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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

— Confessa, portanto, que seu amigo é como os outros; mais um exemplar desse compêndio já muito conhecido que se chama marido.

— Não, senhora, não confesso; calo-me. Não devo expor à sua zombaria a vida íntima do amigo que mais prezo.

— Esta reflexão, devia tê-la feito em princípio, doutor. Depois de haver-me aguçado a curiosidade, está na obrigação de satisfazê-la, e é o mais prudente, porque o seu silêncio compromete o seu amigo.

— Em quê?

— Dá-me o desejo de fazer acerca dele, e acerca dessa vida íntima que não pode ser profanada, as mais extravagantes suposições.

— Esta razão me decide.

— A outra devia ter a preferência, por fineza ao menos.

— Qual outra?

— A de não duvidar da minha discrição.

— Perdão; eu a ofenderia se acreditasse nela. Seria suspeitar de seus dezoito anos, e fazer brancos ou grisalhos tão belos cabelos louros.

— Entretanto há pouco pedia reserva aos meus belos cabelos louros, observou Amália com um gesto encantador.

— Sem dúvida. A reserva que eu lhe pedia era a de contar a história tão enfeitada que já não fosse a mesma referida por mim.

— Terei esse cuidado; e até me incumbo de ilustrá-la com retratos. Mas antes de tudo preciso conhecê-la.

— Então quer ouvir?

— E dispenso o prólogo.

— Voltando da Europa, há três meses, passei os primeiros dias em casa de Carlos, que me esperava e foi buscar-me a bordo. Chegamos a São Clemente pela manhã; e depois do banho clássico, nos reunimos em uma sala, que fazia parte dos aposentos da mulher e onde esta mais assistia. Notei então que ele, algumas vezes, distraidamente, voltava-se para o sofá, permanecia por momentos com os olhos fitos na almofada de veludo a que habitualmente se recostava D. Julieta.

— E suspirava naturalmente ou enxugava a furto uma lágrima silenciosa que lhe queimava a face? perguntou Amália com seriedade picante.

— Não; ao contrário, sorria-se.

— Deveras! O seu herói tem um cunho original. Estou me interessando por ele

—A sala em que nos achávamos, e a presença de Carlos, a quem revia depois de anos de ausência, remontavam o meu pensamento aos primeiros tempos de seu casamento, em que tantas vezes nos reuníamos ali em família, ele, sua mulher e eu. Parecia-me ver ainda o talhe elegante de D. Julieta, que nos escutava, atenta, enlevada na voz do marido, e dando-nos de vez em quando, com uma observação espirituosa, o tema da conversação E essa evocação entristeceu-me. Entretanto Carlos estava contente; e no seu semblante respirava a satisfação d'alma. Supus que era o prazer da minha volta; mas não podia conciliá-lo com as recordações vivas que se estavam traindo nos seus gestos.

— Essas recordações eram puramente cacoetes de viúvo.

— Vai ver. Pouco depois o Abreu chamou-nos para o almoço. Carlos tomou o seu lugar do costume; eu sentei-me defronte e notei logo que havia um talher em frente à cadeira de honra, outrora ocupada pela dona da casa. Tínhamos pois uma terceira pessoa; talvez alguma velha parenta de Carlos.

— E por que não seria alguma prima moça e bonita, que viesse tentar aquele modelo de constância? Aposto que adivinhei.

— Não adivinhamos, nem a senhora, nem eu. O Abreu serviu-nos, e eu a convite do dono da casa almocei com apetite de viajante. Uma coisa me causou reparo. Quando Carlos incumbia-se de trinchar, depois de fazer o prato para mim, fazia outro que passava ao Abreu. Este em vez de advertir o amo da sua distração colocava o prato na cabeceira, sobre o terceiro talher intacto, e o meu amigo tirava para si nova porção; depois o criado mudava todos os três talheres.

— Ah! percebo. Um eclipse matinal da estrela.

— Ao jantar reproduziram-se todas estas circunstâncias que referi. A cadeira continuou vazia, sem a menor observação do dono da casa, e o talher de estado foi ainda servido duas ou três vezes. Cresceu, porém, a minha surpresa, quando na ocasião de tomarmos café, Carlos, continuando a conversa, proferiu o nome da mulher, mas de modo que parecia indicar a sua presença.

Amália deu uma risada.

— Não é romance, então. É um conto fantástico!...

— Estou referindo fatos de vida real. A senhora lhes dará o título que for mais do seu agrado.

— Bem; vamos ao resto. Eu gosto mais deste gênero. Tem sua novidade.

— Como lhe disse, passei algum tempo na companhia de Carlos; e do que observei depois, assim como de umas revelações a custo obtidas do Abreu, compreendi o que a princípio me pareceu estranho.

— Ou por outra, compreendeu o incompreensível.

— Para aquele marido, a mulher que ele amou estremecidamente ainda habita a casa, que ela enchia de sua graça e de sua ternura. Ele a sente perto de si, a seu lado, nas horas em que trocavam suas mútuas expansões, e nos lugares que ela preferia.

— É poético e sublime, não se pode negar.

(continua...)

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