Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Entrei por nossa casa enthusiasmado e delirante, bradando : « eil-a aqui! eil-a aqui!... » minha mãe e minha irmã acudírão aos meus gritos ; mostrei-lhes a minha suspirada bolsa ; era de seda verde (tinha a côr da esperança e primorosamente trabalhada. Minha mãe achou-a perfeita , e minha irmã, depois de examinal-a cuidadosamente, depois de vi-ral-a e reviral-a umas poucas de vezes de dentro para fora e de fora para dentro, tornou-me a entregar a minha encantada bolsa de seda, contentando-se com fazer um bico).
— Um bico !...
— Sim, um momo : as moças quando, depois de examinarem uma obra, um trabalho devido á habilidade e delicadeza de outra moça, não lhe põem defeitos, e acabão fazendo simplesmente um bico, é porque não tem nada, nada absolutamente que dizer.
— Bravo ! és um novo La Bruyère.
— Eu tinha jurado não me separar mais nunca da bolsa de seda ; guardei-a pois junto do coração no bolso do peito da casaca.
— E foi muito justo que guardasses uma bolsa por cima do coração; porque o coração dos homens bate de ordinário por baixo da algibeira, e a algibeira não é cousa melhor do que uma bolsa.
— Estava emfim senhor da bolsa de seda faltava-me porém ainda saber quem era a bella mysteriosa: na exposição eu havia perguntado debalde e em vão procurado descobrir qual a senhora que tinha offerecido a bolsa de seda verde: perdi o meu tempo: ninguém sabia, ou ninguém me quiz responder. Não desanimei; no meu galope para casa delineei um plano admirável, que me devia fazer penetrar o segredo que me roubava e escondia o nome de minha apaixonada ; jurei a mim mesmo que antes da noite saberia o nome da bella mysteriosa, e decifraria a difficil charada ; mas de que se havião de lembrar minha mãe e minha irmã ! determinarão ir ver o balão aerostatico, e apezar de tudo quanto disse e das observações que fiz, teimarão e declarárão-me em estado de sitio por todo o resto do dia.
— Sim ; mas...
— Fomos ver o tal balão : ás 3 horas achavamo-nos installados nos nossos logares da primeira ordem e o demoninho de minha irmã, que encontrou logo quatro ou cinco camaradas tão demoninhos como ella, ajuntou-se com ao amigas e, fallando todas a um tempo, disserãs cobras e lagartos contra a minha bella
mysteriosa; mas eis que de repente cáe a estaca que suspendia o balão, fura-se este o povo grita e se amotinae...
— E ficas tu em disponibilidade e aproveitas a tarde.
— Qual! espera : no fervor d'aquella desordem, as moças assustão-se, e minha irmã com as suas amigas, tremendo e gritando, abração-se comigo.
— Feliz Constancio !
— Minha mãe ralha, e eu procuro socegal-as .... mas ellas não me deixão senão quando o ruido serena e o povo se resolve a retirar-se : emfin dou parabéns á minha fortuna ao verme de novo em casa; despeço-me de minha mãe, e vou sahir; lembro-me porém de minha bolsa de seda, e dáme vontade de beijal-a ainda uma vez : metto a
mão no bolso, e...
— E o que?...
— Oh ! tinhão-me furtado a bolsa de seda ...
— Deveras ?...
— É como te digo : aproveitando a desordem que succedeu á catastrophe do balão, uma mão subtil furtou-me a bolsa de seda.! não sei como não morri de desespero !
— E com razão.
— E queres saber quem foi que furtou a bolsa?...
— Quem ?...
— Foi ella.
— Ella?
— Sim, a bella mysteriosa, ella mesma.
— Estás sonhando, Constando.
— Ora! ... deixou-me uma prova d'isso.
— Como ?
— Furtando-me a minha querida bolsa, deixou em logar d'ella um bilhete escripto com uma lettra tão habilmente descaracterisada que nem o diabo seria capaz de adivinhar a mãosinha que o escreveu.
— E esse bilhete?...
— Continha estas breves palavras ; « Furto-te a bolsa de seda, que recorda as nossas loucuras, Uma barreira indestructivel nos separa. Adeus para sempre. D'oravante não serei mais a tua bellamysteriosa. »
— E acabou-se a historia.
— Oh ! antes acabasse ahi ! ficaria ao menos sendo um bello sonho da minha vida.
— Pois continua ainda ?...
— Sim ; depois de reflectir um pouco, entendi que o bilhete era um novo logro que me estava preparado, e que a bella mysteriosa pretendia somente, tirando-rae a esperança de tornar a encontral-a, afastar-me da casa da familia pobre para ella poder ir lá a seu gosto ; determinei, portanto continuar a fazer tudo por vêl-a e conhecel-a.
— Mas, Constancio, tu já podes desconfiar de quem ella seja : olha, provavelmente quem te furtou a bolsa foi uma das moças que se abraçarão comtigo ; o bilhete falla em barreira indestructivel, o que quer dizer que a bella mysteriosa é casada, e por consequencia...
— Tudo isso pensei eu ; e por fim de contas lembrei-me de que todas as sujeitinhas que me abraçarão, andão doudas por achar marido, o que é o mesmo que dizer que todas ellas são solteiras.
— Continua a tua historia.
« — Com a minha idéa na cabeça, logo que anoiteceu parti para a casa da familia pobre : entrei e vi a velha e seus íilhinos chorando.
« — Que novidades ha ?... perguntei : o me nino perigou?...
« — Ao contrario, senhor, respondeu-me a velha ; está quasi bom, graças aos seus dous bemfeitores.
« — E então porque chorão ?...
« — Oh! senhor! é a nossa bemfeitora, é o nosso bom anjo, que hontem á noite nos fez
as suas despedidas, e que não volta mais.
Senti andar-me a cabeça á roda : disse adeus á velha, e sahi; eu estava suffocado... precisava de ar. »
— Pobre Constancio !
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.