Por Martins Pena (1845)
PAULINA – Deixa estar, minha santinha de pau oco, que te hei de dar educação, já que tua mãe não te deu... (Entra no seu quarto.)
FABIANA – Psiu, como é isso?... (Vendo Paulina entrar no quarto:) Ah! (Chama:) Sabino! Sabino! Sabino!
CENA XVI
SABINO, de hábito, e FABIANA.
SABINO, entrando – O que temos, minha mãe?
FABIANA – Tu és homem?
SABINO – Sim, senhora, e prezo-me disso.
FABIANA – Que farias tu a quem insultasse tua mãe e espancasse uma irmã?
SABINO – Eu? Dava-lhe quatro canelões.
FABIANA – Só quatro?
SABINO – Darei mais, se for preciso.
FABIANA – Está bem, em tua mulher basta que só dês quatro.
SABINO – Em minha mulher? Eu não dou em mulheres...
FABIANA – Pois então vai dar em teu cunhado, que espancou a tua mãe e a tua irmã.
SABINO – Espancou-as?
FABIANA – Vê como tenho os dedos roxos, e ela também.
SABINO – Oh, há muito tempo que tenho vontade de lhe ir ao pelo, cá por muitas razões... Chegou o dia...
FABIANA – Assim, meu filhinho da minha alma; dá-lhe uma boa sova! Ensina-lhe a ser bem-criado.
SABINO – Deixe-o comigo.
FABIANA – Quebra-lhe a rabeca nos queixos.
SABINO – Verá.
FABIANA – Anda, chama-o cá para esta sala, lá dentro o quarto é pequeno e quebraria os trastes, que não são dele... Rijo, que eu vou para dentro atiçar também teu pai... (Encaminha-se para o fundo, apressada.)
SABINO principia a despir o hábito – Eu o ensinarei...
FABIANA, da porta – Não te esqueças de lhe quebrar a rabeca nos queixos...
CENA XVII
SABINO, só, continuando a tirar o hábito – Já é tempo; não posso aturar este meu cunhado! Dá conselhos à minha mulher; ri-se quando eu falo; maltrata minha mãe... Pagará tudo por junto... (Arregaçando as mangas da camisa:) Tratante! (Chega à porta do quarto de Eduardo.) Senhor meu cunhado?
EDUARDO, dentro – Que é lá?
SABINO – Faça o favor de vir cá fora.
CENA XVIII
EDUARDO e SABINO.
EDUARDO, da porta – O que temos?
SABINO – Temos que conversar.
EDUARDO, gaguejando – Não sabe quanto estimo.....
SABINO, muito gago e zangado – O senhor arremeda-me!
EDUARDO, no mesmo – Não sou capaz...
SABINO, tão raivoso, que sufoca-se – Eu... eu... eu... eu...
EDUARDO, falando direito – Não se engasgue, dê cá o caroço...
SABINO fica tão sufocado, que para exprimir-se rompe a fala no tom da polca – Eu já.. eu já não posso... por mais tempo me conter... hoje mesmo... hoje mesmo... leva tudo o diabo...
EDUARDO desata a rir – Ah, ah, ah!
SABINO – Pode rir-se, pode rir-se... sô patife, hei de ensiná-lo...
EDUARDO, cantando como Sabino – Há de ensinar-me... mas há de ser... mas há de ser... mas há de ser a polca... (Dança.)
SABINO – Maroto! (Lança-se sobre Eduardo e atracam-se, gritando ambos: Maroto! Patife! Diabo! Gago! Eu te ensinarei! – Etc., etc.)
CENA XIX
OLAIA e PAULINA.
PAULINA, entrando – Que bulha é essa? Ah!
OLAIA., entrando – O que é... Ah! (Paulina e Olaia vão apartar os dois que brigam. Olaia:) Eduardo! Eduardo! Meu irmão! Sabino! (Etc.)
PAULINA – Sabino! Sabino! Meu irmão! Eduardo! (Eduardo e Sabino continuam a brigar e descomporem-se. Paulina, para Olaia:) Tu é que tens a culpa!
OLAIA, para Paulina – Tu é que tens!
PAULINA, o mesmo – Cala esse bico!
OLAIA, o mesmo – Não seja tola!
PAULINA, o mesmo – Mirrada!
OLAIA, o mesmo – Tísica! (Paulina e Olaia atiram-se uma à outra e brigam à direita. Eduardo e Sabino, sempre brigando à esquerda.)
CENA XX
FABIANA e os ditos.
FABIANA – Que bulha é esta? Ah! (Corre para as moças.) Então, o que é isto? Meninas! Meninas! (Procura apartá-las.)
CENA XXI
Entra NICOLAU apressado, trazendo pela mão dois meninos vestidos de anjinhos.
NICOLAU – O que é isto? Ah, a brigarem! (Larga os meninos e vai para os dois.) Sabino! Eduardo! Então?... Então, rapazes?...
FABIANA, indo a Nicolau – Isto são obras tuas! (Puxando pelo hábito:) Volta-te para cá; tu é que tens culpa...
NICOLAU – Deixa-me! Sabino!
FABIANA – Volta-te para cá... (Nicolau dá com o pé para trás, alcança-a. Fabiana:) Burro!... (Agarra-lhe nas goelas, o que o obriga a voltar-se e atracarem-se.)
OS DOIS ANJINHOS – Mamãe! Mamãe! (Agarram-se ambos a Fabiana; um deles empurra o outro, que deve cair; levanta-se e atraca-se com o que o empurra, e deste modo Fabiana, Nicolau, Sabino, Eduardo, Olaia, Paulina, 1.º, 2.º Anjinhos, todos brigam e fazem grande algazarra.)
CENA XXII
ANSELMO e os ditos, brigando.
ANSELMO – O que é isto? O que é isto? (Todos, vendo Anselmo apartam-se.)
FABIANA – Oh, é o senhor? Muito estimo...
PAULINA e EDUARDO – Meu pai!
ANSELMO – Todos a brigarem!... (Todos se dirigem a Anselmo, querendo tomar a dianteira para falarem; cada um puxa para seu lado a reclamarem serem atendidos; falam todos ao mesmo tempo. Grande confusão, etc.)
(continua...)
PENA, Martins. Quem casa, quer casa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2156 . Acesso em: 30 jan. 2026