, e...

— Mulatinha, disse, — tu não fazes idéia de quanto és feiticeira.

— Minha irmã tem razão; é pena que uma menina assim tão linda não seja mais que uma escrava. Se tivesses nascido livre, serias incontestavelmente a rainha dos salões.

— Está bem, senhor, está bem! replicou Isaura soltando-se da mão de Henrique; se é só isso o que tinha a dizer-me, deixe-me ir embora.

— Espera ainda um pouco; não sejas assim má; eu não te quero fazer mal algum. Oh! quanto eu daria para obter a tua liberdade, se com ela pudesse obter também o teu amor!... És muito mimosa e muito linda para ficares por muito tempo no cativeiro; alguém impreterivelmente virá arrancar-te dele, e se hás de cair nas mãos de algum desconhecido, que não saberá dar-te o devido apreço, seja eu, minha Isaura, seja o irmão de tua senhora, que de escrava te haja de fazer uma princesa...

—Ah! senhor Henrique! retorquiu a menina com enfado; — o senhor não se peja de dirigir esses galanteios a uma escrava de sua irmã? isso não lhe fica bem; há por aí tanta moça bonita, a quem o senhor pode fazer a corte...

— Não; ainda não vi nenhuma que te iguale, Isaura, eu te juro.

— Olha, Isaura; ninguém mais do que eu está nas circunstâncias de conseguir a tua liberdade; sou capaz de obrigar Leôncio a te libertar, porque, se me não engano, já lhe adivinhei os planos e as intenções, e protesto-te que hei de burlálos todos; é uma infâmia em que não posso consentir. Além da liberdade terás tudo o que desejares, sedas, jóias, carros, escravos para te servirem, e acharás em mim um amante extremoso, que sempre te há de querer, e nunca te trocará por quanta moça há por esse mundo, por bonita e rica que seja, porque tu só vales mais que todas elas juntas.

— Meu Deus! — exclamou Isaura com um ligeiro tom de mofa; — tanta grandeza me aterra; isso faria virar-me o juízo. Nada, meu senhor; guarde suas grandezas para quem melhor as merecer; eu por ora estou contente com a minha sorte.

— Isaura!... para que tanta crueldade!... escuta, — disse o moço lançando o braço ao pescoço de Isaura.

— Senhor Henrique! - gritou ela esquivando-se ao abraço, — por quem é, deixe-me em paz!

— Por piedade, Isaura! - insistiu o rapaz continuando a querer abraçá-la; — oh!... não fales tão alto!... um beijo... um beijo só, e já te deixo...

— Se o senhor continua, eu grito mais alto. Não posso aqui trabalhar um momento, que não me venham perturbar com declarações que não devo escutar...

(continua...)

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