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#Comédias#Literatura Brasileira

O Noviço

Por Martins Pena (1845)

(Batem na porta.) São eles. (Com voz de mulher.) Quem bate?

Mestre, dentro — Um servo de Deus.

Carlos, com a mesma voz — Pode entrar quem é.

CENA XV

Carlos, Mestre de Noviços e três meirinhos

Mestre — Deus esteja nesta casa

Carlos — Humilde serva de Vossa Reverendíssima...

Mestre — Minha senhora, terá a bondade de perdoar-me pelo incômodo que lhe damos, mas nosso dever...

Carlos — Incômodos, Reverendíssimo Senhor?

Mestre — Vossa Senhoria há de permitir que lhe pergunte se o noviço CARLOS, que fugiu do convento...

Carlos — Psiu, caluda!

Mestre — Heim?

Carlos — Está ali...

Mestre — Quem?

Carlos — O noviço...

Mestre — Ah!

Carlos — E preciso surpreendê-lo ...

Mestre — Estes senhores oficiais de justiça nos ajudarão.

Carlos — Muito cuidado. Este meu sobrinho dá-me um trabalho...

Mestre — Ah, a senhora é sua tia?

Carlos — Uma sua criada.

Mestre — Tenho muita satisfação.

Carlos — Não percamos tempo. Fiquem os senhores aqui do lado da porta, Muito calados; eu chamarei o sobrinho. Assim que ele sair, não lhe dêem tempo de fugir; lancem-se de improviso sobre ele e levem-no à força.

Mestre — Muito bem

Carlos — Diga ele o que disser, grite como gritar, não façam caso, arrastem-no.

Mestre — Vamos a isso.

Carlos — Fiquem aqui. (Coloca-os junto à porta da esquerda.) Atenção. (Chamando para dentro:) Psiu! Psiu! Saia cá para fora, devagarinho! (Prevenção.)

CENA XVI

Os mesmos e Rosa vestida de frade e chapéu na cabeça.

Rosa, entrando — Já se foram? (Assim que ela aparece, o Mestre e os meirinhos se lançam sobre ela e procuram carregar até fora.)

Mestre— Está preso. Há de ir. E inútil resistir. Assim não se foge... (Etc., etc.)

Rosa, lutando sempre — Ai, ai, acudam-me! Deixem-me! Quem me socorre? (Etc.)

Carlos —Levem-no, levem-no. (Algazarra de vozes; todos falam ao mesmo tempo, etc. CARLOS, para aumentar o ruído, toma um assobio que está sobre a mesa e toca. Juca também entra nessa ocasião, etc. Execução.)

FIM DO PRIMEIRO ATO

ATO SEGUNDO

A mesma sala do primeiro ato

CENA I

Carlos, ainda vestido de mulher, está sentado e Juca à janela.

Carlos — Juca, toma sentido; assim que avistares teu padrasto lá no fim da rua, avisa-me.

Juca — Sim, primo.

Carlos — No que dará tudo isto? Qual será a sorte de minha tia? Que lição! Desanda tudo em muita pancadaria. E a outra, que foi para o convento?... Ah, ah, ah, agora é que me lembro dessa! Que confusão entre os frades quando ela se der a conhecer! (Levantando-se:) Ah, ah, ah, parece-me que estou vendo o D. Abade horrorizado, o mestre de noviços limpando os óculos de boca aberta, Frei Maurício, o folgazão, a rir-se às gargalhadas, Frei Sinfrônio, o austero, levantando os olhos para o céu abismado, e os noviços todos fazendo roda, coçando o cachaço. Ah, que festa perco eu! Enquanto eu lá estive ninguém lembrou-se de dar-me semelhante divertimento. Estúpidos! Mas, o fim de tudo isto? O fim?...

Juca, da janela — Aí vem ele!

Carlos —Já? (Chega à janela.) É verdade. E com que pressa! (Para JUCA:) Vai tu para dentro. ( JUCA sai.) E eu ainda deste modo, com este vestido... Se eu sei o que hei de fazer?... Sobe a escada...Dê no que der... (Entra no quarto onde esteve

ROSA)

CENA II

Entra Ambrósio; mostra no semblante alguma agitação.

Ambrósio — Lá as deixei no Carmo. Entretidas com o ofício, não darão falta de mim. É preciso, e quanto antes, que eu fale com esta mulher! É ela, não há dúvida... Mas como soube que eu aqui estava? Quem lhe disse? Quem a trouxe? Foi o diabo, para a minha perdição. Em um momento pode tudo mudar; não se perca tempo. (Chega à porta do quarto) Senhora, queira ter a bondade de sair cá para fora.

CENA III

Entra Carlos cobrindo o rosto com um lenço. Ambrósio encaminha-se para o meio da sala, sem olhar para ele, e assim lhe fala.

Ambrósio — Senhora, muito bem conheço as vossas intenções; porém previno-vos que muito vos enganasteis.

Carlos — Ai, ai!

Ambrósio — Há seis anos que vos deixei; tive para isso motivos muito poderosos...

Carlos, à parte — Que tratante!

Ambrósio — E o meu silêncio depois deste tempo, devia ter-vos feito conhecer que nada mais existe de comum entre nós.

Carlos, fingindo que chora — Hi, hi, hi ...

Ambrósio — O pranto não me comove. Jamais podemos viver juntos... Fomos casados, é verdade, mas que importa?

Carlos, no mesmo — Hi, hi, hi...

Ambrósio — Estou resolvido a viver separado de vós.

Carlos , à parte — E eu também...

Ambrósio— E para esse fim empreguei todos os meios, todos, entendeis-me?

(CARLOS cai de joelhos aos pés de AMBRÓSIO, e agarra-se às pernas dele, chorando.) Não valem súplicas. Hoje mesmo deixareis esta cidade; senão, serei capaz de um grande crime. O sangue não me aterra, e ai de quem me resiste!

Levantai-vos e parti. ( CARLOS puxa as pernas de AMBRÓSIO, dá com ele no chão e levanta-se, rindo-se.) Ai!

Carlos — Ah, ah, ah!

Ambrósio, levanta-se muito devagar, olhando muito admirado para Carlos, que se ri — Carlos! Carlos!

Carlos — Senhor meu tio! Ah, ah, ah!

Ambrósio — Mas então o que é isto?

Carlos — Ah, ah, ah!

Ambrósio — Como te achas aqui assim vestido?

(continua...)

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