Por José de Alencar (1853)
Palavras não eram ditas, que a imagem abalou do seixo onde estava e foi sem tocar o chão descendo pela encosta da montanha. De bordo viram o resplendor brilhando por entre o arvoredo, até que chegado á praia deslisou rapidamente pela flôr das ondas em demanda da prôa do navio.
Eis o que ainda no seculo passado, quando se edificou a actual ermida de Nossa Senhora da Gloria, contavam os velhos devotos, coevos de Ayres de Lucena. Todavia não faltavam incredulos que mettessem ocaso á bulha.
A crêl-os, o ermitão não passava de um mateiro beato, que se aproveitára da confusão do banquete para furtar a imagem do nicho, e leval-a ao cimo do outeiro, onde não tardaria a inventar uma romagem, para especular com a devoção da Virgem.
Quanto ao resplendor era em linguagem vulgar um archote que o espertalhão levára de bordo, e que servíra a Ayres de Lucena para voltar ao navio conduzindo a imagem.
VIII
A VOLTA
Dezeseis annos tinham decorrido.
Era sobre tarde.
Grande ajuntamento havia na esplanada do largo de S. Sebastião, ao alto do Castello, para ver entrar a escuna Maria da Gloria.
Os pescadores tinham annunciado a proxima chegada do navio, que bordejava fóra da barra á espera de vento, e o povo concorria para saudar o valente corsario cujas sortidas ao mar eram sempre assignaladas por façanhas admiraveis.
Nunca elle tornava do cruzeiro sem trazer uma presa, quando não eram tres, como n'essa tarde em que estamos.
Tornara-se Ayres com a experiencia um consummado navegante, e o mais bravo e temivel capitão de mar entre quantos sulcavam os dois oceanos. Era de recursos inesgotaveis; tinha ardís para lograr o mais esperto maritimo; e com o engenho e intrepidez multiplicava as forças de seu navio a ponto de animar-se a combater naus ou fragatas, e de resistir ás esquadras de pichelingues que se juntavam para dar cabo d'elle.
Todas estas gentilezas a maruja bem como a gente do povo as lançava á conta da protecção da Virgem Santissima, acreditando que a escuna era invencivel, emquanto sua divina padroeira a não desamparasse.
Ayres tinha continuado na mesma vida dissipada, com a differença que a sua façanha da tomada da escuna lhe incutíra o gosto pelas emprezas arriscadas, que vinham assim distrahil-o da monotonia da cidade, além de lhe fornecer o ouro que lle semeava a mãos cheias por seu caminho.
Em sentindo-se aborrido dos prazeres tão gozados, ou escasseando-lhe a moeda na bolsa, fazia-se ao mar em busca dos pichelingues que já o conheciam ás leguas e fugiam d'elle como o diabo da cruz. Mas dava-lhes caça valente corsario, e perseguia-os dias sobre dias até fisgar-lhes os harpéos.
Como o povo, tambem elle acreditava que á intercessão de N. Senhora da Gloria devia a constante fortuna que uma só vez não o desajudára; e por isso tinha uma devoção fervorosa pela divina padroeira de seu navio, a quem não esquecia de encommendar-se nos transes mais arriscados.
Tornando de suas correrias marítimas, Ayres da parte que lhe ficava liquida depois de repartir a cada marujo seu quinhão, separava metade para o dote de Maria da Goria e a entregava a Duarte de Moraes.
A menina crescêra, estava moça, e a mais prendada em formosura e virtude que havia então n'este Rio de Janeiro. Queria-lhe Ayres tanto bem como á sua irmã, si a tivesse; e ella pagava com usura esse affecto d'aquelle que desde criança aprendêra a estimar conto o melhor amigo de seu pai.
O segredo do nascimento de Maria da Gloria fôra respeitado, conforme o desejo de Ayres. Além do corsario e dos dois esposos, só o gageiro Bruno, agora piloto da escuna, sabia quem realmente era a gentil menina; para ella como para os mais, seus verdadeiros pais foram Duarte de Moraes e Ursula.
Nas torres os sinos a repicarem trindades, e da escuna um batel a largar emquanto roda o cabrestante ao pezo da ancora. Vinha no batel um cavalheiro de aspecto senhoril, cujas feições
tostadas ao sol ou crestadas pela salsugem do mar respiravam a energia e a confiança. Si nos combates o nobre parecer, assombrando-se com a sanha guerreira, infundia terror no inimigo, fóra, e ainda mais n'este momento, a expansão jovial banhava-lhe o semblante de affavel sorriso.
Era Ayres de Lucena, esse cavalheiro; não mais o gentil e petulante mancebo; porém o homem tal como o tinham feito as pelejas e trabalhos do mar.
Na ponta da ribeira, que actualmente occupa o arsenal de guerra, Duarte de Moraes com os seus ancioso esperava o momento de abraçar o amigo, e seguia com a vista o batel.
De seu lado Ayres tambem já os avistára do mar, e não tirava d'elles os olhos.
Ursula estava á direita do marido, e á esquerda Maria da Gloria. Esta falava a um mancebo que tinha junto de si, e com a mão lhe apontava o batel já proximo a abicar.
Apagou-se o sorriso nos labios de Ayres, sem que elle
soubesse explicar o motivo. Sentíra um aperto no coração, que se dilatava
n'aquella abençoada hora da chegada com o prazer de volver á terra, e
sobretudo á terra da patria, que é sempre para o homem, o gremio materno.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.