Por Martins Pena (1844)
Chiquinha — A mana, que não sente por ti o que eu sinto, tem coragem para te falar e enganar, enquanto eu, que tanto te amo, não ouso levantar os olhos para ti. Assim vai o mundo! Nunca terei valor para fazer-lhe a confissão deste amor, que me faz tão desgraçada; nunca, que morreria de vergonha! Ele nem em mim pensa. Casar-me com ele seria a maior das felicidades. (Faustino, que durante o tempo que Chiquinha fala vem aproximando-se e ouvindo com prazer quanto ela diz, cai a seus pés)
Faustino — Anjo do céu! (Chiquinha dá um grito, assustada, levanta-se rapidamente para fugir e Faustino a retém pelo vestido) Espera!
Chiquinha, gritando — Ai, quem me acode?
Faustino — Não te assustes, é o teu amante, o teu noivo... o ditoso Faustino!
Chiquinha (force ando para fugir) — Deixe-me!
Faustino (tirando o chapéu) — Não me conheces? É o teu Faustino!
Chiquinha (reconhecendo-o) — Sr. Faustino!
Faustino (sempre de joelhos) — Ele mesmo, encantadora criatura! Ele mesmo, que tudo ouviu.
Chiquinha (escondendo o rosto nas mãos) — Meu Deus!
Faustino — Não te envergonhes. (Levanta-se) E não te admires de ver-me tão ridiculamente vestido para um amante adorado.
Chiquinha — Deixe-me ir para dentro.
Faustino — Oh. não! Ouvir-me-ás primeiro. Por causa de tua irmã eu estava escondido nestes trajas: mas prouve a Deus que eles me servissem para descobrir a sua perfídia e ouvir a tua ingênua confissão, tanto mais preciosa, quanto inesperada.
Eu te amo, eu te amo!
Chiquinha — A mana pode ouvi-lo!
Faustino — A mana! Que venha ouvir-me! Quero dizer-lhe nas bochechas o que penso. Se eu tivesse adivinhado em ti tanta candura e amor, não teria passado por tantos dissabores e desgostos, e não teria visto com meus próprios olhos a maior das patifarias! Tua mana e... Enfim, eu cá sei o que ela é, e basta. Deixemo-la, falemos só no nosso amor! Não olhes para minhas botas... Tuas palavras acenderam em meu peito uma paixão vulcânico-piramidal e delirante. Há um momento que nasceu, mas já está grande como o universo. Conquistaste-me! Terás o pago de tanto amor! Não duvides; amanhã virei pedir-te a teu pai.
Chiquinha (involuntariamente) — Será possível?!
Faustino — Mais que possível, possibilíssimo!
Chiquinha — Oh! está me enganando... E o seu amor por Maricota?
Faustino (declamando) — Maricota trouxe o inferno para minha alma, se é que não levou minha alma para o inferno! O meu amor por ela foi-se, voou, extinguiu-se como um foguete de lágrimas!
Chiquinha — Seria crueldade se zombasse de mim! De mim, que ocultava a todos o meu segredo.
Faustino — Zombar de ti! Seria mais fácil zombar do meu ministro! Mas, silêncio, que parece-me que sobem as escadas.
Chiquinha, assustada — Será meu pai?
Faustino — Nada digas do que ouviste: é preciso que ninguém saiba que eu estou aqui incógnito. Do segredo depende a nossa dita.
Pimenta (dentro) — Diga-lhe que não pode ser.
Faustino — É teu pai!
Chiquinha — É meu pai!
Ambos — Adeus (Chiquinha entra correndo e Faustino põe o chapéu na cabeça, e toma o seu lugar)
CENA XI
Pimenta e depois Antônio Domingos.
Pimenta — é boa! Querem todos ser dispensados das paradas! Agora é que o sargento anda passeando. Lá ficou o capitão à espera. Ficou espantado com o que eu lhe disse a respeito da música. Tem razão, que se souberem, podem-lhe dar com a demissão pelas ventas. (Aqui batem palmas dentro) Quem é?
Antônio (dentro) — Um seu criado. Dá licença?
Pimenta — Entre quem é. (Entra Antônio Domingos) Ah, é o Sr. Antônio Domingos!
Seja bem aparecido; como vai isso?
Antônio — A seu dispor.
Pimenta — Dê cá o seu chapéu. (Toma o chapéu e o põe sobre o mesa) Então, o que ordena?
Antônio (com mistério) — Trata-se do negócio...
Pimenta — Ah, espere! (Vai fechar a porta do fundo, espiando primeiro se alguém os poderá ouvir) É preciso cautela. (Cerra a porta que dá para o interior)
Antônio — Toda é pouca. (Vendo o judas:) Aquilo é um judas?
Pimenta — É dos pequenos. Então?
Antônio — Chegou nova remessa do Porto. Os sócios continuam a trabalhar com ardor. Aqui estão dous contos (tira da algibeira dous maços de papéis), um em cada maço; é dos azuis. Desta vez vieram mais bem feitos. (Mostra uma nota de cinco mil-réis que tira do bolso do colete) Veja; está perfeitíssima.
Pimenta (examinando-a) — Assim é.
Antônio — Mandei aos sócios fabricantes o relatório do exame que fizeram na Caixa da Amortização, sobre as da penúltima remessa, e eles emendaram a mão.
Aposto que ninguém as diferençará das verdadeiras.
Pimenta — Quando chegaram?
Antônio — Ontem, no navio que chegou do Porto.
Pimenta — E como vieram?
Antônio — Dentro de um barril de paios.
Pimenta — O lucro que deixa não é mau; mas arrisca-se a pele...
Antônio — O que receia?
Pimenta — O que receio? Se nos dão na malhada, adeus minhas encomendas!
Tenho filhos...
Antônio —
Deixe-se de sustos. Já tivemos duas remessas, e o senhor só por sua parte
passou dous contos e quinhentos mil-réis, e nada lhe aconteceu.
(continua...)
PENA, Martins. O Judas em Sábado de Aleluia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17002 . Acesso em: 28 jan. 2026.