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#Comédias#Literatura Brasileira

O Namorador ou a Noite de São João

Por Martins Pena (1845)

CLARA – Fui sim, mas não sabia que as convidava para desinquietarem um homem casado.


LUÍS – Um homem casado?

CLARA – Um pai de família que se devia fazer respeitar pela sua idade.

LUÍS – Ai, que eu continuo a falar da prima, e ela do tio.

CLARA – Vou botá-los pela porta a fora.

LUÍS – Espere, tia, há engano entre nós. A tia fala do tio, e eu...

CLARA – E tenho muita razão de falar.

LUÍS – Não digo menos disso. O que eu pretendia dizer-lhe era...

CLARA – Já sei o que é. Quer desculpá-lo! Não vê que também é homem? Lá se entendem.

LUÍS – Continuamos no mesmo. Tia, atenda-me somente por alguns instantes, e depois eu lhe ajudarei a procurar o tio.

CLARA – Pois fala depressa.

LUÍS – Todos conhecem-me por namorador. Uns dizem que isto em mim é sistema, outros, que é devido ao meu gênio folgazão e alegre. Seja o que for, estou resolvido a acabar com todos esses namoros e casar-me. A resolução é extrema e de botar a perder um homem, mas a sorte está lançada.

CLARA, preocupada – Eu hei-de indagar isto.

LUÍS – Pode indagar. Falo de boa fé. E em quem poderia recair a minha escolha, senão na minha bela priminha?

CLARA – Não posso consentir.

LUÍS – Não? E por que motivo?

CLARA – Na sua idade?

LUÍS – Perdoe-me a tia; está em muito boa idade.

CLARA – Boa idade! Sessenta e cinco anos!

LUÍS – Adeus, tia, que não estou mais para jogar os disparates. (Vai para esquerda da cena e Clara vai para sair pelo fundo.)

CLARA, caminhando – Ah, Sr. João? Sr. João? Eu hei-de dar com ele! (Vai-se pelo fundo.)

CENA XIV

Luís só.

LUÍS – Quando os ciúmes metem-se na cabeça de uma mulher é isto. E se é velha como esta... Mau agouro para mim. Ora. Sr. Luís, é então verdade que o senhor está resolvido a casar-se? Já se não lembra do que dizia do casamento e dos grandes inconvenientes que lhe achava? Quer deixar a sua bela vida de namorador? O que é isto? Que resolução foi a sua? Que dirá a Ritinha, a Joaninha, a viuvinha, a Joaquinhinha, a Emília, a Henriqueta, a Cocota, a Quitinha, a Lulu, a Leopoldina, a Deolinda e as outras namoradas? Responde, Sr. Luís. Os diabos me levem se eu sei responder. (Assenta-se no banco de relva. Ouve-se dentro de casa a voz de Júlio, que canta uma modinha, acompanhado por piano. [N.B.:] A modinha fica a escolha do autor. Logo que a tiver acabado de cantar, dão palmas. Tudo isto, porém, não interromperá a continuação das cenas.) Lá está cantando modinhas! Se estivesse como eu, não havia de ter vontade de cantar. Então? O caso não me tem feito impressão. (Aqui aparece no fundo, caminhando para a frente da cena, Clementina.) Ainda não sei o que farei. Creio que mesmo depois dos pregões corridos sou capaz de mandar tudo à tabua. Mas o meu capricho? Estou arranjado!

CENA XV

Clementina e Luís.

CLEMENTINA, sem ver Luís – Estou com curiosidade de ver como estará o ovo... (Vai para ver o copo e Luís levanta-se.)

LUÍS – Priminha?

CLEMENTINA – Ai!

LUÍS – Não se assuste.

CLEMENTINA – Não gosto destes brinquedos. Que susto! Eu vinha ver o ovo.

LUÍS – Encontraste com um amante; é o mesmo. O amante é como o ovo, que muitas vezes gora.

CLEMENTINA – Fala de si? (Rindo-se.)

LUÍS – Antigamente assim fui, mas agora, priminha da minha alma, estou mudado. A noite de S. João fez um milagre. Ai, ai! (Suspira ruidosamente.)

CLEMENTINA – Bravo! Por quem é esse suspiro tão puxado?

LUÍS, caindo de joelhos – Por ti, minha priminha.

CLEMENTINA, desata a rir – Ah, ah! Por mim? Ó Ritinha?

LUÍS – Cala-te!

CLEMENTINA – Quero que ela venha ver isto e que caminho leva o seu amor.


LUÍS – Ms há já três meses que ela me ama!

CLEMENTINA – Boa razão! Não a ama porque ela ainda o ama. É isto?

LUÍS – Pois priminha, há três meses que ela me ama, e isto já é teima, e eu não me caso com mulher teimosa, isso nem pelo diabo.

CLEMENTINA – É teima? Quem te ensinará!

LUÍS – Amei-a como amei a Quitinha, etc.

CLEMENTINA – O que aí vai! E todas essas foram teimosas?

LUÍS – Umas mais, outras menos, mas tu, minha querida priminha...

CLEMENTINA – Oh, não se canse, que não sou teimosa; cedo desde já.

LUÍS – Contigo o caso é outro; hoje mesmo te principiei a amar, hoje mesmo nos casaremos e hoje mesmo...

CLEMENTINA, interrompendo-o – Ah, ah, ah! Ó Ritinha? Ritinha? (Ritinha aparece e encaminha-se para eles. Traz na mão uma vara com uma rodinha acesa. Os negros acendem a fogueira.)

LUÍS – Também isto agora é teima!

CLEMENTINA – Vem cá.


RITINHA – O que é?


CLEMENTINA – Não te dizia que me admirava dos três meses?


RITINHA – Ah!

CLEMENTINA – Já te não ama, e chama-te de teimosa.

LUÍS – Priminha!

RITINHA – Já me não ama? (Ritinha diz estas palavras dirigindo-se para Luís, que salta para evitar o fogo da rodinha que Ritinha dirige contra ele.)


LUÍS, saltando – Cuidado com o fogo!

CLEMENTINA – Fazia-me protestos de amor.

RITINHA, mesmo jogo – Ah, fazia protestos de amor?

LUÍS – Não me queime! ( O velho fecha a janela com receio, que o vejam.)


CLEMENTINA – Disse que ardia por mim.

LUÍS, fugindo de Ritinha, que o persegue com a rodinha – Agora é que eu arderei, se me deitam fogo.

RITINHA, mesmo jogo – Assim é que me pagas!

(continua...)

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