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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Decida o público, que é o meu juiz, e qualquer que seja a sua decisão quer me absolva, quer me condene,

..........Fico contente,

Que a minha pátria amei, e a minha gente.

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Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

INTRODUÇÃO

CREIO que não digo uma grande novidade, asseverando que nós os brasileiros conhecemos muito pouco a nossa terra, e que não nos esforçamos bastante por conhecê-la, como aliás é preciso.

Não pensem que me refiro a essas vastas províncias centrais, e ainda mesmo a algumas das que são banhadas pelo Atlântico, e que estão apenas um pouco menos conhecidas do que o Celeste Império.

Deus me livre de lamentar a falta em que nos achamos a respeito delas. Deus me livre!

Tenho bem de memória que em 1859, quando pela primeira vez apareceu a idéia de se mandar uma comissão científica brasileira explorar essas províncias do Império, fez-se disso objeto de escárnio e de sarcasmo, e a pobre comissão, que partiu no ano seguinte da nossa capital, levando consigo quantas pragas e maus agouros puderam lançar sobre ela os homens práticos e sabichões do Estado e do próprio governo, que já não pouco havia despendido para fazê-la encetar os seus trabalhos, ficou em breve tão desestimada que até às vezes achou-se sem recursos para prosseguir nas explorações; e por fim de contas, foi obrigada a parar em meio da obra, porque era inevitável que se apagasse a lâmpada, quando não lhe puseram mais azeite.

Dizem, e eu creio, que a nossa comissão científica, ao tempo em que suspenderam a subvenção, já se achava quase a ponto de desorganizar-se por si mesma, e sustentam que os seus trabalhos não corresponderam às despesas feitas; parece-me, porém, que em tal caso o mais acertado seria procurar remover os embaraços que a amesquinhavam, dar-lhe mais seguras condições de harmonia e de vigor, e fazê-la continuar em zeloso labor, mesmo porque as mais avultadas despesas estavam feitas, e a verdadeira economia aconselhava aproveitar o dinheiro empregado e a experiência do noviciado dos exploradores.

Mas entendeu-se que isso de comissão científica era peta, e acabou-se a história.

Devemos contentar-nos com as comissões dessa natureza que têm sido e hão de ser mandadas ao Brasil por nações estrangeiras; nós não temos a menor necessidade de conhecer a nossa própria casa: basta que os estranhos nos ensinem o que ela é e o que temos dentro dela.

Afirmam que a tal comissão importou e devia importar um enorme desperdício dos dinheiros públicos; porque o único resultado que prometia era alguma coleção de bichinhos para o museu nacional, que provavelmente também se entende que nos faz carregar com uma despesa de luxo. Vê-se daí que os nossos homens práticos aborrecem a história natural, que é, segundo eles, um gênero especial de poesia. Mas a comissão científica tinha ainda a incumbência de muitos outros e importantíssimos trabalhos, e, portanto, não procedia àquela observação, que, aliás, eu consideraria muito justa; porquanto, era puerilidade indesculpável tomar-se tanto incômodo para se arranjar lá por aqueles desertos uma coleção de bichinhos, quando aqui mesmo da capital do império se poderiam organizar, até entre os próprios homens práticos e os nossos grandes políticos, umas poucas de coleções de bichos de proporções colossais que ainda não foram classificados pelos naturalistas.

Mas, repito, não é das províncias centrais e longínquas que pretendo falar. Dessas temos notícia de que fosforizam as suas eleições periodicamente, e é o que basta. Quanto ao mais, representam um mundo que ainda está à espera do seu Colombo; e não admira que assim exista ignorado, quanto é certo que nem conhecemos bem a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro.

Note-se que esta incúria seria escusável ao montanhês de Minas, ao guasca do Sul, ao caipira do Paraná; o que, porém, muito mais surpreende é que os próprios cariocas não estejam ao fato da história e das crônicas da capital, de que tanto se ufanam.

Disse um escritor francês, cujo nome agora me não lembro, que entre os franceses são os parisienses os que conhecem menos Paris. No Brasil não se pode dizer coisa semelhante, porque os provincianos, como os cariocas, desconhecem do mesmo modo a nossa boa Sebastianópolis.

Se no outro tempo era grande essa antipatriótica falta de curiosidade, agora é muito pior: os paquetes a vapor e a facilidade das viagens ao velho mundo tiram-nos à vontade de passear os nossos, e é mais comum encontrar um fluminense que nos descreva as montanhas da Suíça e os jardins e palácios de Paris e Londres do que um outro que tenha perfeito conhecimento da história de algum dos nossos pobres edifícios, da crônica dos nossos conventos e de algumas das nossas romanescas igrejas solitárias, e até mesmo que nos fale com verdadeiro interesse dos sítios encantadores e das eminências majestosas que enchem de sublime poesia a capital do Brasil.

(continua...)

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